Estou vendo a leitora aristocrática torcer
o róseo narizinho deste título e exclamar com enfado:
- Ora esta! Que lembrança infeliz! Pois este homem não podia achar assunto menos
prosaico para o folhetim de hoje!?
Estou vendo também o leitor elegante, de perfumado charuto entre o fura-bolos e o pai-de-todos,
metido em luxuoso robe de chambre, encolher os ombros, atirar a Gazeta para
um lado, e dizer-me como o mais desdenhoso dos sorrisos:
- Meu caro amigo, outro ofício.
À vista do exposto, corre-me o dever de entrar em explicações.
E aí vão elas:
A palavra feijoada, cuja origem perde-se na noite dos tempos dEl-Rei Nosso
Senhor, nem sempre designa a mesma coisa.
Na acepção comum, feijoada é a iguaria apetitosa e suculenta dos nossos antepassados,
baluarte da mesa do pobre, capricho efêmero do banquete do rico, o prato essencialmente
nacional, como o teatro do Pena, e o sabiá das sentidas endeixas de Gonçalves Dias.
No sentido figurado, aquele vocábulo designa a patuscada, isto é, "uma função
entre amigos feita em lugar remoto ou pouco patente".
Constâncio, que assim define a patuscada, acrescenta o seguinte:
"De ordinário é comezaina lauta, em que se bebe muito,
e muitas vezes com moças".
É nesta acepção, e não naquela, que vou tratar de feijoadas.
Já vêem, pois, a leitora aristocrática e o leitor elegante, que não é meu fito irritar-lhes os nervos com a pintura minuciosa das negras
caldeiradas, onde a cabeça de porco e o toucinho de Minas, unindo-se em fraternal amplexo ao rubicundo paio dalém-mar, falam em prol da grande
naturalização mais eloqüentemente que todos os deputados reunidos.
A razão por que chama-se feijoada à patuscada é porque aquela geralmente é um pretexto
para esta.
Dadas as explicações convenientes, passo a classificar as feijoadas em três grandes
categorias:
Feijoadas propriamente ditas.
Piqueniques, ou feijoadas aristocráticas.
Feijoadas carnavalescas.
As feijoadas propriamente ditas vão caindo em desuso. Se uma ou outra aparece, já não
traz aquela fisionomia franca e expansiva dos tempos de outrora.
Imaginem este travesso Rio de Janeiro há trinta anos passados.
O macadam ainda não era conhecido, o paralelepípedo era um sonho, o gás natural
um ideal!
Não se discutia política à porta do Castelões; o peixe frito e o bife de grelha tinham
as honras de pratos favoritos nas casas de pasto, que são os modernos restaurantes; os
elegantes eram conhecidos pelo nome de polcas; principiava-se a dançar schotisch;
o Martinho cantava a ária do Boleeiro; o Gaivoto era o Castro Urso de então; não se
falava em república, e os maçons viviam contentes e felizes.
Estavam em moda as barcas de Niterói, espécies de faluas a
vapor, com o competente contramestre em pé na caixa da roda a gritar para o foguista: Olô,
pra trás!
Quando apareceu aquele primeiro elemento de progresso, o povo da Praia Grande
aglomerava-se nas ruas e, ao avistar a barca, dizia com inocente singeleza:
- Eh! Vem o bicho cachimbador!
Conheço ainda uma senhora desses bons tempos que, mudando-se para o Ceará, teve que
assistir ultimamente à inauguração de uma estrada de ferro naquela província.
Quando viu a locomotiva soltar o grito e disparar na carreira vertiginosa, fechou os
olhos, benzeu-se horrorizada e disse que aquilo era o diabo a puxar a maçonaria.
A gente dessas eras patriarcais fazia feijoadas em regra.
A patuscada era quase sempre promovida por um compadre.
Hoje já não há desses compadres folgazões, barrigudos, de
lenço de rapé em punho, homens que tinham a despensa sempre sortida e que, quando
entravam nestas funções, diziam com certa autoridade:
- Havemos de fazer as coisas em regra. Não há de faltar nada! Quando há de ser o pagode, compadre?
- Ora eu não sei. Ando tão encarangada! As meninas estão sem roupa... o Lulu
está meio adoentado...
- Aí vem a comadre com razões de cabo de esquadra. É sempre assim! Por isso eu gosto do
compadre, que nunca foi desmancha-prazeres.
- Cá por mim, não há de ser a dúvida.
- Gosto disso.
- Mas é que...
- Não se discute mais; o pagode há de ser no domingo.
- Pois está dito.
- Alugamos uma falua na praia dos Mineiros, saímos de casa com a fresca, vamos para a
ilha do Governador.
- Por que não há de ser em Paquetá?
