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O CARNAVAL DA PRAÇA XI
O INCONSCIENTE FOLCLÓRICO
(capítulo de conclusão de O folclore negro do Brasil)
[1935]
Perseguido pelo branco, o negro no Brasil escondeu as suas crenças nos terreiros
das macumbas e dos candomblés. O folclore foi a válvula pela qual ele se comunicou com a
civilização branca, impregnando-a de maneira definitiva. As suas primitivas
festas cíclicas de religião e magia, de amor, de guerra, de caça e de
pesca
- entremostraram-se assim disfarçadas e irreconhecíveis. O negro aproveitou
as instituições aqui encontradas e por elas canalizou o seu inconsciente ancestral: nos
autos europeus e ameríndios do ciclo das janeiras, nas festas populares, na música e na
dança, no carnaval
Principalmente no carnaval. Todos os anos a praça Onze de Junho, no Rio de Janeiro,
recebe a avalanche dessa catarse coletiva. Ali, o carnaval é apenas um pretexto. Porque
todo um mundo de sentimento de crenças e de desejos, não tolerados na vida comum,
despertam de um trabalho surdo de recalques contínuos. O carnaval é uma visão espectral
da cultura de um grupo humano. Os civilizados explodem a sua vida instintiva
reprimida. Mas o primitivo apenas se mostra na sua espontaneidade de origem. É o caso da
praça Onze, conglomerado de todo um inconsciente ancestral. Ali se reunem,
periodicamente, velhas imagens do continente negro, que foram transplantadas para o
Brasil: o monarca das selvas africanas, reis, rainhas e embaixadores,
totens, feiticeiros e xamãs, homens-tigres e homens-panteras, griots, menestréis
e bardos negros, pais-de-santo, antepassados, pais-grandes e adolescentes em iniciação
ritual
O folião das avenidas passa por aquele lugar e não compreende o que vê. Mas o
etnógrafo vai registrando. Cerimônias de guerra e caça: lá estão negros que se
degladiam, terçando armas, brandindo lanças, dançando pantomimas imitativas
Danças e desfiles totêmicos: os ranchos, os clubes
Embaixadas e desfiles régios:
os cordões, os antigos festejos do ciclo dos cucumbis
Fragmentos
mágico-religiosos: os cantos de macumba, as invocações, os ensaios preliminares de possessão
A música e a dança: os instrumentos de percussão, os cânticos, a estilização
primitiva do samba, as escolas de samba
É uma fantasmagoria. Num tempo absolutamente restrito, assistimos à recapitulação de
toda uma vida coletiva. Instituições que se fragmentam, se esboroam e se diluem. Os seus
remanescentes são recolhidos pela praça Onze. A praça Onze é uma grande trituradora,
mó gigantesca, que elabora o material inconsciente, e prepara-o para a sua entrada na civilização.
A praça Onze é o censor do inconsciente negro-africano. Todo um trabalho semelhante ao
da elaboração onírica (Traumarbeit) encontramos ali: condensações,
simbolismos, disfarces, sublimações, derivações
A praça Onze é a fronteira entre a cultura negra e a branco-européia, fronteira sem
limites precisos, onde se interpenetram instituições e se revezam culturas. Mas a praça
Onze, por sua vez, já é um símbolo de todas as praças Onze disseminadas pelos focos de
cultura negra no Brasil. O negro evadido dos engenhos e das plantações, e das minas, e
dos trabalhos domésticos das cidades, e dos mocambos, e das favelas, e dos morros
vai mostrar nas praças Onze o seu inconsciente folclórico. Evadido no tempo e deslocado
no espaço, o negro realiza então um símbolo. O inconsciente folclórico é uma síntese
do inconsciente ancestral e do insconsciente inter-psíquico. É um conteúdo estrutural,
um Paideuma.
O inconsciente folclórico pode ser considerado uma antiga estrutura indiferenciada, que
irrompe na vida do civilizado sob a forma de superstições, sobrevivências, valores
pré-lógicos, folclore, em suma. Estamos num terreno comum onde se encontram os
critérios metodológicos da antropologia cultural, da psicanálise e da Gestalt. O
pensamento mágico, arcaico, pré-lógico no primitivo, no sonho, na neurose, na
esquizofrenia, na arte expressionista
- é uma função desse inconsciente
folclórico, cuja pesquisa se torna indispensável, no conhecimento espectral de uma
civilização. O seu conteúdo é que varia, dando colorações específicas às
várias formas de cultura.
Como nas culturas negro-africanas transplantadas para o Brasil. Religião, magia e
folclore
O folclore negro do Brasil apenas continua o método de pesquisa já
iniciado em O negro brasileiro etnografia religiosa. Conteúdos estruturais
que nos conduzem ao conhecimento da nossa psique coletiva. Uma psicologia social que não
indague destas relações entre as formas aparentes de cultura e os seus conteúdos
inconscientes, será uma psicologia social descritiva, superficial, ad usum delphini.
Ela tem que ir além: tem que descer à análise das categorias pré-lógicas de um ciclo
de civilização. pela pesquisa do inconsciente folclórico. O homem é a resultante do
seu complexo cultural. Superioridades e inferioridades são padrões
relativos. O homem dessas estruturas primitivo-indiferenciadas. Há uma constante
relação entre a cultura total e a sub-cultura individual, no conceito de
Sapir. Relações psico-sociais são categorias móveis que nos conduzirão possivelmente
a uma unificação dos vários critérios metodológicos da sociologia.
Folclore não é simples estudo recreativo. É método demo-psicológico de análise do
inconsciente das massas. Foi o que intentamos fazer com o elemento africano, no Brasil,
neste livro introdutório, que fica a exigir pesquisas continuadas e mais completas.
(RAMOS, Artur. O folclore negro no Brasil) |
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