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PROCISSÃO DE NOSSO SENHOR DOS PASSOS - QUARESMA

No segundo dia da quaresma, o soberano, os nobres da corte e os ministros reúnem-se na Capela Imperial do Carmo, entre sete e oito horas da noite, para carregar em procissão uma imagem, esculpida, do Cristo ajoelhado com a cruz às costas, do dobro do tamanho natural. A imagem é colocada num andor cheio de esculturas e de tapeçarias com franjas de ouro, todo recoberto por um baldaquim fechado por quatro cortinas, amarradas com laços de fitas. Todas as tapeçarias são de brocado roxo-escuro e ouro.

A túnica de Nosso Senhor é de sarja roxo-escura amarra-se à cintura por um cordão cujos nós combinados são artisticamente. O grupo assim encerrado dentro do baldaquim deixa ver apenas três pés da cruz, cuja extremidade inferior ultrapassa a parte traseira do andor. Oito pessoas carregam essa massa: o Imperador, à direita, e o seu capitão de guarda, à esquerda, sustentam nos ombros os varais de frente, e as personagens mais distintas se colocam sob os outros varais.

Às nove horas, mais ou menos, o sino da Capela Imperial anuncia a saída da procissão, que, depois de meia hora de marcha entrecortada de paradas indispensáveis, chega à Igreja da Misericórdia, onde se encontra outro pedestal, preparado para receber o fardo sagrado. O imperador, depois de colocá-lo em sua nova base, sobe na carruagem e desaparece; os outros fazem a mesma coisa, e os curiosos ficam na Igreja.

Descrição do cortejo

Um destacamento de cavalaria da guarda da polícia abre a marcha, precedendo o estandarte da confraria de Nosso Senhor dos Passos. Esse estandarte, de seda roxa muito escura e bordado com galões e franjas de ouro, é carregado e escoltado pelos membros da mesma confraria, cuja vestimenta, mais simples, é da mesma cor. Uma dupla ala de guardas do palácio acompanha a imagem de Nosso Senhor dos Passos, escondida debaixo do baldaquim e cercada de dezesseis lanternas acesas, fixadas nas extremidades de grandes varas pintadas de roxo e salpicadas de ouro; essas lanternas são carregadas por simples particularidades, em sinal de devoção. Seguem-se o clero da Capela Imperial, alguns cantores do coro e o dossel sob o qual caminha o bispo, carregando nas mãos uma cruz em que não mais figura o corpo de Cristo; e finalmente vêm os ministros e grandes dignitários do Estado. Um destacamento da milícia fecha a marcha.

Dissolvido o cortejo, os membros da confraria descobrem o rosto e os devotos do bairro vêm, até à meia-noite beijar os pés de Nosso Senhor dos Passos, bem como a extremidade do cordão da cinta.

A igreja, nessa noite, fica resplendente de luzes. Dois irmãos imóveis ajoelham-se no primeiro degrau do altar-mor, cada um com círio aceso nas mãos, até que dois outros os venham revezar, cerimônia que se renova de quarto em quarto de hora, até que o dia seguinte à tarde, nova procissão vem, então, às quatro horas, a fim de levar de novo a imagem de Nosso Senhor dos Passos para a capela abandonada na véspera.

Na sexta-feira, dia seguinte ao da procissão, desde madrugada até quatro horas da tarde, a Igreja da Misericórdia permanece cheia de devotos curiosos, que, depois da prece, vão beijar humildemente o calcanhar do pé esquerdo da imagem; em seguida, colocam uma esmola na imensa salva de prata junto do pedestal. Um estrado colocado atrás da imagem facilita essas demonstrações públicas de humildade. A atitude a que os fiéis são forçados para chegarem até o calcanhar do Cristo é muito penosa, embora o mais alto degrau do estrado alcance o nível da prancha que suporta a imagem. A tradição prescreve, com efeito, que os fiéis se ajoelhem para dar o beijo; por isso, a pessoa que deseja cumprir fielmente essa obrigação religiosa precisa apoiar primeiramente ambas as mãos no mesmo plano e alongar extremamente o pescoço, a fim de atingir o enorme calcanhar do Cristo , que só deve ser tocado pelos lábios.

Nessa atitude difícil, as brasileiras, à sombra da devoção, encontram um meio a mais para exibir publicamente sua graça natural, talvez um pouco estudada, que lhes inspira o desejo de agradar aos inúmeros espectadores, reunidos para render homenagem à flexibilidade e à faceirice da pantomima.

As pessoas mais devotas das classes baixas têm por hábito, ao descerem do estrado, ir fazer outra genuflexão diante do pedestal para beijar ainda um nó colocado na ponta da corda que forma a cinta da túnica de Cristo; esse nó venerado encontra-se por comodidade, apenas a dois pés e meio do solo. Os mais pobres contentam-se com esse último consolo, e uma grande multidão de homens e mulheres de todas as idades e cores espera com paciência o momento de beijar gratuitamente a ponta do cordão de Nosso Senhor dos Passos, o que se verifica até o regresso da santa imagem à Capela Imperial. Nesse mesmo dia, pelas quatro horas da tarde, os sinos da Igreja da Misericórdia anunciam a saída da procissão de regresso à capela.

Como de costume, alguns cavaleiros da guarda da polícia abrem a marcha; vem em seguida o estandarte da Irmandade de Nosso Senhor dos Passos, logo após, incorporados, os membros da confraria formada por empregados de diversas categorias a serviço particular do palácio imperial; seguem-se uma deputação da Irmandade da Misericórdia e a imagem carregada a descoberto pelos cantores da Capela Imperial. A imagem vem enfeitada com uma enorme coroa e um imenso ramalhete de flores naturais. As lanternas são então carregadas pelos principais empregados eclesiásticos, civis ou militares a serviço da corte. Acompanham-nos a música da capela, seu clero, a dossel, os membros da Câmara Municipal, os ministros e grandes dignitários, tudo ladeado por duas filas de soldados de infantaria com sua banda.

