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CESTARIA E ATIVIDADES CONGÊNERES

Em razão das exigências advindas da sua vida laboriosa - criação, pesca, lavoura e caça – também dado o dispendioso da aquisição de material importado, manufatura o filho dos sertões norte-mineiros do São Francisco, ele mesmo, a maior parte de suas utilidades, nomeadamente as de fio vegetal, capim, cipó e palha.

E fá-las artísticas, originais, cada peça testemunha paciência, e sobre tudo grande veia criadora.

Abre-se aqui, pois surpreendem atividade do catrumano – barranqueiro.

E dentre o que fazem nesse ângulo da ergologia, merecem particularizados os cestos, balaios e jacás, as peneiras e vassouras, as redes, as esteiras e caroças, os chapéus e espanadores.

Cestos: dependendo do emprego que se lhes quer dar, também da matéria-prima disponível, podem os cestos ser feitos de talas de bambu, cana-brava, buriti, ou taboca, como de cipós, preferentemente o de buji. Em qualquer deles começa-se a tecer primeiro formando uma cruz de talas (ou cipós) convenientemente preparadas, que correspondem à parte central do fundo. Entraçando-se novas talas, dá-se-lhe a forma desejada ajuntando-se-lhe, também, as guarnições indispensáveis. Não raro tingem de cores vivas e variadas as talas, com as quais se formam desenhos.

Balaios: como os cestos, grande é a variedade de balaios. As diferenças de forma e medidas se subordinam no mais das vezes, ao fim a que se tem em mira alcançar. Erguem-no a agulha com seda de buriti, pequenos, para pequenos guardados. Tecem-no para costureiras, chamados balaios de caboclos, de talas brancas ou coloridas, com fundo quadrado, corpo cilíndrico e boca circular. Esta provém, qual peneiras, dum arco roliço para fortalecer as paredes e receber uma tampa. Destinados a serviços caseiros e à lavoura e criação, entrançam-no, grosseiros, com talas de bambu, medindo cerca de 45cm de altura por 60 a 80cm de largo. O fundo, de diâmetro inferior ao da boca, reentra afunilado no espaço útil qual fundo de garrafa forma esta que melhor se adapta à rodilha quanto o transportam cheio.

Jacás: guarnecidos de um par de alças, para cargueiros, são os jacás, construídos semelhantemente aos cestos de preferência com talas de cana-brava, por serem estas mais resistentes.

Peneiras: na fabricação das peneiras tem de se levar em conta o fim a que se destinam elas. A sua aplicação é o que impõe a densidade do tecido e a matéria e empregar. Tecem–nas de casca de braço-de-buriti, ou de talas de babaçu, de cana-brava, ou de bambu, adredemente aparelhadas.

O arco faz-se por último, nele escondendo-se as rebarbas do pano. Deste há várias modalidades, que, segundo a técnica adotada, chamam "tecido-de-três" "tecido–de-cinco" e outras denominações análogas.

Vassouras: fazem-nas de olho de buriti-bravo, de cacho de capim–vassoura, ou de folhas de coqueiro de chapada. Põem-lhes um cabo e encostam-nas de embiras, ou fios de tucum ou seda de buriti.

Redes: Tarefa mais complexa, sem dúvida, há vários tipos de redes, desde as de linha e de cordões torcidos, às de corda de caroá, de tucum, de seda de buriti, que são as mais comuns. Tecem-nas num girau, que é uma espécie de tear primitivo, começando pela urdidura, que tem de largo e de comprimento a medida que se quer dar à rede. Feito o urdume, entrançam-se os costais ou amarradios, tanto mais próximos um do outro quanto mais denso for o pano. Feito este, trazem-lhe os punhos, que são preparados com tantas cordas quantos forem os cabrestinhos de teada. Pintam-nas ou não. Caso façam, é tarefa inicial, dando-se cor às cordas antes de levá-las ao jirau.

Esteiras: Afora as de pilhas de buriti, simples e com pontas dobrada, fazem esteiras de palhas de bananeira para emalar panos de toucinho. As primeiras, de palha, são fabricadas de folhas de olho de buriti destituídas da seda. Chamadas, em razão disso, esteiras de segunda. As esteiras de primeira são de folhas não dessedadas. Primeiro destalam-se o olho de buriti, depois penduram-no para secar, já de folhas abertas, ainda ligadas no toco, perto do qual se dá um nó. Também aqui recorrem a um estaleiro.

Com intervalo segundo a largura da esteira (um metro a um metro e vinte de altura) fincam no chão duas forquilhas de dois a dois e meio metros de altura ligadas na parte superior por um travessão que contém entalhes para marcar os amarradios. Cada um destes compreendem duas cordas, uma de cada lado da esteira entrançados à medida que o serviço vai sendo feito. Cada uma das cordas é enrolada no birro correspondente. Também chamados cambitos, os birros são tocos de madeiras de lei, pesados a fim de melhor apertar os nós. Cada esteira, pois, tem de birros, na sua preparação, duas vezes o número de costais já se vê. Ligando-se com um nó as duas cordas de cada amarradio sobre o travessão, começa-se a tecer a esteira, sobre aquele estendendo-se maços de palhas antecipadamente aparados na largura da esteira. Cada molho exige vai caindo pronta do outro , aproximando-se do chão.

Caroças: São feitas de folhas de buriti não dessedadas, de um metro e meio de comprimento ou pouco mais. Primeiro estende-se um cordel, e sobre este dobra-se uma das extremidades de cada palha. Depois, faz-se pequeno entrançado, ou cinta de garantia de 0,5cm de largura, pouco mais ou menos. As pontas livres do cordel servem para franzir beirada ao pescoço. A carocha cai em franjas sobre o corpo de quem a usa lembrando saias havaianas. E, assim, proteje a pessoa contra os mais fortes aguaceiros.

Chapéus: Aqui apenas incluo os chapéus de algodão-de-seda, planta de alto valor têxtil que exubera na região. Primeiro fiam a linha a fuso ou a roda, nomeadamente a fuso. Depois tecem o chapéu a agulha, decorando-o com pinturas de vários matizes, destinados a proteger contra os rigores do sol as senhoras quando em longas jornadas a cavalo.

Espanadores: Além dos de penas de ema, fabricam espanadores de fibras de buriti, ou de coroá, guarnecidos de cabos de madeiras feitos a mão, e parcialmente cobertos por entrançados de mesma fibra.

(MARTINS, Saul. Artes e ofícios caseiros.)


Catrumano
- Roceiro, caipira

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