| Este pasquim foi composto
por Manuel José de Borba, natural da Lagoa, em 1893-1894. Em 1954 já era falecido.
Devem ler com atenção
Os versos deste pasquim
São um pouco divertidos
Do princípio até o fim
Amigos, vamos falar
Em que chegou o siri
A 1.200 a dúzia
Coisa queu nunca vi
O povo de Trás-do-Morro
E o de Tacurubi
se continuar assim
Acaba com o siri...
Isto é um desaforo
Que não devia ser:
Passar a ser negócio
Apanhar para vender
Até o Manuel João
Aquele cara de fome
Com seus olhos pelados
Parecia um lambishome
Já na ponte da Lagoa
Os siris que apanhou
Vendeu a pata a dúzia
E pra casa não levou
Queimou o chapéu de botiá
(Contudo não lhe fez dano)
Com o dinheiro dos siris
Comprou agora um de pano
O povo de Trás-do-Morro
Não se farta de ser leiteiro
Agora também é
Enganado sirizeiro...
O povo de Trás-do-Morro
Anda todo disparado
Com o dinheiro dos siris
Té faz casa de sobrado
O café e a farinha
Não dão tanto resultado
Como os siris estão dando
Aqui dentro do estado
Estão vendendo seguido
A três vinténs cada siria
Com efeito!... É roubar...
Cruzes, Credo, Ave-Maria!
Até o Manuel Vieira
Professor de Tacurubi
Já abandonou a escola
Meteu-se a apanhar siri
Agora, como são férias
Por ora tudo vai bem
Ganha o seu ordenado
E negoceia também
Senhor José Alexandre
É homem que briga à toa
Cuidado não vá brigar
Com os siris da Lagoa
O senhor Manuel Alexandre
Para lá foi disparado
Roubaram-lhe o cavalo
E foi pra casa encilhado
Pois o rapaz da Merencia
Levou uma grande esfrega
Porque os siris lhe cortaram
A corda de sua égua
Uma noite e um dia
Levou ele a procurar
Já tinha entristecido
E disparado a chorar
Eles deviam cortar
Era o rabo não a corda
Para que todos dissessem:
"Olha a egüinha da moda"
O senhor Joaquim Poluceno
Com o seu nariz cambado
Deve ter muito cuidado
Não vá morrer afogado
O sapo de Trás-do-Morro
Eu como siri da Lagoa
Como é bicho espantado
Mete-se logo na taboa
O senhor João Ozébio
Deve ter muito cuidado
Não vá pegar algum sapo
E ficar muito assustado
Como lhe aconteceu
Com um sapo que pegou
Botou dentro do balaio
E o sapo ali ficou
Depois um siri o pegou
E o sapo deu em gritar
Andava o João Ozébio
Em redor a precurar
Era dentro do balaio
Que o pobre sapo gritava
Aquele burro não via
Com a pressa que andava
Aqui te Tacurubi
Foi o que vi passar
Não sei se foi mais algum
Para a ponte variar
O senhor Marcos Elias
É um polaco danado
No beril das areias
Pegou um siri a nado
O senhor José Cardosa
Não se lembra do passado
No beril das areias
Ia morrendo afogado
De cabeça para baixo
Lá ia como um danado
Se outros não acudissem
Ele lá tinha ficado
Foi o seu Manuel Luís
Na ponte de tarrafiar
E o Juca também foi
Para os siris ajuntar
O Venceslau da Camila
De ceroula e de colete
Com o boné na cabeça
Parecia Nique Foguete
O Venceslau da Camila
De boné e de colete
Parecia um polaco
Mandado por um cadete
O cadete era o Juca
O causante do barulho
Mandava o polaco pegar
Nem que fosse de mergulho
O senhor Manuel Florenço
Dizem estar criminoso
Porque brigou com o Juca
E fez um samba perigoso
Pela invejão que há
Eu já estava admirado
Ajuntar-se tanto povo
E ainda não ter brigado
Dizem até que já brigaram
Me disseram, eu não vi
Só pela grande invejão
Da pescaria do siri
Se o siri não se acabar
Que vá havendo seguido
Há de haver muita pancada
E muito homem ferido
O senhor Antonho Isabel
Pela fama que corria
Também foi lá à Lagoa
Encomodar as sirias
Também lá apareceu
O nosso amigo Crispim
Não podendo apanhar siri
Virou-se a comer capim
O senhor Alexandre Ourives
Também com sua tarrafa
Não vai lá muito a miúdo
Que isto é uma grande estafa
O Donato mais o Ourives
Com o balaio bem cheinho
Amanheceram na ponte
Como o gambá no caminho
Pois o Donato e o Ourives
Bem podiam se mudar
Pra freguesia da Lagoa
E poder negociar
O Manuel Albino Terra
É filho de meia légua
Ele ainda não sabia
Que havia siri catinga
O Manuel Albino Terra
Está em lugar do Lorena
Já mandou pegar em armas
Sua força mais pequena
O nosso amigo Ismael
Comandante superior
É que leva o armamento
Para bordo do vapor
Na casa do Ismael
Eu vi muitos no varal
Quase todos siris machos
E sirias de casal...