De regresso o cortejo desce a rua da Misericórdia, faz a volta do palácio imperial e segue pelas mesmas ruas. Afinal, após várias horas de marcha, interrompida por diferentes paradas, chega à Capela de Nosso Senhor dos Passos pela rua Direita, todo o cortejo entra então na Capela Imperial, sendo somente a imagem levada para a sua capela particular, situada ao lado. Essa sala, consagrada a Nosso Senhor dos Passos, é bem pequena e não pode conter a invasão de curiosos. Por isso fecham-se as portas, abrindo-se somente um quarto de hora depois, quando mais já instalada a imagem no seu pedestal, ao qual se adaptam dois degraus reunidos por um estrado, combinação que permite subir e descer comodamente. No mesmo pedestal, perto do pequeno estrado, acha-se colocada a salva de prata para as esmolas, tão numerosas nessa ocasião que é preciso esvaziá-la de quarto em quarto de hora. Nesta sala repleta de devotos e curiosos a elite da sociedade vem exibir o luxo com que a tradição permite às senhoras embelezarem a sua religião. Aí também, até meia-noite, os curiosos se agrupam para esperar as amáveis visitantes que chegam de todos os lados, levadas, ao que se diz , pela única intenção de beijar humildemente o calcanhar e o cordão da cinta de Nosso Senhos dos Passos.

Finalmente, nesse pedestal, transformado durante horas em verdadeiro teatro de sociedade, figura o amor-próprio de todas as idades e de todas as condições. Entretanto, é preciso confessá-lo, uma sensação dolorosa domina o prazer de contemplar o ridículo quando se consideram os esforços de uma velha senhora brasileira, que, com a ajuda de seu criado, tenta uma penosa genuflexão; o que outrora lhe valeu merecidos elogios, sua sincera devoção hoje lhe impõe como um dever de humildade; seu fiel servidor, colocado no último degrau, atrás de sua ama, apressa-se em suprir com seus cuidados as forças que lhe faltam para levantar-se e a ajuda a descer lentamente pelo outro lado, deixando atrás de si uma fila imponente de mulheres desejosas de fazê-la esquecer.

Felizmente sucede-lhe uma rica brasileira, já madura, afetando uma dignidade deslocada, no intuito de esconder a dificuldade de utilizar o resto da desenvoltura, que os múltiplos entraves imaginados pela sua costureira para comprimir a gordura em benefício da elegância, ainda lhe permitem.

Muda a cena; chegam as moças e distingüe-se a jovem noiva, cujo porte, mais desembaraçado enobrece a atitude mística recomendada pelo confessor. Brilhando com suas graças naturais e preocupada com a felicidade que ela espera, vemo-la no presente, que pode mostrar ao mundo como objetivo de sua escolha. Até a própria negra, acompanhando a ama na qualidade de criada de quarto, imita jeitosamente nessa ocasião os gestos adequados, pois vem vestidas com as roupas elegantes que a ostentação de sua senhora lhe permite e com as jóias que suas docilidades condescendentes obtêm dos filhos da casa ou dos rapazes que freqüentam.

Finalmente, a prostituta não teme mostrar-se. É ela facilmente reconhecível pela sua vestimenta muito rica, mas exagerada, e cujo mau gosto embora rebuscado, revela a classe obscura a que desonra. Veste em geral uma blusa de seda de cor viva, sobrecarregada de cordõezinhos e pingentes de seda ou de fitas estreitas de cores berrantes; juntados de maneira estranha, esses enfeites são sempre chocantes, pela falta de harmonia com o fundo em que assentam. Uma guarnição mais ou menos semelhante sobrecarrega o badalo de uma saia branca de magnífica musselina das Ilhas; meias de seda branca e sapatos de tela de seda azul-céu, rosa, amarelo-clara ou verde completam a indumentária. Quando rica, ela usa saia de renda preta bordada, destacando-se por transparência de saia de baixo, de seda branca, rosa ou amarela, às vezes mesmo preta, com fitas de cor passadas nas guarnições. A atitude ríspida que mantém em público encobre felizmente o abandono libidinoso com que se apresenta em sua própria casa. Em verdade, se as prostitutas freqüentam assiduamente as igrejas do Brasil é porque não existem outros lugares de reuniões públicas.

Em resumo, o estranho espetáculo termina à meia noite, e, logo após o fechamento das portas, o tesoureiro coloca nos cofres a totalidade das abundantes esmolas da noite; e, fechados estes, apressa-se em voltar para casa, a fim de descansar de suas exaustivas funções, que o obrigaram a ficar de pé oito horas seguidas.

Há na cidade uma outra Capela de Nosso Senhor dos Passos, pequenina igreja que dá nome à rua em que se encontra; aí a irmandade de igual nome conserva durante o resto do ano tudo o que pertence ao culto da imagem. Aí se encontram os grandes armários que se destinam á guarda das diferentes partes desmontáveis da imagem colossal, bem como seus enfeites e acessórios, consagrados pelo uso. Quando se arma essa imagem, são as senhoras dos grandes dignitários da irmandade que se encarregam de vesti-la e de fornecer-lhe a enorme coroa e o imenso ramalhete de flores naturais de que falamos.

(DEBRET, Jean-Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.)


Baldaquim - Espécie de dossel sustentado por colunas, que serve de cúpula ou coroa de um altar, trono, sólio ou leito

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