Repórter e carnavalesco
Grande atividade na reportagem e no carnaval O bloco do "Apois-Fum..."Não
se extingüiram, de todo, os ecos do carnaval, quando eu focalizei o tipo popular de
Osvaldo de Almeida, o criador do neologismo "frevo" no carnaval pernambucano.
Agora cabe a vez de um não menos popular tipo, como o primeiro, repórter, e
carnavalesco, figura que ficou inesquecida, pois, ainda hoje, é recordada com saudade
pelos colegas de imprensa e pelos que com ele privaram, quer nos meios carnavalescos dos
clubes pedestres e "blocos", quer nos meios forenses, pois ele era também uma
espécie de rábula, procurador em diversas causas.
Trata-se de Guilherme Araújo. Muito inteligente e empreendedor, desenvolvia grande
atividade, embora seu cultivo intelectual fosse bem reduzido, não passando de um ligeiro
curso primário.
Sua sagacidade, entretanto, supria quaisquer outras falhas, sendo maneiroso, delicado,
sabendo tirar partido das situações em que se encontrava, não deixando a quem
não o conhecesse bem aquilatar o seu preparo mental.
No Jornal Pequeno
Por muitos anos trabalhou no Jornal Pequeno, onde fazia a reportagem
marítima e a da polícia, mostrando-se competente pela longa prática do metier
como dizem os cronistas mundanos.
Dando notícia das partidas dos navios do nosso porto, simpatizou ele com o verbo zarpar
com que iniciava os períodos assim:
"Zarpou ontem para a Europa o navio tal..."
"Zarpa hoje para o Rio"...
O diretor do jornal reparou naquela chapa e, certa vez, lhe disse:
- Ó, seu Guilherme! Você não conhece outro verbo sem ser zarpar
com que noticia a partida dos navios?
- Conheço, sim, senhor!
- Pois trate de empregá-lo porque, do contrário, quem acaba zarpando daqui é você.
Está entendendo?
- Estou, sim, senhor!
E o Guilherme ficou a pensar em outro verbo... Dois dias depois partia um navio para o
Norte e ele, pensando haver resolvido o problema, escrevia:
"Amanhã zarpará para o Pará, o vapor Pará..."
O Dr. Tomé Gibson, ao ler aquela séria cacofônica de paras e parás
não pôde se zangar, porque desandou a rir... sem parar também.
Jornalzinho carnavalesco
Certa vez lembrou-se o Guilherme de editar um jornalzinho carnavalesco de propaganda
comercial. Como era muito estimado no comércio, não lhe foi difícil angariar
anunciantes que, não só custeavam a impressão do jornal, como ainda lhe proporcionaram
razoável lucro.
Intercalava, nos anúncios historietas, anedotas, versos, epigramas etc. Durante
vários anos publicou seu jornalzinho com êxito crescente.
O Apois Fum
Havia naquele tempo um gazeteiro, (o que no sul chamam jornaleiro, vendedor de
jornais) apelidado Fon-fon, não porque vendesse a revista carioca de igual nome,
e sim, porque tinha o lábio superior e o véu palatino fendidos, a que chamam lábio
de lobo, o que o impedia de pronunciar bem certas sílabas, dando, a quase todas as
consoantes o som de F. Quando se lhe dizia qualquer coisa de que ele duvidasse o Fon-fon
tinha o costume de replicar:
- Apois fum! Quando o que ele pretendia dizer era: - Pois sim...
O Guilherme de Araújo aproveitou o dito, que se tornou popular, e organizou um bloco
carnavalesco de muito sucesso no Recife, não somente pelo grande número de moças e de
rapazes de que se compunha, como também por exibir um sugestivo carro alegórico, o que
era uma inovação entre os blocos de carnaval na época.
Quem não cheirou levante o dedo!...
Na estação do Brum, da antiga Great Western, era visto um vendedor ambulante
de perfumes que, enquanto o comboio estava parado, aguardando a hora da partida, percorria
os carros com um vidro dos seus perfumes, desarrolhado na mão, dirigindo-se,
delicadamente, aos passageiros:
- O cavalheiro dá licença?...
E, antes que a licença fosse dada, ele passava, de leve, no dorso da mão do
passageiro, a rolha do vidro umedecida no perfume, solicitando:
- Por obséquio, queira cheirar e depois me diga se não é puro Houbigant de
Paris.
Assim, percorria toda composição e, ao regressar, pelo mesmo caminho, entre os bancos
dos vagões, ia procurando vender seu produto, ao mesmo tempo que indagava:
- Quem não cheirou levante o dedo!...
O dito pegou, ficando como pilhéria carnavalesca: O Guilherme se aproveitou
do caso e me pediu que escrevesse a letra e a música de uma pequena marcha carnavalesca
para ser cantada pelos componentes do Bloco Apois-fum, o que fiz com grande
prazer para o seu irrequieto diretor.
Seu tipo físico
O Guilherme era de pequena estatura, mais ou menos gordo, com o ventre saliente.
Moreno, de lábios carnudos e roxos, os cabelos muito crespos e castanhos claros, partidos
ao meio. Olhos verdes e bigodes à kaiser, como estava na moda. Era ele o que se
costuma chamar de alaranjado. Fumava vastos charutos. Sempre elegantemente
vestido, ostentando altos colarinhos duros, mirabolantes gravatas e não menos
estupefacientes coletes, o Guilherme calçava botinas de polimento, abotoadas ao lado,
tendo a gáspea cinzenta ou marron clara.
Um grande emotivo, amava a família com desvelo, procurando cercá-la do maior
conforto, para o que adquirira no Barro, subúrbio do Recife, uma aprazível vivenda.
O coração o matou
Uma tarde, no quarto onde havia um oratório com imagens de santos, uma vela acesa,
caindo sobre a toalha que forrava o altar, incendiou-o. Ao divisarem o clarão do
incêndio, gritaram:
- Fogo! Fogo!... A casa está se incendiando!...
O Guilherme corre para extingüir as chamas que ameaçavam, se propagar por todo o
prédio. Depois de grande luta foi dominado o perigo. O esforço, porém, que ele fez foi
sobre-humano para o seu coração já afetado de miocardite.
Dias depois, sentindo-se mal, declarou:
- Cheguei ao fim!...
Serenamente fechou os olhos e adormeceu. Adormeceu para não mais despertar, como o
fazia cedo, diariamente, para ir à sua labuta no Jornal Pequeno e na Polícia
Marítima, noticiando os passageiros que chegavam e os navios que zarpavam...
Pobre Guilherme de Araújo! Foi um lutador e um bom!
(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)