Pois o senhor Ismael
Este é o mais enganado
Não há siri que lhe chegue
Para vender no mercado
Também foi lá à Lagoa
O senhor José Maria
Veio de lá torcendo linha
Com a barriga vazia
O filho do João Machado
Meia língua trapalhão
Lá na ponte da Lagoa
Atirou-se no fundão
O senhor Joaquim Machado
Também foi experimentar
Se o ganho dos siris
Daria para lucrar
Junto com o seu irmão
Interessava o negócio
Um matava, o outro vendia
Era o amo e mais o sócio
O nosso amigo Anastácio
Tem o posto de barbeiro
Botou-se a apanhar siris
Que lhe dava mais dinheiro
A mulher ficou em casa
E passou só com o cheiro
Porque ele é um cigano
Que não pode ver dinheiro
Pois até o Inocêncio
Aquele barba barrosa
Também foi lá pra ponte
Tarrafiar todo prosa
O senhor Miguel Silva
E o Joaquim Laurentino
Um atrás, outro adiante
Pareciam dois toca-sino
O crioulo José Martins
Morador lá no sertão
Apanhou sete sirias
E vendeu por cinco tostão
O senhor Joâo Sebastião
Também é outro godéro
Com a tarrafa nas costas
Parecia um quero-quero
O senhor Chico Clemente
Este é outro esganado
Para apanhar um siri
Quasi se botou a nado
Também lá apareceu
O senhor João Bernardo
Não devia de lá ir
Sendo ele um soldado
O Luís Cordeiro Gambá
Quando chegou lá no morro
Olho atrás, olho adiante
Com medo dálgum cachorro
O senhor João Matias
Mais pequeno gambazinho
Não sabe apanhar siris...
Tenho pena, coitadinho!
Também foi lá na lagoa
Seu Alexandre Anestinho
Com a forca e o balaio
Apanhar um sirizinho
O senhor Jacinto Cardoso
Morador da freguesia
Ainda não se enfarou
De comer ova de siria
O senhor Jacinto Cardoso
Me disseram, eu não vi
Não falha dia nenhum
Que não vá pescar siri
O Paulino da Caleira
Andava lá disparado
Com a sua periquita
Parecia um esganado
Pois até o Joaquinzinho
É uma autoridade
É inspetor dos siris
Por sua livre vontade
Por ser ele inspetor
É que ficou obrigado
A apresentar uma lista
Dos siris que são casados
O emprego do Joaquim
O diabo que o queira:
É preciso que não durma
E ande sempre de carreira
Amaro, Nelson e Pinheiro
Antônio Teixeira e Martinho
Me consta que também foram
Na ponte fazer bagrinho
Amaro, Nelson, Pinheiro
E também o João Correia
Com esta revolução
Que parece um batalhão
O povo de Trás-do-Morro
Anda apanhando siri
Pra fazer um batalhão
Para apresentar por si
Até os pobres siris
Vão passar a ser soldados
Para defender a pátria
Em lugar dos esganados
Até os pobres dos siris
Já não vêm ao pé da terra
Quando o batalhão se forma
Como quem faz fogo em guerra
O povo da freguesia
É o povo acovardado
Já deixou os polacos
Lhe tomarem o estado
Eles deram em escrever
Para o senhor Pedro Teixeira
Que viesse com sua rede
Pra cercar a marisqueira
O nosso amigo Venceslau
Do dinheiro que já fez
Já gastou todo no jogo
Está pobre de uma vez
O Venceslau da Camila
Ao presidente do estado
No dia nove do mês
Apresentou-se fardado
Pois carregou um cavalo
Somente de armamento
Na fortaleza da Barra
Vai fazer destacamento
O nosso amigo Deluvino
Comandante da esquadra
Que tome sentido, não volte
