O Clube do P.M. Original e
misteriosa associação carnavalesca Curiosa indumentária Objetos roubados
e restituídosNão se extinguiram ainda de todo os ecos do carnaval que
movimentou o Brasil. Pelo menos no Recife, onde se diz que o carnaval "é o mais
animado... do mundo", esses ecos ainda perduram vibrando no ar, seja no cântico das
marchinhas, frevos e sambas carnavalescos, seja nos confetes que ainda pintalgam as
calçadas, seja nas serpentinas presas ainda aos fios telefônicos, ou seja, nas
reminiscências de outros carnavais de outrora. Os velhos, principalmente, não esquecem
as festas carnavalescas de quase meio século passado, quando toda gente esperava,
intrigada, a passagem, na noite de sábado gordo, de um enigmático e original clube
denominado P.M.
Misteriosas iniciais...
A primeira vez que o clube veio à rua, e nos anos subseqüentes em que se exibiu, foi
grande a curiosidade popular para saber a significação daquelas iniciais... Como faziam
parte do mesmo alguns funcionários da Prefeitura (na maioria aposentados) dizia-se que
P.M. queria dizer: Prefeitura Municipal. Entretanto, no seu estandarte, figurava
um peru, pelo que se dizia P.M. significar: Peru Manhoso.
Outras explicações, mais ou menos, rebarbativas e até
maliciosas, eram dadas como tradução das enigmáticas e misteriosas iniciais... P.M...
Angelo Sabiá
Seu criador ou fundador era um dos tipos mais populares do Recife antigo, dono de uma
casa de bilhares no cais da Regeneração, hoje Martins de Barros, e que era conhecido
pôr Ângelo Sabiá.
Essa alcunha, lembrando o canoro cantor da mata, não o
irritava. Ele a aceitava sorrindo, embora não cantasse. Pelo menos nunca patenteou, em
público, seus dotes musicais...
Uma seda improvisada
Havia na rua do Imperador, no local onde é hoje o edifício do Jornal do Comércio,
as ruínas de um pardieiro. Ângelo Sabiá o aproveitou para sede do seu original clube,
mandando instalar ali uma gambiarra de lâmpadas elétricas iluminando uma faixa de pano
onde se lia, em letras vistosas, o seguinte dístico:
"Clube P. M."
Grande número de sócios, de todas as idades, aderiu à fundação do clube do Angelo
Sabiá, recordando-me, agora, de pronto, dos nomes do Major Agostinho Bezerra,
proprietário da Agência Jornalística, do Dr. Zeferino Agra (Ziza), da Casa Funerária
Agra Irmãos, Lino Cavalcanti, comerciante e presidente do Congresso Dramático, José
Luiz de Melo, diretor do jornal humorístico A Pimenta, Joaquim Lacerda, afinador
de pianos, Manuel José de Santana Araújo (irmão do grande advogado e criminalista Dr.
Vicente Ferrer de Araújo, professor da Faculdade de Direito), cognominado
Curió sem rabo, e muitos outros ainda, cujos nomes me escapam no momento.
Ruidosa passeata
A noite do sábado de carnaval no Recife era movimentada e alegre, pela saída
do P. M., como já disse, da sua improvisada sede na rua do Imperador.
O uniforme do clube era: sobrecasaca preta (croiseé), calça branca e
cartola. Ostentavam todos longa barba e bigodes brancos.
Alguém falando, certa vez, ao Ângelo Sabiá sobre aquela fantasia do clube, ele
retorquiu:
- Fantasia?! Não. Aquilo é pura realidade. Nada de fantasia...
O cortejo era numeroso, superior a cem sócios, todos com o mesmo indumento, idênticas
barbas longas e bigodes brancos.
Perdidos e achados
Certo dia, durante as festas carnavalescas, os jornais publicaram uma nota em que se
dizia:
"Da sede do Clube do P. M. foram furtados vários objetos de valor, pertencentes a
diversos associados, como sejam: um quadro bíblico representando Suzana no banho e os
velhos indiscretos, um garrafão do excelente vinho reconstituinte Caramuru
o homem de fogo e o do trovão, uma dúzia de frascos do célebre Elixir
de Cantaridina, infalível na fraqueza da memória, e uma grosa
de pastilhas de Potentiol, muito usada entre os potentados para aumentar o
círculo das suas relações comerciais. A polícia abriu inquérito para descobrir o
autor ou autores do atentado à propriedade alheia."
Dois dias depois os mesmos jornais publicavam, em colunas abertas, o seguinte:
"Um furo policial"
O Dr. Batistinha, subdelegado do 1º distrito policial, dando provas da sua atividade e
zelo, acaba de localizar o furto de que foram vítimas vários sócios graduados do Clube
do P. M., sendo restituídos aos seus donos os objetos furtados, conforme a nota que se
segue, fornecida pela própria polícia: um garrafão do vinho reconstituinte Caramuru
ao major Agostinho Bezerra; o Elixir de Cantaridina ao Sr. Lacerda,
para afinar melhor o seu piano e os dos outros; os comprimidos de Potentiol ao
potentado Sr. "Seixas do Bacalhau", a fim de ativar seus negócios, na
rua da Moeda e, finalmente, o quadro bíblico de Suzana no banho e os velhos
indiscretos ao comendador Veiga Pessoa, grande colecionador de quadros célebres,
assim como de quadros vivos...
Um protesto...
De todos quantos foram atingidos pela pilhéria do Ângelo
Sabiá o único que se zangou foi o velho comendador da Veiga Pessoa, que disse iria
protestar, pela imprensa, dizendo nunca haver pertencido ao Clube do P. M. nem ser
colecionador de quadros vivos... ou mortos!
Amigos o dissuadiram do protesto, o que viria aumentar o efeito grotesco da pilhéria.
No carnaval que passou, o velho Major Agostinho Bezerra, apesar de enfermo, no seu
apartamento do Real Hospital Português de Beneficência, recordou, sorrindo, com saudade,
o sucesso do Clube do P. M., fundado pelo espírito carnavalesco e folgazão
do inesquecido Angelo Sabiá.
(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo)