Quando ela nasceu, a parteira
curiosa, uma de grandes quevedos de couro, que mais parecia um físico-mor, a primeira
cousa que fez foi jurar que o horóscopo dava para as meninas nascidas sob tão amável
signo os melhores tesouros que Eva podia esperar sobre a face da terra. Na alcova
colonial, sem ar, sem luz de sol, apenas alumiada pelo clarão amarelo da serpentina de
prata, ouviu-se, porém, um suspiro como sinal de desapontamento e tristeza, suspiro do
papai, desafogo de imo peito, desabafo de alma prática, e que logo todos traduziram por
esta frase naturalíssima: - Antes fosse homem! Mil vezes, na verdade.
Uma escrava trouxe a bacia de prata embeiçada e velha, que, seguindo a tradição da
família, lavara já três gerações de umbigos; outra, a toalha de linho, metida em goma
dura como um pau, e mais a saboneteira de louça.
E a menina foi lavada com todos os preceitos da Luz das comadres e parteiras, de
Sebastião de Souza, livro que, desde 1725, iluminava a sabedoria das aparadeiras de
ofício ou de curiosidade. Veio depois a cerimônia do enfaixamento, do enfardelamento, do
entrouxamento da pobre criaturinha transformada em múmia, envolta em cambraias, fitas,
bordados e rendas, espetada após entre dois travesseiros como uma boneca, hirta, rubra,
congesta, a boquinha fendida, aberta em ó, os olhinhos de bêbeda rolando nas pálpebras
arroxeadas de chorar.
Que gracinha!
A essa hora já o mais rápido dos negros mochila da casa, apertando na mão
as alvíssaras do sineiro, meia pataca em moeda de cobre
polida à areia, corria caminho da igreja próxima, a fim de que o sino, jornal da cidade,
que contava, a todos, os sucessos mais importantes do dia, já tocando simplesmente, já
dobrando, já repicando, lançasse, sem demora, aos quatro ventos, a nova daquele parto,
daquela filha, ou daquele desgosto
Tangiam, no tempo, pelo nascimento dos meninos, nove badaladas, e sete pelo nascimento das
meninas. Por onde se vê que já por essa época as mulheres nasciam fazendo menos barulho
que os homens. A bisbilhotice urbana sabia tudo isso de cor.
E enquanto pela voz do bronze a notícia voava célere como
um pé de vento, na casa da parturiente, diante do oratório todo iluminado e festivo, a
família de joelhos, piedosamente, erguendo preces ao Senhor, reunia-se, pedindo venturas
para a alma descida dos céus, enquanto que, pelas portadas, pelos corredores, terreiros e
mais dependências da morada, a sobra dos escravos mostrava alegria, cochichava, rindo,
rezando, pedindo também a benção do céu para Sinhazinha, que mal desabrochava para a
vida!
Rescendia o alecrim, a alfazema, em rolos místicos correndo a casa, afugentando o
tinhoso, rompendo os crivos da urupema da rótula, a anunciar, fora, na rua, ao que
passasse, a novidade palpitante.
Gente nova! Gente nova!
As jarras do oratório já estavam cheias de rosas frescas. Os pedintes do Santíssimo, de
faro afiado e vivo, de instante a instante vinham bater à porta, ávidos de gorjeta, as escudelas da esmola arreganhadas à generosidade beata da família.
Chegavam velhas devotas também a ver o que arrancavam à sovinice da casa: uma moeda de
cobre, uma côdea de pão, um "Deus te
favoreça
"
Que a notícia corria a enfiar-se pelo ouvido da vizinhança até a mais distante.
Sabia-se sempre onde tinha sido o parto; mais, que o recém-nascido era uma menina ou
menino, muito esperto sempre, a cara do pai, forte, chorão, bonito como quê!
No mesmo dia pensava-se nos bilhetes de dar parte, que eram feitos à pena de pato,
em largas folhas de papel de Holanda, obreados a cor de rosa, bilhetes para as pessoas de
alta consideração nas relações de família e escritos, todos eles, naquele estilo de
grande gala, que foi uma das cousas mais pitorescas do tempo:
"Dou parte a V. Ex. em como foi Deus todo poderoso servido desse minha excelente
mulher à luz uma filha
" participações que eram respondidas, pouco mais
ou menos, por esta forma não menos retumbante: "Em muita obrigação me deixa
Vossa Mercê participando-me tão grata e regalada notícia. Queira Deus, de futuro, possa
dar-nos a amantíssima esposa de Vossa Mercê contentamentos iguais a este, porque de
árvore tão cuspiciosa devem ser esperados infinitos pomos.
Que o dado hoje se faça maduro, conservando as virtudes dos pais. Vossa Mercê que aceite
estes meus gostosos desejos como ofertas sinceras de grande obrigação que devo a Vossa
Mercê, a quem Deus guarde por muitos anos".
Só muita intimidade permitia visitas pessoais por tal motivo. Pudores naturais do tempo.
No quarto da parturiente só entravam as mulheres casadas e as velhas. As raparigas
solteiras e os homens ficavam no salão de visitas.
Mal nascido, aquele pedaço de carne cor de rosa resvalou logo no seio moreno da mamãe
para a peitarra ebânica da escrava. Mamou, ela, assim posto,
da negra, o leite e o instinto. À sombra da gaiola colonial morrinhenta, clorótica, ranzinza, sob o desvelo direto da mãe preta, viveu,
depois disso, da esteira para o colo, do colo para a esteira, até que um dia a levaram à
igreja da Lampadosa, onde foi receber, com os santos óleos, o pouco amável nome de
Úrsula, - Úrsula Frutuosa Anastácia Benedita do Monte Serrate e Maia.
Para o ato solene convocaram-se toda a parentela e alguns amigos do peito. No terreiro da
casa como da praxe, em vésperas de festejos de truz
derrubada, em massa, de gordos perus de roda e anafados
leitões. Em formas complicadas prepararam-se para mais de quarenta qualidades de doces.
No dia decidido para o batizado, logo cedo, veio a cadeirinha com pituras, que se foi
alugar à loja do Silva, à rua da Cadeia. Nela meteram a boneca risonha, envolta toda
numa toalha de rendas, e mais a ama negra.
Atrás da condução ligeira, a pé, os da família e da amizade, até a igreja distante,
onde Sinhazinha se cristianizou, recebendo no lábio cor de rosa um pouco de sal e na
moleira o óleo sagrado do ritual escravo.
O bródio correu por três dias, alegre, ruidoso, a mesa
armada no quintalejo, sempre renovada e farta de cobertas e
acepipes.
Depois
cresceu ela entre a sala tranqüila do oratório e o terreiro que olhava a
senzala, onde os negros viviam semi-nus, gralhando ásperos dialetos africanos, negros que
tocavam o berimbau, a marimba, o motungo, e cheiravam a almíscar.
Não lhe ensinavam a ler. Ler! Para que? A mamãe que era filha de fidalgos, lia, por
acaso? Então?
Ensinaram-lhe a rezar, isso sim, a ter medo de Deus, como de um malfeitor.
Vem ainda, como contrapeso para aquela alminha tímida, a notícia de várias abusões:
- Ai, o uivo horrível que vai lá fora! Que horror! É o lobisomem a correr o seu fado!
Lobisomem, - avantesma que nasce ao crepúsculo da tarde,
metade homem, metade lobo, e que anda a saltar encruzilhadas, perseguido, assobiado pelo
vento, pelos galhos do arvoredo, pelos cães
- Lá vai ele, lá vai, a espera de espinho, dente ou espada que o toque e fira, que em
lhe correndo sangue, vai-se o lobo e o homem fica
E o saci-pererê? E a
mula-sem-cabeça, o tutu-marambaia, a mãe dágua e o canhoto? O canhoto! Monstro
com o dom de transformar-se em cavalheiro capaz de seduzir a melhor dama, mas sem
poder dissimular dois pés de pato, amplos e feios, duende explosivo que arrebentava, em
cacos, diante de qualquer cruz, deixando, com o estampido muito grande, uma nuvem azulada
e um cheirinho de enxofre
Na cabeça da pobrezinha, todas essas bobagens entravam e
ficavam justas como uma gaveta numa cômoda.
Quando a mãe queria fazer a sesta e ela com a sua vozinha de criança começava a rir
muito, a palrar, a mexer nos bilros da almofada de renda ou a
subir pelos móveis, a ver se ainda havia no covilhete da credence
um restinho de aluá, era posta no terreiro. Que fosse brincar com as crias, para longe, e
a deixasse em paz, um poucochinho
Ah!
O que vale é que o terreiro era vasto e as cantigas que as molecas lhe ensinavam, fora do
batuque e dos reisados, eram sempre muito bonitas e engraçadas:
Canivetinho
Do pintainho
Que anda na barra
Do trinta e um
É de bão bão bão bão
É de bão bão bão bão
Mingorra, Mingorra
Ficaste forra!