Com a cabeça quebrada
O povo de Trás-do-Morro
Em cima do paredão
Forma de tal maneira
Andavam de mala cheia
As forquilhas dos polacos
Não são capaz de quebrar
Já são feitas de prepósito
Para nunca se acabar
Quatro pregos em um pau
Pregados com segurança
Pareciam os rio-grandenses
Cada um com sua lança
Se o povo da freguesia
Levasse de prevenção
Já tinha feito acabar
Com esta vadiação
No dia sete de dezembro
Lá na ponte da Lagoa
Logo depois do meio-dia
Contei oitenta pessoas
Mas agora é principio
Porque nunca se contou
Do siri chegar ao preço
Que nesta era chegou
O povo de Trás-do-Morro
Como já está enfarado
De comer siris frescos
Já tem porção escalado
O povo de Trás-do-Morro
Devia imaginar
Da miséria que há de haver
Quando o siri se acabar...
O povo da freguesia
Já vive desconsolado
Por não comer mais siri
E lhe tomarem o estado
Pois vão fazer uma lista
E a seguinte declaração
Com a idade e a família
E também a profissão
Como agora há siris
Eles têm muita fartura
De repente a luz se apaga
E hão de ficar à escura
Desprezam a lavoura
Já não cuidam em trabalhar
Amanhecem e anoitecem
Na ponte a tarrafiar
Quando chega este tempo
Não se vê senão passar
O povo de toda a banda
Para a ponte a vadiar
Ainda ontem ouvi dizer
Não sei se isto é verdade
Hoje há muita mentira
Mas eu corto pela metade
Eu faço uma idéia
Dos fachos que têm passado
Mais de 700 ripas
Já eles têm queimado
As casas de Trás-do-Morro
Que têm paredes de ripas
Ainda havemos de ver
Tapadas de tiriricas
O negócio do siri
É uma vadiação
Até mulheres têm ido
Para a mesma procissão
As mulheres do Pantanal
Não têm agulhas nem fuso
Foram lá para a Lagoa
Comer miolo de buso
Depois que anoiteceu
Em casa de Policarpa
Ferrou-se um farué
Que te espantou a vaca
Cerrou-se um baile sem cota
Um pagode sem viola
Dançaram xotes e valsas
A toque de castanhola
Se eu fosse convidado
Também eu lá tinha ido
Com uma buzina na boca
Tocar um xote corrido
Como não fui convidado
Não quis ser oferecido
Perdi um grande pagode
Hoje estou arrependido
Este ano na Lagoa
Vale a pena a gente ir
Quem não apanha siri
Ao menos consola-se a rir
No dia que eu fui lá
Também não foi brincadeira
Pois uma siria mordeu
O senhor Antônio Silveira
Pegou ela na barriga
Não sei como não furou
Já estava bem apertado
Quando a siria o deixou
Teve grande prejuízo
O filho do João Silveira
Queimou a roupa que tinha
Guardada na capoeira
Camisa, calça e ceroula
E uma faca com bainha...
De certo também queimou
Alguma pulga que tinha
Pegou fogo no Bilé
Em uma manga de camisa
Os outros logo disseram:
"Deixa queimar o lambiza."
Se eu conhecesse bem
O povo da freguesia
Dos casos que têm passado
Ainda mais eu contaria
Por aqui vou acabar
O final do pesquim
Um versinho puxa outro
Isto nunca mais tem fim
O final do pesquim
Em uma cantiga se encerra
Quem notou foi a Vicença
Quem escreveu, o Albino Terra
F I M
(Em BOITEUX, Lucas A. Achegas à poranduba catarinense. Boletim
trimestral da Comissão Catarinense de Folclore)
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