Março
2001
Ano III - nº 31 |
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Chama-se jeropiga a uma
bebida alcoólica, feita de suco de fruta, álcool e açúcar, ou também um pseudo vinho
cuja fermentação foi suspensa pela adição de 10 a 13 por cento de álcool.
Já o Pequeno dicionário da língua portuguesa define-a de modo um pouco diferente
"Bebiba feita de mosto, aguardente e açúcar; vinho cuja fermentação foi suspensa
com aguardente na proporção de 20 a 25 por cento; vinho ordinário, zurrapa."
A jeropiga é diferente do vinho, porque este é o produto obtido pela fermentação
alcoólica da uva madura esmagada ou do suco de uva madura. Mas também nos produtos
obtidos exclusivamente pela fermentação alcóolica de frutas frescas maduras, obedecidos
os mesmos preceitos estabelecidos para a vinificação (da uva), é permitido o nome de
vinho seguido da declaração expressa de sua natureza, no rótulo, em caracteres nítidos
e de igual tamanho. Exemplos: vinho de laranja, vinho de caju, vinho de abacaxi, etc.
Estes são os vinhos de frutas. Portanto, a jeropiga é muito diferente do vinho, porque,
enquanto neste, o álcool é produzido à custa do açúcar do mosto, na jeropiga ele é
adicionado no início ou durante a fermentação, que principia com fim de paralisá-la ou
emudecê-la, como se costuma dizer.
Há quem afirme que, a não ser a uva, as demais frutas não dão bom vinho,
fornecendo-nos boas jeropigas.
Mesmo assim, o sertanejo prefere não a ingerir, a menos que conheça bem a sua
confecção. É assim que, ao lhe oferecerem uma bebida qualquer desconhecida, costumam
dizer:
Prefiro minha caninha
Que não faz mal a ninguém
À jeropiga docinha
Que nem sempre me faz bem
A jeropiga tem também o nome de mistela, termo popular, cuja verdadeira
significação é: "comida ou bebida mal feita e de sabor desagradável".
De forma que na linguagem popular, jeropiga ou mistela é qualquer coisa de sabor
desagradável (ou não), uma mixórdia alimentar qualquer de composição desconhecida e
efeitos perigosos.
Entretanto, é quase unicamente usada para líquidos, como o termo beberagem -
medicamento posto em garrafa para ser ingerido.
A diferença entre jeropiga e beberage (como chama o tabaréu) é que a primeira é
facultativa e a segunda é obrigatória, pois, todos nós sabemos a confiança que o homem
do campo tem nos curandeiros e charlatãs...
Tratando-se de uma meizinha ou mézinha, ingerem logo, sem procurar saber o
seu conteúdo mas, ao se tratar de uma jeropiga, nem a mão de Deus Padre entornam pela
goela abaixo...
Quando se oferece ao nosso Jeca uma bebida, que ele desconhece, para substituir a cachaça
ou mesmo um refrigerante qualquer, vira-se para nós com um ar desconfiado e responde:
- Discurpe, seu moço, mas eu não bebo desta jeropiga, que é remédio pra formiga...
Não consegui saber o etimo do termo jeropiga (que aliás, não é nosso); o termo popular
brasileiro é mistela, que quase nunca é usado com a mesma significação. Daí as
seguintes quadras:
Da uva se faz o vinho
Da cana verde a cachaça
Tudo mais é jeropiga
Na minha goela não passa
Quem tiver sua bebida
Por favor não me ofereça
Eu não bebo jeropiga
Embora não pareça
Pois, a tal da jeropiga
É meizinha pra formiga
(Do jornal A Tarde, de Salvador, Bahia, edição de 16/12/1950)
(ALMEIDA, Luiz R. de. Em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore,
março de 1951) |
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