O cancioneiro nordestino faz
alusões freqüentes às rendas e rendeiras. Em Alagoas, colhemos os seguintes cocos
(canto e dança populares dos canais e lagoas): Eu vi uma baratinha
Redondo sinhá!
Na janela fazendo renda
Redondo sinhá!
E também vi uma preguiça
Redondo sinhá!
Ser caixeira de uma venda
Redondo sinhá!
(Pilar, Alagoas)
Ê muié rendeira
Ô muié
Bota o birro na almofada
Faz a renda, muié
Ê muié rendeira
Ô muié
O Pilar já é meu
Maceió eu vou tumá
Ô muié
Só não vou a Rio Largo
Pruque não quero brigá
Ô muié
Minha mãe cadê Maria
Maria foi passeá
Ô muié
Bata a renda na almofada
Pra Maria trabaiá
Ô muié
Minha mãe tá me chamando
Lá na porta do quintá
Ô muié
Ô que véia aborrecida
Não me deixa namorá
Ô muié
Ô muié rendeira
Rendeira do Pará
Ô muié
Me ensine a fazê renda
Que lhe ensino a namorá
Ô muié
Ô muié rendeira
Rendeira do Pará
Ô muié
Que dê a minha renda
Que mandei encomendá
Ô muié
(Pilar, Alagoas)
Convém notar que esses motivos da encomenda e do ensino
da renda ocorrem também no Ceará, como nestes versos colhidos por Orlando Mota:
Ê muié rendêra
Ê muié rendá
Muié cade a renda
Que eu mandei encomendá?
Ê muié rendêra
Ê muié rendá
Me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a guerreá.
Caímos assim no ciclo das emboladas do sertão, do
cancioneiro dos jagunços e cangaceiros nordestinos, já registramos um fragmento ouvido
por um de nós em Remanso, no alto São Francisco. Em Alagoas, Pernambuco, Ceará,
Paraíba, muitas emboladas da gesta de Lampião começam pelo estribilho:
Ô muié rendêra
Ô muié rendá,
O que evidencia a importância desse traço cultural na
paisagem nordestina. No sertão alagoano uma informante nos ofereceu os seguintes versos
de uma roda de trupé (variedade de coco):
Ô muié rendêra
Ô muié rendá
Bota a linha na almofada
Faz a renda
Ô muié rendêra
Ô muié rendá
(Vicosa, Alagoas)
São ainda de Alagoas (Macéio) os seguintes versos, onde
há alusões a renda:
Vocês se admiram
De macaco fazer renda
Quanto mais uma perua
Ser caxeira de uma venda
Eu gosto dessa muié
Porque ela é muié fermosa
Faz um bilhete bem feito
E uma renda dificultosa
Menina da saia curta
Da rendilha na maneira
Se quizé casar comigo
Deixa de tanta canseira
A renda de bilros também entrou nas adivinhas populares,
como neste exemplo colhido de Viçosa, Alagoas, por José Maria de Mello, e a nós
comunicado pessoalmente:
O que é, o que é
Meu cumpadre Chico Curto
Homem baixa e pequenino
Perguntaram a meu cumpadre
Pra que quer tanto menino
(almofada com os bilros)
Também no sul do país, as meninas cantam de roda,
modificando a letra do motivo a letra do motivo do sapo jururu ou sapo cururu, tão
conhecido em todo Brasil:
Sapo jururu
Da beira do rio
Quando o sapo canta
Ô maninha
Diz que está com frio
A noiva do sapo
Diz que está lá dentro
Fazendo rendinha
Ô maninha
Para o casamento
(Rio de Janeiro)
Uma informante de Santa Catarina, forneceu-nos a seguinte
quadra, colhida de uma rendeira de Florianópolis:
Faço renda, sou rendeira
Faço renda de tostão
Para rendar a camisa
Do meu amor que é João.
(RAMOS, Luiza e Arthur. A Renda de Bilros e sua
Aculturação no Brasil.)
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