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A PROCISSÃO DE SANTO ANTONIO

A imensa procissão de Santo Antônio compõe-se de doze grupos de figuras colossais; em verdade, somente as cabeças, os pés e as mãos são de madeira esculpida e colorida, resto do corpo não passando de um manequim leve, vestido de veludo ou seda.

Esses grupos imponentes resplendentes de tule dourado e prateado figurando nuvens e raios, muitas vezes semeados de cabeças de querubins, apresentam-se como enormes massas fixadas em estrados ricamente recobertos de veludo vermelho com galões e franjas de ouro. São carregados, de acordo com o peso, por quatro ou seis homens em uniforme da irmandade da paróquia.

Descrição da procissão

A vanguarda é constituída por um suboficial e quatro cavaleiros da guarda da polícia; vem, em seguida, um grupo de anjos grotescamente vestidos, no gênero dos que desenhou Albrecht Durer; acompanham-nos o cruciferário e os portadores de candelabros, com grandes círios guarnecidos de flores de cerca colorida, de pássaros e de pequenas cabeças de querubins da mesma matéria, agrupados e sustentados por cabos elásticos. O primeiro grupo representa um rei e uma rainha, de pé, vestidos com grandes túnicas de um verde claro um tanto esbranquiçado, cada um deles com um terço na mão. Cada grupo é precedido por um menino, ou menina, vestido de anjo, carregando um cartaz explicativo, fixado na extremidade superior de um bastão prateado. O segundo grupo compõe-se de um Santo Antônio de pé e de um Cristo também de pé, vestido com uma túnica de seda verde-clara; Cristo carrega uma cruz de madeira larga e Santo Antônio, uma outra de madeira redonda, muito fina e inteiramente dourada. O terceiro grupo representa um concílio presidido por um papa sentado sob um pequeno dossel de encosto e diante de uma mesinha redonda coberta com um tapete de veludo vermelho sobre o qual se encontra um papel com uma inscrição; quatro cardeais sentam-se igualmente em torno da mesa, e um religioso franciscano mantém-se de joelhos. O quarto grupo mostra um rei e uma rainha, de pé; o quinto representa um São Benedito negro, também de pé, vestido de túnica preta, amarrada na cintura por um cordão branco, e tendo na mão um pequeno crucifixo, que ele parece adorar. O sexto grupo é formado por uma Nossa Senhora da Conceição, de pé, envolvida em nuvens de tule prateado cheias de cabeças de querubins. O sétimo representa uma Madalena arrependida, de joelhos, diante de um pequeno crucifixo fincado no chão e com um círio na mão. O oitavo mostra um Cristo crucificado, com o braço direito solto e o resto do corpo inclinado para um Santo Antônio de joelhos e em adoração. O nono representa um São Tiago, de pé, com um cão a esquerda, carregando um pãozinho na boca. O décimo mostra um São Luís, rei de França, de pé tendo nas mãos, os três pregos e a coroa de espinhos, cuja parte inferior é envolvida num pedacinho de damasco vermelho com galões de ouro. Veste um manto azul-estrelado e usa peruca de médico e bigodes à espanhola; tem diante dos pés um banquinho, onde se acham colocados o cetro e a coroa. O décimo primeiro representa uma Santa Isabel, rainha de Portugal, de pé, enfeitada com um manto amarelo e uma coroa de ouro, e, finalmente, o décimo segundo é um Cristo crucificado, ao pé do qual se encontra um Santo Antônio em êxtase, de joelhos. Esse último grupo é acompanhado pelos monges, pelo dossel e pela banda militar da infantaria, que forma a retaguarda.

Esta procissão, que tem a reputação, aliás justa, de apresentar aos fiéis o maior número de imagens esculpidas, dura quatro horas; regressa noite fechada e o seu percurso se enche, sem descontinuar, de uma multidão de espectadores nacionais e estrangeiros.

Os devotos consideram essa festa o primeiro dia de Quaresma, e os incrédulos a continuação do Carnaval. Entretanto, tudo se passa na maior ordem. A marcha é interrompida para muitas paradas, porque o peso enorme de alguns andores impede os irmãos de carregá-los durante mais trezentos a quatrocentos passos sem descansar os ombros, machucados a despeito da espessura do estofamento das pontas dos varais e da multiplicidade dos revezamentos. Acrescenta-se a essa primeira causa de fadiga a dificuldade de descer, conservando o equilibrio dessas enormes massas, o declive rápido e prolongado que se encontra à saída do Convento de Santo Antônio.

Por esse motivo, na volta da procissão, a fadiga geral e a obscuridade justificam certa desordem; o clero e os dois primeiros grupos retomam gravemente o caminho da subida, mas os demais grupos tomam outra direção, para subir pelas diferentes portas separadas por uma série de belas escadarias laterais de pedras, e chegam assim mais facilmente em cima. Essa parte da procissão apressa-se em voltar com a precipitação que inspira a felicidade de libertar-se de uma penosa tarefa.

Finalmente, todos esses grupos simetricamente arranjados sobre os pedestais permanecem expostos à adoração dos fiéis, que, com sua influência, vêm aumentar o calor abafante provocado pela enorme quantidade de círios acesos, que parecem incendiar a Igreja de Santo Antônio.

Terminado o arranjo dos grupos, os irmãos, ainda cobertos de suor, reúnem-se alegremente em uma das salas do consistório, onde os espera um lauto banquete. E, sozinhos na sala, entregam-se livremente, ao mesmo tempo em que reparam suas forças, as pilhérias sobre o ridículo de sua tarefa, que os diverte de costume, mas que agora lhes inspira certa vergonha e por isso mesmo provoca seus sarcasmos.

Entretanto, essa impressão das gigantescas imagens coloridas apresentadas em procissão conserva ainda hoje seu prestígio entre a classe baixa da população e entre as mulheres livres ou escravas. Ajoelhadas, cheias de compunção, ousando apenas erguer o olhar para a imagem de madeira de um santo cuja proteção imploram de acordo com o caráter dos poderes que lhes são especialmente inerentes, redobram suas preces a fim de conseguir, com a ajuda de sua interferência eficaz, o perdão dos pecados cujas consequências temem, ou obter resultados que desejam ardentemente. Essa credulidade é, em verdade, estimulada há três séculos pelos clérigos, interessados em manter uma correspondência devota por intermédio das missas votivas.

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.)

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