Ir para a página principalRetornar para Festança

Março 2001
Ano III - nº 31

A QUARESMA EM CORURIPE

Chegara o tempo quaresmal.

As chuvas de trovoadas, de quando em vez, toldavam a limpidez do céu.

As tardes tornavam-se cheias de melancolia e logo que o véu da noite amortalhava a terra das bandas do poente, aqui e ali o relâmpago abria focos incandescentes em múltiplas formas. Não raro, aos fundos do clarão, raios luminosos se entrelaçavam, descrevendo imensas parábolas. Mais tarde um estrondo meio abafado anunciava os trovões que se aproximavam. O tempo tornava-se incerto. Aquelas primeiras chuvas significavam um grande favor da Mãe Natureza, oferecendo aos plantadores as melhores esperanças na futura safra.

As manhãs eram magníficas. Todos os horizontes vestiam-se na roupagem branca da neblina e as palhas verdes das canas, aos primeiros raios do sol, eram como que cravejadas de gotas multicores, pelo beijo frio do orvalho matutino.

De cada lado do vale, quem estivesse à porta da matriz, haveria de ver, perdidas as distâncias, as frondes dos paus d’arcos, como se fossem umbelas doiradas ou roxas, desafiando as pompas luxuosas dos jardins matizados de flores.

Os coqueiros que formavam uma espécie de alameda na embocadura da estrada que contorna o lado esquerdo do vale, eretos, qual sentinelas indormidas, esgueiravam-se no espaço, como se velassem apaixonadamente a beleza daquela faixa de terra bendita pela fertilidade e fartura, que até hoje ainda permanece numa expressão de encanto e poesia.

E enquanto o rio Coruripe se estende preguiçosamente em sinuosidades. o mugido dos bois, no silêncio da manhã, lembrava uivos de trem, dilacerando a profundeza das grotas.

E toda a população, grata àquela dádiva da natureza, ofertada pelo Criador, procurava o Templo Sagrado, para, submissa, acompanhar as comemorações da passagem do Cristo por sua via Dolorosa.

Ninguém perderia tais solenidades que eram assistidas com muita fé e respeito.

As distâncias longínquas eram vencidas e para ouvir a palavra do Evangelho, os romeiros dos mais afastados pontos do município sem medir sacrifício e não temendo dificuldades acorriam à cidade aí permanecendo até que se entoassem as aleluias da ressurreição.

Numa charola, o Divino Senhor dos Passos, ajoelhado, de cruz às costas, lembrava a caminhada do mártir do Gólgota pela rua da Amargura.

Em pontos determinados, erguia-se um altar, cheio de flores, em cujo fundo se via um quadro da Via Dolorosa. Aí, algumas pessoas aguardavam a chegada da procissão quando seria entoado o miserere.

Ao lado da charola, viam-se em fila as zeladoras do Sagrado Coração de Jesus, à guisa de guarda de honra a Verônica, toda de preto, embuçada num capuz. Carregava nas mãos um pano branco que se abria à maneira de estandarte mostrando a face de Jesus ensanguentada. Depois do miserere, ouvia-se em música melodiosa o "Ó vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si esto dolor sicut dolor meus".

Chegava, por fim, a Semana Santa.

No Domingo de Ramos, a matriz se enchia para que todos recebessem as suas palhas bentas e acompanhassem a procissão que simboliza a entrada triunfal de Cristo em Jerusalém.

Daí por diante seguiam-se todos os atos que eram celebrados e ouvidos com carinhosa demonstração de fé.

Finda a procissão do encontro, logo que a cidade estivesse em silêncio, a rapaziada folgazã preparava-se para serra os velhos que de antemão estudavam os impropérios para retribuir às algazarras.

A noite de Quarta-Feira Santa era de verdadeiro reboliço. Ficava transtornado por completo o sentimento de piedade em virtude da algazarra que se ouvia por todos os recantos da cidade.

Os rapazes tomavam as portas de cada um dos pobres velhos e, debaixo do barulho infernal de chocalhos, latas de folhas de Flandres um serrote corroendo as bordas de um caixão, secundava a pergunta do encarregado de fazer o testamento da vítima desacautelada.

- Você para quem deixa o seu cavalo sem dentes? - perguntava o serrador.

E o velho, escabujando pelos quatro cantos da casa, de punhal à mão, sem que pudesse conseguir abrir a porta que estava forçada por duas ou três pessoas, gritava no auge da cólera:

- Deixo para seu pai!

E tantas perguntas se lhe fizessem, como a resposta seria a mais desaforada possível. E assim iam até alta madrugada.

Na sexta-feira da Quaresma saía a tradicional Procissão das Almas. Três homens vestidos de alvas, carregavam a cruz e as lanternas, e cantavam o miserere em todas as encruzilhadas das ruas.

Dava-se-lhe início sempre com poucas pessoas. A medida, porém, que se ouvia o bradado, todos os que abrissem as portas de casa - homens, mulheres e meninos - deveriam seguir a cruz, sob pena e medo de morrerem àquele ano. Levado por essa tradição, o povo ajoelhava-se silenciosamente, depois do miserere a escutar o bradado, cantado a plena voz por um dos romeiros, em cada uma encruzilhada:

- Alerta, pecador! Alerta que a morte é certa e a vida é incerta!

Findo o que, a mesma pessoa, agora em voz baixa, lugubremente solicitava se rezasse im Padre-Nosso e uma Ave-Maria para as almas do Purgatório.

E assim se celebravam, no velho Coruripe, as tradições religiosas do tempo quaresmal até o Surrexit Dominus Vero, Aleluia.

(Excerto do romance regional inédito: Coruripe)


[1960-1961]


(CASTRO, Lima. Em Boletim Alagoano de Folclore.)

Topo

Jangada Brasil © 2000