Ou:
Uma, duas angolinhas
Finca o pé na pampolinha
O rapaz que jogo faz?
Faz o jogo do capão
Às seis horas fechavam-se-lhe as pálpebras de sono.
Dormir, assim, que é isso, Sinhazinha? E a oração a Nosso Senhor? Vamos, olhe que ele
castiga
E lá ia ela, a pobre, cabeceante, para o oratório, medrosa do castigo
daquele Deus, para ela tão exigente e tão mau que nem perdoava as criancinhas que têm
sono. E, enrolando mecanicamente palavras que não sabia o que queriam dizer, punha-se a
rezar:
- Padre nosso que estás no céu
Tombava de sono, e de tal sorte que quasi não ouvia a cantiga de adormecer, que lhe
cantava a negra.
Senhora Santana
Quando andou no monte
Por onde ela andava
Deixava uma fonte
Vieram os anjos
Beber água nela
Que água tão limpa
Que fonte tão bela!
Senhora Santana
Ninai minha filha
Vede que lindeza
E que maravilha!
Esta menina
Não dorme na cama
Dorme no regaço
Da senhora Santana
Aos treze anos deram-lhe um confessor. Não fosse aquela alminha do céu sujar-se no
pecado do mundo sem ter quem a lavasse com misericórdia. Não houve para isso grande
trabalho. Já havia, portas a dentro, um padre. Na época, não havia casa que não
tivesse o seu padre, como não havia padre que não tivesse a sua comadre.
Esse era do Fayal, um gordo, vermelho, muito devoto da Senhora do Rosário e das boas
tigeladas de marisco. Santo homem! Além disso, grande tocador de viola. Santa viola! E
que modinhas, as que ele cantava! Quando havia vinhaça da
ilha, bebia sempre o seu meio odre. Aos poucos. Arrancava o redingote, a véstia, e não deixava
mais o instrumento, muito vermelho, o olho langue, todo
envernizado de suor.
Às vezes tinha derriços com as mucamas, e era,
principalmente, para a aia da garota, sabia-se, uma negra de Moçambique de mamaça vasta
e venta arrebitada, o versinho que ele cantava, sempre, com a música de um lundu vindo
dos tempos de Bobadela:
Pois tirana não te abranda
Do meu peito a amarga pena?
Dize, ingrata, esquiva Almena
Que farei pra te abrandar?
O fato é que a escrava gozava o verso, escancarava a boca de orelha a orelha e só não
corava porque era preta demais. Por isso mesmo, em tempos em que o marisco era vaqueiro,
não esquecia jamais de lembrar, nos dias do padre, logo de manhã cedo, com solicitude,
à senhora, não fosse ela esquecer a tijelada de Sua Reverendíssima
Entre a viola, o oratório, os resmungos da mamã e os maus exemplos da escravaria
trapenta e rude, toda aquela mocidade estiolava-se,
consumia-se, secava. Aos vinte anos, quando ainda não havia casado, que os casamentos se
faziam por vezes, aos catorze, aos treze e até aos doze, a menina, em geral, era uma
senhora doa, de ar matronal, cevada pela indolência e falta
de exercício. Crescia-lhe a papada, o ventre e o traseiro. Era um odre. Perdia a graça
de andar, marchava como marcha o marreco num gramado
O reinol, porém, mordido pelo sangue mouro, achava-a um
encanto; babava-se todo por aquela bola de sebo, por aquele dilúvio de banhas.
Que lindeza!
(EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos
vice-reis) |

Abusão:
crendice, superstiçãoAlvíssaras:
anúncio de boas novas
Anafado: gordo, bem nutrido
Avantesma: fantasma
Bródio: refeição alegre
Célere: ligeiro
Cevada: gorda
Clorótica: anêmica, lenta
Côdea: parte exterior, dura
Covilhete: pires chato para doce,
tigelinha
Derriço: zombaria, escárnio
Ebânica: relativa ao ébano, negra
Escudela: tigela de madeira, pouco funda
Estiolar: definhar, acabar
Langue: lânguido
Odre: saco feito de pele e destinado ao
transporte de líquidos; pessoa muito gorda
Palrar: falar muito, tagarelar
Pomo: fruto
Quintalejo: pequeno quintal
Redingote: sobrecasaca
Reinol: próprio do reino
Truz: de truz, de primeira ordem
Véstia: espécie de casaco curto e
folgado
Vinhaça: vinho ordinário; grande
porção de vinho |