- Eu sou de opinião que vamos para a ilha Seca, temos lá a casa do major Domingos, que
é um homem muito serviçal...
- Para a ilha Seca, não, papai. Paquetá é mais bonito.
- Eu tenho tanto medo dessas brincadeiras no mar!
- Pois vamos para Paquetá. Mando falar ao coronel Marques, que já me tem oferecido a
casa por diversas vezes, e lá passaremos um dia feliz.
- O que é que se leva, compadre?
- Vamos agora tratar disso. A comadre encarrega-se da feijoada.
- E logo agora é que a Maria está doente!
- Pois há só uma Maria na terra? Ponha na cozinha todas estas raparigas, que estão aqui
vadias. O compadre dá o peru.
- Eu dou o doce de coco.
- Eu levo um pão-de-ló.
- Primo Juca pode levar o presunto.
- Eu me encarrego do arroz de forno.
- E eu do pão.
- Você de tola não tem nada! Escolheu o mais barato. Porque é que não leva as suas
galinhas?
- Era o que faltava! Matar minhas galinhas de estimação! Ixe! Para aqui, mais para aqui!
- Pois eu cá dou os vinhos. Quero regalá-los com umas garrafas de Porto Velho, como
vocês nunca beberam.
- E minha madrinha?
- A ela toca o leitão.
- É preciso ver quais são os convidados.
- Lá por este lado não se incomodem. Olhem, temos o Meireles com a família, o Sabino, o
Remígio e as três filhas, o Araújo, o Chaves, o Elísio, o Patrocínio com a senhora, o
Lino, que leva consigo a preta que sabe fazer muito bem vatapá, o Cabral, se não estiver
doente, o Serra, que é muito engraçado, o Benjamim...
- Eu logo vi que não se esqueciam do Benjamim.
- Podemos convidar também o Tinoco.
- É verdade, o Tinoco toca muito bem cavaquinho e é um bom par de schotisch.
- E o Almeida?
- Este anda sempre tão ocupado...
- Ora pois lembraram-se de tanta gente, e esqueceram-se da figura principal!
- Quem é?
- O Campelo.
- É verdade, o Campelo.
- Pois pode-se lá fazer uma patuscada sem o Campelo?
- Aquilo é que é homem!
- Que criatura engraçada!
- Eu não posso olhar para ele sem rir-me.
O Sr. Campelo, cujo nome é saudado com tríplice bateria, era um tipo que merece especial
menção.
A fama de gaiato, de que gozava merecida ou imerecidamente, dava-lhe certas regalias, e
privilégios, como os leitores verão.
Não havia festa em que não comparecesse.
Era a pimenta de todos os pagodes.
Cantava modinhas e lundus, falava língua de negro, arremedava as pessoas mais conhecidas
do seu tempo, ladrava como cachorro, miava como gato; era enfim, no dizer dos
contemporâneos, uma casa cheia!
No dia aprazado estavam os convidados a postos no cais dos Mineiros.
A falua enchia-se de moças, e o Sr. Campelo em pé na proa, encarregava-se de atacar os
foguetes.
- Jesus! Aquele homem vai cair, gritava uma velha.
- Não há novidade, Sra. Felícia, eu estudei retórica.
- Ah! Ah! Ah!
- Já ele começa.
A falua partia a remos, ao som de flauta, violão e cavaquinho, e de grande algazarra
entre moças e crianças, provocada pelos foguetes do Sr. Campelo.
Quando este via que o barulho ia serenando, procurava excitar a alegria com observações
deste jaez:
- A viagem assim é muito incômoda.
- Por quê?
- Leva-se tanto tempo! Se nós tivéssemos vindo a cavalo, já estávamos em Paquetá.
- Ah! Ah! Ah!
- Seu Campelo, cale esta boca, pelo amor de Deus.
- O diacho do homem anda só excogitando coisas para fazer a
gente rir.
- Eu já não tenho tripas.
- Isto não é nada ainda. Eu queria só que vocês vissem o que esta alminha pintou na
semana passada em casa do Ramalho.
Chegados a Paquetá, estendia-se uma prancha da proa da falua até à praia, a fim de que
os convivas pudessem desembarcar mais comodamente.
Era um gosto ver aquelas moças, umas cheias de susto, outras a rirem-se às gargalhadas.
- Ui! Ui! A coisa está embalançando.
- Desça sem receio D. Chiquinha.
- Ande, mamãe.
- Espera, menina.
- Seu tenente, segure bem na tábua.
- Ai! Ai! Ai! Seu Campelo, deixe-se de graças.
- Ah! Ah! Ah!
- Mamãe, olhe seu Campelo, mande ele por fora aquele seri.
- Tire para lá este bicho, isto não tem graça.
- Ah! Ah! Ah!
- Ah! Ah! Ah!
- O que foi?
- Seu Tinoco foi fazer uma pirueta, e tchibum, lá foi dentro dágua.
E no meio da maior expansão, seguidos de negros e negras com cestos à cabeça,
desfilavam os patuscos pela ilha, em busca da casa do coronel Marques.
Aí estendiam a toalha sobre a relva, e almoçavam à sombra da copada mangueira, ouvindo
o murmurar das vagas na orla branca da praia.
Teria de escrever um livro se quisesse narrar todas as cenas grotescas e ditos
espirituosos do Sr. Campelo, durante aquele dia.
Ora era uma saúde, imitando um inglês a falar mal a língua portuguesa.
Ora eram intrigas entre dois namorados.
Não havia moça com que ele não travasse logo relações íntimas.
A esta chamava meus quitutes, àquela meu cravo branco, a esta outra meu
doce de coco, àquela outra minhas simpatias.
Punha alcunhas em todos os homens.
E todos achavam-lhe engraçadíssimo,
Além disso o Sr. Campelo tinha o recurso do violão.
Quando empunhava este instrumento, o belo sexo pedia-lhe logo um lundu, que estava
então muito em moda, cuja poesia era a seguinte:
Moa toda sua raiva, meu bem,
Aqui está seu almofariz;
Machuque-me bem machucado
Me quebre bem o nariz.
Depois choviam outros pedidos:
- Cante a Erva mimosa do campo.
- Cante antes a outra Arvoredo tu já viste.
- E aquela, que é tão bonita Busco a campina serena.
Quando via que todos principiavam a enternecer-se, o Sr. Campelo largava o violão e
ia marcar quadrilhas.
- Tudo dança, meus senhores. Não fica ninguém sentado.
Arrumavam-se os pares debaixo do arvoredo, e então é que era rir a bandeiras
despregadas.
- Chaines des dames de apanhar jabuticabas.
- Ah! Ah! Ah!
- Seu Campelo, fique quieto.
- Pé direito firme, o esquerdo não se mexe e en avant deux.
- Ah! Ah! Ah!
- Eu já não posso.
E o Sr. Campelo, pondo-se de cócoras, saía no en avant a pular como um sapo.
- Ah! Ah! Ah!
- Ah! Ah! Ah!
- Basta, basta, pelo amor de Deus, ai!... Ah! segurem-me.
E lá caía uma moça com um ataque de nervos, que obrigava do Sr. Campelo a dar, por
alguns momentos, tréguas às gaiatadas.
Ao jantar sentavam-se outra vez sobre a relva, comia-se a feijoada à mão, e os
convidados levantavam-se um pouco alegres, graças ao vinho do Porto, que era bebido em
copos e não em pequenos cálices, como hoje.
O episódio infalível da volta era uma medonha trovoada, com o sinistro cortejo de
relâmpagos, raios e chuva torrencial.
Quando vinha o tufão e a falua adernava, ouvia-se em todos os tons:
- Misericórdia!
- Santa Bárbara, São Jerônimo!
- Hoje é o último dia da minha vida.
- Acuda-nos, seu tenente!
- Tomara já apanhar-me em terra.
No dia seguinte contavam à vizinhança:
- Chegamos em casa como uns pintos, todos molhados; mas nos divertimos muito! O diacho
do Campelo lá estava, foi um dia cheio.
As feijoadas de hoje são também em Paquetá, e algumas vezes na Tijuca ou Jardim
Botânico.
Os patuscos fretam um bonde marítimo, alugam a música dos alemães e lá vão desfrutar
o domingo ou um dia santificado sub tegmine fagi.
Se entre as pessoas que reúnem-se para feijoada, há algum militar de patente
superior, suprime-se a banda dos alemães, e vem a ficar a música de graça; visto como o
ilustre guerreiro oferece logo a banda militar do seu corpo.
Nestas feijoadas há também um Campelo, encarregado de divertir as moças.
Os Campelos de hoje recitam ao piano, cantam romances franceses, e fazem sortes de prestidigitação.
As feijoadas antigas eram fontes de casamentos.
Atualmente dão apenas origem a namoros, que raras vezes chegam até à igreja.
Os piqueniques, ou feijoadas aristocráticas, apresentam uma fisionomia completamente
diversa da dos pagodes que acabei de descrever.
É em Petrópolis ou em Friburgo que eles se realizam.
O teatro da festa é a Cascatinha ou a Fonte dos Suspiros.
Neles não se encomenda de véspera ao padeiro o pão recheado com o competente paio, nem
se veste o clássico rodaque branco engomado das festas burguesas.
Os convivas são diplomatas, oficiais de secretaria, doutores, ministros, conselheiros,
etc.
Fala-se francês.
O espírito das conversações consiste em calembourgs mais ou menos picantes, e em
análises de toaletes.
