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CARNAVAL

Embora o entrudo seja da mais remota tradição portuguesa, o carnaval com mascarada de rosto e fantasias grotescas ou vistosas, só o tivemos aqui em meados do século passado. O entrudo teria sido trazido dos Açores e outras ilhas, onde essa brincadeira era de hábito, e certamente fora presenciada pelos navegantes que demandavam as Índias. Apesar de tudo, ainda que tolerado, não era abertamente permitido, e uma vez ou outra lá apareciam alvarás e avisos, condenando-o. Não obstante, praticou-se sempre, a baldes de água e esguichos, com limões-de-cera e bisnagas de estanho, e até os nossos imperadores dele gostavam muito. Dom Pedro II, na meninice, jogou-o bastante na Quinta, entre as irmãs e pessoas amigas.

Contra o carnaval, porém, com máscaras e disfarces, muito mais rigorosas eram as autoridades. Ordenações freqüentes cominavam castigos severos e multas pesadas aos infratores das suas disposições. Em 1685, o governador Duarte Teixeira Chaves publicava um bando contra os que fossem encontrados emascarados e pelo qual se ameaçavam os brancos a degredo na Nova Colônia do Sacramento e os pretos e mulatos de surra pública de chicote.

Mas o desenvolvimento da Metrópole e os hábitos europeus para aqui transplantados no oitocentos foram amainando, pouco a pouco, os dispositivos draconianos a esse respeito. Assim, em 1846, por iniciativa da atriz Clara Delamastro, pôde realizar-se no Teatro São Januário, o primeiro baile à fantasia. Sucederam-se outros, como aqueles promovidos pela colônia francesa e por algumas sociedades privadas. Houve também um que inaugurou o Teatro Provisório, em 1852. Incitando essas festas, alguns anos depois o Alcazar Lyrique instituía um valioso prêmio para a modista que fizesse a fantasia mais bonita e original. E nesse gênero de confecções muito se distingüiu a francesa Mme. Niobey, estabelecida à rua do Ouvidor.

Mais ou menos pelo mesmo tempo, apareceram os primeiros préstitos carnavalescos. Sociedades já existentes, mas que até ali se divertiam de portas para dentro, resolveram, nos dias consagrados a Momo, trazer para a rua a sua alegria, organizando passeatas com guarda de honra e carros enfeitados. Iniciou-as a que se chamava Sumidades Crnavalescas, que, aliás, reunia a melhor gente. Em 1855, a convite de José de Alencar, Pinheiro Guimarães, Manuel Antônio de Almeida e outros, que dela participavam, dom Pedro II desceu especialmente de São Cristóvão para assistir-lhe à passagem das janelas do paço da Cidade. O triunfo alcançado pelas Sumidades fomentou novas ambições e sucessivamente foram surgindo e também morrendo a União Veneziana, os Zuavos, o Congresso das Damas e a Boêmia, precursores dos nossos Democráticos, Fenianos e Tenentes do Diabo.

Edouard Manet, o grande pintor francês, mas então um modesto rapazinho que, em curso de marinhagem em 1849, a bordo do navio escola Hâvre et Guadeloupe, passou algumas semanas entre nós, em carta à mãe, transmite as suas impressões do carnaval no Rio. Fala nas brasileiras que se postavam à porta ou às janelas de suas casas para atirarem nos transeuntes "bombas de cera, de todas as cores, cheias de água, e que aqui chamam limons". Ele mesmo tomou parte na brincadeira. Vítima de vários ataques, viu-se na obrigação de revidá-los e, ao fim da tarde, também distribuía limons para um lado e outro. Participou de um baile à fantasia, que lhe lembrou os da Ópera, de Paris.

