Conheci a tia Chica em 1924,
num veraneio passado em Ubatuba, na ilha de São Francisco, e noutro, em 1926, tornei-me
seu amigo e confidente. Ela morava numa casinha de madeira, duma só peça, não muito
longe do mar. Devia ter mais ou menos 70 anos. Era morena bronzeada, magra, em tudo igual
às mulheres de sua condição e idade, mas os olhos eram grandes e castanhos, uns olhos
eloqüentes, que deviam ter sido fascinantes na mocidade. Os braços, os pés e o rosto
cobertos de pó e curtidos pelo sopro salino do oceano, pareciam de múmia. O coração
era bondoso, e o ânimo forte, pois nunca lhe ouvi uma queixa. Cria sem sombra de dúvida,
e falava do céu como se estivesse vendo os limites da eternidade.
Na época de pouco peixe, a tia Chica vivia à espartana; no tempo das tainhas,
empanturrava-se como uma sibarrita. Passava o dia caminhando. Atendia aos chamados, andava
da praia, aonde ia tirar marisco, ao mato, em busca de gravetos, e ao córrego, que lhe
dava alguns potes de água salobra. Nas idas e vindas, resmungava, ou cantarolava baixinho
e docemente quadrinhas do tesouro poético vulgar, algumas perfeitas, muitas alteradas
pelo uso, e várias compostas por ela mesma, segundo suponho.
Não criava uma galinha, nem plantava uma rama de mandioca. Mantinha-se com o que lhe
davam os "clientes" e as pessoas compassivas. Os vizinhos evitavam topar com ela
nos caminhos desertos, e corriam a ela nos momentos de aflição. Pudera! A tia Chica
rezava com mestria e proveito muitas orações eficazes, prometia remédio a todos os
males, possuía armas positivas para dominar o tinhoso, os perigos do mar e a
insconstância da natureza. As bruxas, os lobis-homens, os bois-tatás e os fantasmas eram
animais de sua querência.
A custo e depois de bastante promessa, como a de não empregar aqueles poderes
extraordinários, de não publicar nenhum verso, enquanto ela vivesse, de não transmitir
a ninguém o que ia confiar-me, a tia Chica entregou-me parte do que acumulara na sua
longa e, no fim, mísera peregrinação terrena.
A princípio, pretendi classificar todo o material recolhido, para apresentá-lo de modo
metódico, e ilustrá-lo com um aparato crítico regular. Comecei pelos versos. Separei o
que já corria impresso, e o que eu conhecera noutras fontes do que supunha desconhecido
ou produzido pela tia Chica. Nessa altura, tive de ocupar-me de outras cousas, e abandonei
tudo na pasta. Depois, em duas mudanças, perdi muitas fichas, especialmente as relativas
à orações, remédios, práticas por ocasião de nascimento, batizado, noivado,
casamento e morte, atitudes propícias e nefastas, etc.
Em 1944, publiquei em vários números do Diário Popular, de Pelotas, os versos
inéditos. Fi-lo atribuindo a sua autoria à tia Chica, sobre cujos méritos de poetisa e
mezinheira, dei uma notícia sucinta.
Naquele jornal e naquele ano, divulguei os contos, a que me refiro adiante. Relendo-os
agora, percebi que, com os meus cuidados literários, lhes prejudiquei a primitiva graça
de concisão e espontaneidade.
Neste número do Boletim, vão os versos, que ainda julgo compostos pela tia Chica;
nos futuros, será publicado o restante que possuo. Convencido de que não há
conveniência em respeitar a cacologia popular, retifiquei a sintaxe da tia Chica, e
ortografei todas as palavras por ela deformadas,
Que os folcloristas catarinenses encontrem algo útil nesse trabalho, é o meu desejo.
Versos
Não sei ler nem escrever
Nunca pisei numa escola
Canto como os passarinhos
E sou mestre na viola
Não sabe cantar quem quer
Canta quem nasce cantor
Também canta quem padece
Pensando no seu amor
Minha gaita ficou rouca
Não acompanha o meu canto
Cantor sem gaita não vive
Alguém me botou quebranto
Eu trabalho o dia inteiro
Tomando banho no mar
Bebendo mãe-com-a-filha
Ou cantando por cantar
Sou pobre como o sanhaço
Mas não deixo de cantar
Prefiro não ter dinheiro
A ter dinheiro e calar
Mar tristonho, mar tristonho
Conta-me o teu padecer
Quem soluça como tu
Muitas penas deve ter
Eu desejo conhecer
Os segredos desse mar
Quero saber o que as ondas
Vêm às areias contar
O vento só favorece
A quem sabe marinhar
O cheiro do mar agrada
A quem nasceu para o mar
A rede veio sem peixe
A canoa sem ninguém
O mar engana a quem pesca
E mata a quem não quer bem
Quantas vezes nos beijamos
Nas pedras de Itamirim
O mar chorava de inveja
Por te ver junto de mim
As almas dos pescadores
Engolidos pelo mar
Gemem nos cascos dos barcos
Que vão ao largo pescar
A gaivota choraminga
Se o mar fica altaneiro
Se tu choras, fico triste
Se tu ris, fico faceiro
Atirei minha tarrafa
E do mar não trouxe peixe
Coração bem conformado
Quer outro que não o deixe
Vi nas bandas do poente
O retrato de Maria
Sorrindo alegre e faceira
Como em vida ela sorria
Deixou de viver Gil Castro
Depois de muito penar
Nasceu nos campos da Lapa
Morreu sozinho no mar
O vento sul vem roncando
Deixa o mar encarneirado
Meu coração não tem medo
Já vive desenganado
Com as estrelas caídas
Nas ondas bravas do mar
Fiz um colar de brilhantes
Para o teu peito enfeitar
De manhã o sol aponta
No fundo claro do mar
E vem tremendo nas ondas
Para as areias beijar
A tainha vem do sul
Desovar no Itamirim
Venho de longe buscando
Quem queira cuidar de mim
Arranquei do meu barquinho
O teu retrato e o teu nome
Prefiro andar sem patrono
A querer quem me consome
De noite o cachorro late
E passa o dia dormindo
Eu de dia não descanso
E passo as noites carpindo
O rio corre mansinho
E leva consigo os peixes
No dia em que te embarcares
Sozinha aqui não me deixes
O canavial madurinho
Está pedindo facão
Quantas pipas de cachaça
Estas canas me darão?
Tarrafeio quando quero
Boto espinhel onde entendo
Quem tiver alguma queixa
Que se chegue, e vá dizendo
Teus olhos são como estrelas
Brilham muito e nada fazem
Teus beiços avermelhados
Sorrindo pesares trazem
Nós nos beijamos um dia
Não posso me lembrar quando
Só sei que o mel do teu beijo
Era bom e está durando
Gralha conversa, e vê muito
Peixe vê pouco, e nada fala
Menina namoradeira
Pisca os olhos, e não cala
Quando o sol te viu na praia
Parou em cima da serra
Esqueceu-se do passeio
Que dá em redor da terra
Vim da feira da Alcobaça
Cantando pelo caminho
Vendi boi, vendi ovelha
Comprei amor e carinho
A lua vive espreitando
O que fazemos na praia
De dia os mexeriqueiros
E de noite essa atalaia
Não quero saber teu nome
Nem a terra em que nasceste
És um tucano sem ninho
Com o vento te perdeste
Tia Chica
Ubatuba, março de 1926
(BIRNFELD, Mário C. Em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore, dezembro de 1950)
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