Embora não se dance, pode-se dizer que o campo transforma-se em um salão de baile.
Nestas funções sobressaem os galãs.
Os galãs são indivíduos que representam de conquistadores.
Dotados de pouco espírito, e dispondo de um físico, que, as mais das vezes, não prima
por linhas muito corretas, julgam que todas as moças vivem a mendigar-lhes um olhar, e
que dar-lhes-iam a vida por um sorriso.
O belo sexo devia fugir destes tipos, como os anjos do inferno.
Não sabeis como eles vos comprometem, leitoras?
É assim.
Diálogo em roda de amigos:
- Ora viva, seu felizardo. Já sabemos das suas proezas.
- Estão mais adiantados que eu.
- Anda agora lá para os lados das Laranjeiras...
- Não sabia que tinha uma polícia tão ativa!
- Houve quem o visse ontem de braço com ela...
- Vocês hão de fazer tais coisas, que eu ainda hei de me ver obrigado a não freqüentar
mais a casa daquela família.
- Com franqueza, ela dá-te corda, e muita.
- Qual!
Este qual é acompanhado de um sorriso significativo, cuja tradução ao pé da letra é a
seguinte:
- É a verdade.
E a pobre moça nem sequer pensa no tal sujeito!
Outros, em vez do qual dizem simplesmente:
- Calúnias!
Estes tipos, quando conversam em um baile com alguma moça do tom, para convencerem aos
circunstantes que ela aceita-lhes a corte, requebram os olhos e principiam a falar sobre
coisas banais.
- Que calor, minha senhora.
- Está insuportável.
- Hoje não pude jantar. Mandei preparar uma carne ensopada, de que gosto muito, e não
tive apetite. E no entretanto a carne ensopada é uma das minhas paixões! Oh! a carne
ensopada! Eu a adoro, eu a idolatro!!
Estas frases finais são pronunciadas em voz alta, de modo que algum curioso possa
ouvi-las.
No dia seguinte o curioso vem para a porta do Castelões, para o ponto dos bondes, ou para
o canto da rua dos Ourives, e diz alto a bom som, para que todos o ouçam:
- Ontem assisti a um namoro escandaloso de Fulano com Sicrana.
Comenta-se o fato; e no fim das contas eis a pobre moça comprometida por causa de um
idiota, que... idolatra a carne ensopada.
As feijoadas carnavalescas consistem nos passeios que as sociedades de carnaval costumam
fazer uma ou duas vezes por ano ao Jardim Botânico ou à Fábrica das Chitas.
É uma grande procissão de carros e cavaleiros com as competentes damas; uma espécie de
prolongamento das folias do deus Momo.
O divertimento dessa gente consiste em comer e beber valentemente, em andar um dia inteiro
de um lado para o outro, em gritar e ensurdecer os ecos, e sobretudo em tocar o Zé
Pereira.
À noite voltam esfalfados, no meio de fogos de bengala e luz
elétrica, havendo anunciado previamente as ruas por onde tem de passar.
Escusado é dizer que todos eles divertem-se assaz.
Há ainda outra feijoada, que não classifiquei, e que é bastante característica
a festa da Penha.
O bode expiatório destas festas é o burro de carroça que, apesar de ser honrado nesse
dia com um selim no lombo, sofre torturas piores que a dos varais.
Alguns patuscos levam mais longe o direito de sociabilidade, e aboletam-se numa
andorinha, onde vão, à guisa de trastes, por entre arcos de folhas, depor as
oferendas aos pés da milagrosa Virgem.
Os foliões da Penha são respeitadores das liberdades públicas e individuais.
Esmurram as ventas de encontro às pedras, quebram a cabeça, mas não vão ao vulto de
ninguém, nem atacam as instituições.
O seu grito de guerra é Viva a Penha!
E com este voltam da romaria, saudados pelas gargalhadas da população.
Ora eis aí o que são as feijoadas.
(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Histórias e paisagens do Brasil)
|
Esta crônica
registrando costumes cariocas ou fluminenses, como então se dizia, da segunda
metade do século XIX é um dos trabalhos publicados em 1878 por França Júnior,
na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, e reunidos em 1915 no volume
intitulado Folhetins. O autor notabilizara-se sobretudo como teatrólogo. 
Amplexo Abraço.
Assaz Bastante, suficientemente.
Comezaina Refeição
abundante, patuscada.
Esfalfados Esgotados,
fatigados.
Excogitando
Inventando, imaginando.
Faluas Espécie de
bote grande,com velas, usado na descarga de navios.
Fito Intento, fim.
Folgazões
Brincalhões.
Pagode Reunião
informal onde se cantam ritmos populares; Diversão, pândega.
Prestidigitação Arte
e técnica de prestidigitador, ilusionismo. |