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SUPERSTIÇÕES DA COZINHA
O FOLCLORE DAS COZINHAS
O folclore das cozinhas está desaparecendo, mas os vestígios denunciam a perdida
importância anterior. Simpatias para não queimar a comida e tabus para o fogo
conservar-se equilibrado no cozer ou assar.
Evita-se pondo um pouco de comida na chapa do fogão ou no testo da panela. Demorando
ferver ou a lenha estalando (é o diabo bufando!) viram os tições, de cima para baixo.
Sal no chão afasta barulhos na cozinha e segura o ritmo dos temperos. Pisar carvão,
pimenta, alho, provoca distúrbios e a comida retarda. Verificar se a saia está ajustada
na cintura senão o de comer não cresce. Mulher de lua não bate ovos, não
prepara peixe, não assa galinha. As grávidas fazem inchar os bolos mas desoneram
as caldas. Milho seco faz amolecer a carne dura, assim como esfregá-la com limão. Quando
a fervura demora muito a abrir, roda-se a panela e muda-se a posição da tampa.
Não se conta o que se põe na panela. Não se remexem brasas com metal, garfo, faca ou
colher. Comida de peixe é mais saborosa em vasilha de barro. Colher de pau é
insubstituível para mexer canjica. Feijão que não amolece, subindo e descendo inteiro,
bate-se com o testo, por três vezes, na panela.
Queimar-se antes de começar o serviço é mau agouro. As almas do purgatório estão
pedindo orações. Escapulir da mão a primeira vasilha é sinal de que tudo irá às
avessas. rezar o Credo de costas para o fogo. Para curar engasgo com espinha de peixe,
vira-se um tição no lume. Galinha velha fica tenra se puserem uma cortiça na panela. Se
a prova cair no chão, é que alguém da família está passando fome. Não prova
comida mais de uma pessoa na mesma colher. Não deixe a colher atravessada em cima da
vasilha no fogo. Cozinheira zangada, a comida queima sem ela querer. Não diga que
o fogo está muito bom ou muito ruim. Apenas, está bom. Não bata nas panelas nem diga
praga para o demônio não tirar a sustância do alimento.
Assando galinha ou peru não deixe as penas na cozinha. Fica rijenta. Matando galinha,
qualquer ave, limpe a faca nas penas do lombo. Amolece as carnes. Não deixe secar o
sangue no chão da cozinha. Atrasa. Chama desgraça. Quando der cachaça ao peru antes de
matá-lo, dê de três vezes. Só mate pombos em número ímpar. Para o leitão assado
não ficar enjoativo, esprema-lhe um limão na boca. Ponha de lado a panela que queimou
comida por três vezes. Ficou viciada. Enterre e, tempos depois, tire e lave com
água quente e voltará a servir. Deixou o vício debaixo do chão.
Na História da alimentação no Brasil (tomo 2) compendiei muitas superstições,
ouvindo velhas cozinheiras.
Verifica-se que os utensílios têm uma vida misteriosa que é preciso atender. Para o
povo todas as coisas desempenham funções conscientes. Esse animismo institntivo
ou sobreexistente explicará muitos dos respeitos acima aludidos.
Sobre as refeições, disposição e atitudes dos comensais, existia um verdadeiro código
de tradições intransponíveis.
Não sentar treze pessoas à mesa. O mais moço, o mais velho, o que primeiro a deixasse,
morreria dentro de um ano. Estudei essa superstição (Superstições e costumes,
Antunes Ed., Rio de Janeiro, 1958) evidenciando sua quase universalidade e velhice. Nove
séculos antes de Cristo, Hesíodo mandava evitar que se semeasse. Mommsen, que examinou
200.000 inscrições, não encontrou um único decreto de Roma com essa data. "Treze
à mesa" será recordação da Santa Ceia com esse número. Não se cruza o talher
antes de terminar. O lugar da cabeceira é do chefe da família e só deve ser ocupado,
sob pena de agouro, por ele. Se convidar alguém a sentar-se, não haverá suspeita. Não
pôr dinheiro na mesa. Não derramar sal. Vinho derramado é alegria. Não beber ou comer
sobejo do mais velho para não herdar-lhe os males. Ao inverso, ficará o ancião sabendo
os segredos. Não colocar moça solteira na cabeça da mesa, passar palitos ou comer pé
de galinha. Não casa. Antes de levantar-se, saúde com a cabeça o dono da casa. Não se
come armado, despido ou com o chapéu na cabeça.
O primeiro não deve passar o prato ao último da mesa. A parte mais importante da
galinha é o sobrecu, mitra, uropígio, oferecido ao hóspede de honra. Era ato
aconselhado no Cozinheiro Nacional. O dono da casa ou o convidado principal é o
primeiro a ser servido e o derradeiro a começar. Entrega-se o prato vazio com a mão
esquerda e recebe-se, cheio, com a direita. Não se troca o prato e nem se recebe coisa
alguma por cima do ombro esquerdo. Comida caindo do garfo avisa que alguém da família
está passando necessidades. Não se deixa o pão no chão. Apanhá-lo com a mão e
não espetá-lo com o garfo. Quem diz nome feio durante a refeição, afugenta o
anjo da guarda que está assistindo. Não bata com o dorso da mão na mesa. Sempre com a
palma. Respeite a mesa, sacra mesa, diziam os romanos. Pode limpar a boca na
toalha, mas não limpe a faca. Deixe sempre um resto de comida no prato e umas gotas de
vinho no copo, para as almas. Não beba o vinho de uma só vez. Beba um gole primeiro.
Depois poderá esvaziar o copo. A primeira saúde do convidado será para o dono da casa.
Dirigindo-se à dona em primeiro lugar, deseja que ela fique viúva. A saúde bebida de
pé só deve ser a uma pessoa presente. A um ausente, significa agouro. Se a dona da casa
estiver na mesa é quem se levantará primeiro, terminando a refeição. Dá o exemplo. Se
for um convidado, está dizendo que não gostou da comida. O dono deve fazer a
menção, fingir que se ergue mas continuar sentado. Em caso contrário está pondo
para fora os amigos. Durante a comida não se faz o gesto de abrir os dois braços. Sinal
da cruz. Luto. Não se dobra o guardanapo. Deixando-o aberto, voltará. Fechado,
despedida.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore do Brasil) |
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