O carnaval, festa tão de gosto do carioca e durante a qual tanto se expandia a alma coletiva da cidade – falo no passado porque, de uns anos para cá, por uma série de motivos, é patente o seu declínio, pelo menos como manifestação popular – o carnaval, dizíamos nós, também sofre os caprichos da moda. Das fantasias que fizeram época e pululavam nas nossas ruas durante os três dias de folia, hoje ninguém mais fala. É verdade que algumas foram condenadas pela polícia. Outras, porém, morreram de morte natural. Citemos os diabinhos, os burros-doutores, o pai-joão, o velho, o morcego, a morte, o princês, o mandarim e o rajá. Os dominós já não tinham razão de ser, depois que foi vedado o uso das máscaras. Índios também rarearam, pelo menos aqueles de apito à boca e penas de espanador à cintura, que faziam letras na frente dos cordões. Em compensação, a cidade encheu-se de apaches e gigoletes, de pierrôs e colombinas, de malandros e de baianas, e muito homem se meteu em saias e muita mulher enfiou calças.

Desapareceram os cricris e línguas-de-sogra, substituídos pelo reco-reco e a cuíca. O jorro frouxo da bisnaga de cheiro recuou diante do jato fino do lança-perfume – aquele lança-perfume que no dizer rebuscado de Alberto Faria, o das Aérides, é "etérea língua de áspide aromal, a pôr subitâneos arrepios no colo de sedutoras Cleópatras ou de castas Lindóias".

O zé-pereira já não azucrina mais os ouvidos de ninguém. Abafaram-no as marchinhas e os sambas. Segundo Vieira Fazenda, que ainda o conheceu, quem primeiro trouxe para a rua, em grande algazarra, o zabumba dos bombos e o rufo dos tambores, foi um sapateiro português, que tinha oficina na rua São José e era um folião de marca. O nome zé-pereira explicar-se-ia de dois modos: ou porque ao bombo assim designassem em Portugal; ou porque houvessem alterado de Nogueira para Pereira um dos nomes do inventor. O homem chamava-se José Nogueira de Azevedo.

Até os préstitos das sociedaades carnavalescas também muito perderam do seu prestígio. Onde aquelas tardes triunfais de terça-feira gorda em que o sonido ainda apagado dos clarins ou um vago clarão de fogos-de-bengala ao longe anunciavam a entrada na rua do Ouvidor ou na rua Uruguaiana da fantasmagoria ofuscante que era a passagaem dos Democráticos ou dos Tenentes? Sumiram-se, por completo, os carros de crítica. Provavelmente porque governos perfeitos demais já não dão motivo a censuras. Até os carros alegóricos perderam aquele fascínio antigo, quando aos olhos do populacho eram como páramos encantados e jardins edênicos. Templos gregos e pagodes chineses. Divindades olímpicas e sereias do renio de Anfitrite. Árvores vergando o peso de mulheres quase nuas. Rosas que se abriam para mostrar borboletas de peito farto e coxas roliças. Ninfas bem à francesa que fugiam ao abraço de algum fauno. Bacantes de carnadura provocante equilibradas na borda de uma taça… Para todas essas criaturas, tiradas quase sempre ao meretrício barato, esse dia do desfile era um dia de glória, o dia da consagração definitiva. E havia razão para isto. Ao zé-povinho que se extasiava à beira das calçadas, dando-lhes palmas em troca dos beijos que elas distribuíam para um lado e outro, todas se afigurariam beldades alucinantes ou huris de um paraíso inacessível.

Não suponha o leitor que, elogiando esses préstitos de antanho, lhes emprestamos qualquer qualidade artística ou mera manifestação de bom gosto. Longe disso. Oxalá pudéssemos ter tido aqui alguns carnavais da Florença dos Médicis, quando o próprio Lourenço, o Magnífico, trabalhava o verso das canções populares e artistas como Andrea del Sarto e Cronaca se encarregavam de planejar os arcos triunfais e modelar a máscara dos foliões. A passeata das nossas Sociedades perdeu muito do seu esplendor fictício – mas ainda assim esplendor – porque outra é a cidade, de ruas largas e claras, à noite sob a fulguração dos anúncios a gás néon, e outra é a mentalidade da sua população, agora de olhos permanentemente abertos para o grande mundo, através das visões cinematográficas.


(CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro)
 

 

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