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O BODOQUE E A SETA

Os boletins - doc. 63, doc. 75 e doc. 136, da Comissão Nacional de Folclore trazem comunicações curiosas em torno dos intrumentos de brinquedos e folgança infantis, que, nos lugares indicados, são conhecidos pelos nomes de cetra, setra, stiling, estilingue, funda, bodoque, baladeira, atiradeira - feitas respectivamente pelo pelo professor Carlos Stellfeld, senhor Osvaldo R. Cabral e senhor Florival Seraine, sobre esse assunto com referência ao Paraná, a Santa Catarina e ao Ceará respectivamente.

No Espírito Santo não têm esses nomes, como ficou dito nas referidas comunicações, dado margem a confusões. Conheci muito, e tenho visto ainda nas zonas rurais, muitos bodoques e mais para os centros civilizados, especialmente nas cidades, as cetras ou setas.

A grafia certa não sei afirmar. Mas a seta - como aqui em Vitória se diz, - é aquele mesmo objeto descritos nas comunicações, feito de um galho resistente, em forma de forquilha, um verdadeiro Y, que tirado verde, é descascado, aparelhado, amarradado para tomar a perfeita forma desejada, depois de seco, é usado para que nele se amarre em cada extremidade um pedaço de borracha longa, de tamanhos e espessuras iguais, que terninam na outra ponta com um couro qualquer ali, amarrado, para servir de suporte para a colocação de projéteis.

Estes eram sempre de barro amassado, e adrede preparados ao sol ou em fornos improvisados, e se chamam - pelotas - com e, como informam aquelas comunicações, ser o nome naqueles lugares.

O alvo predileto destes instrumentos eram os pássaros, mas, na cidade, os meninos usavam o ferro que saía dos buracos das ferraduras, apanhados na fábrica que havia no Courinha Madeira, no Forte de São João, e com esse projétil, danificavam vidraças e lâmpadas.

O bodoque é mais sertanejo e não tem nenhum antepassado estrangeiro. É arma de caça dos meninos do interior, dos lugares rurais e rústicos, e é muito anterior à seta, que só apareceu depois que apareceram os elásticos.

É um arco de madeira resistente e flexível. O preferido sempre foi o jenipapo, pela extraordinária resistência e flexibilidade. Também usam galhos de goiabeira e alguma outra madeira boa, flexível. O tamanho varia com o do atirador e sua força. O arco não é roliço. É cortado a meia cana até ao centro, onde há o batoque, ou seja, o lugar onde fica o meio certo, e é todo roliço. Nas extremidades, depois de bem preparada a madeira, que é descascada e polida, usando muitos deixar o batoque com casca e áspero para melhor fixação da mão, se fazem entalhes para que neles sejam seguras as cordas.

O bodoque tem duas cordas, paralelas, que presas a iguais distâncias pelo lado externo das extremidades, ficam retesas e dão ao arco uma forma curva de D maiúsculo embora mais raso que essa letra.

Para completar sua armação, coloca-se em cada extremidade das cordas, bem junto às extremidades de madeira, um pau pequeno, com entalhes nas pontas, para que eles abram mais as cordas, que perdem, armado o arco, o paralelismo.

Ao meio das cordas há uma rede, que é um tecido feito com o mesmo barbante ou material de que se fazem as cordas e que serve para nela se alojar o projétil. Postos os pingueletes, esticadas as cordas como dissemos, perdem o paralelismo, e a rede fica espichada como se fosse uma cintura ou uma cinta ao centro das cordas.

Com as bolas de barro cozidas ao sol ou em fornos rudimentares, e chamadas também - pelotas, - o atirador maneja-as através do bodoque e por intermédio da rede, puxando com uma das mãos as cordas com os dedos seguros à dita rede e amparando a pelota, enquanto que a outra segura a madeira do bodoque pelo batoque, que fixa o instrumento.

Os meninos rurais são de grande habilidade no manejar esse instrumento que requer mais habilidade e destreza para sua confecção e seu manejo, e por isso mesmo tem sido preferido à seta, embora esta mais fácil de fazer.


(DESSAUNE, Jair Etienne. Em Folclore)