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EU IA POR UM CAMINHO
Há uma parlenda
muito curiosa para pegar os tolos.
O sabidão pede a um menino para repetir, depois da última palavra dita, uma expressão
determinada, como, por exemplo, "e eu também" ou "de sete facadas". E
segue desenvolvendo a parlenda, que é constituída de termos simples, bonitos,
enganadores
O desfecho, combinando o que diz o sabido com a resposta do bobo, é
cruelmente satírico, estonteante. Como bem disse Cecília Meireles, algumas dessas
parlendas "se sobrepõe à formação de um cacófato final, que deixe o interlocutor
em situação ridícula; outras, apenas pretendem concluir por uma frase inesperada".
As empregadas lá de casa, quando criança, gostavam de nos pegar nessas armadilhas.
Diziam, por exemplo: Tudo o que eu disser, o senhor diga a última palavra e acrescente
"de sete facadas". E começavam:
- Eu ia por um caminho
- Caminho de sete facadas
- Encontrei uma vaca
- Vaca de sete facadas
- Encontrei uma casa
- Casa de sete facadas
- Encontrei uma cabra
- Cabra de sete facadas
- Encontrei um morro
- Morro de sete facadas!
Às vezes, mudavam o refrão de "de sete facadas" para "de Deus", e
nós proferíamos esta horrível blasfêmia:
- Eu ia por um caminho
- Caminho de Deus
- Encontrei uma casa
- Casa de Deus
- Encontrei uma árvore
- Árvore de Deus
- Encontrei uma vaca
- Vaca de Deus
- Tirei leite da vaca
- Tirei leite de
(aqui esbarrávamos!)
Outra parlenda, do mesmo tipo, muito dita por nós, naqueles tempos, representava a
suprema imoralidade. Mandavam que diséssemos a última palavra, acrescentando o termo
"arido", que aliás, isoladamente, nada significa. Assim:
- Eu ia por um caminho
- Caminho-arido.
Encontrei um bode
- Bode-arido.
Encontrei um porco
- Porco-arido.
Encontrei um carneiro
- Carneiro-arido.
Encontrei uma estopa
- Estopa-rido!
Ao descobrir a armadilha, muitos meninos espertos diziam logo: "Você está parido,
etc." Chegavam até a falar nas venerandas e respeitáveis progenitoras de cada um.
João Ribeiro, num artigo magistral, estudou a parlenda em 1919, afirmando que ela,
possivelmente, existe por toda a Europa. Os espanhóis, segundo aquele folclorista, chamam
"pegas" a essas armadilhas. Eis variante colhida por João Ribeiro no sul do
país:
- Eu fui por um caminho
- Eu também
Encontrei um passarinho
- Eu também
Com seu bico de latão
- Eu também
Pinicando um [sic]
- Eu também
É notório o pudor com que o grande Mestre tratava esses assuntos. Diante de uma
expressão mais ou menos suja, preferia utilizar reticências. Mas, deixava sempre claro,
ao leitor, o sentido real da frase popular. Um passarinho, evidentemente, não acharia com
facilidade, numa estrada, para pinicar, uma lata de doce
Cecília Meireles consigna versão carioca da parlenda:
- Fui andando por um caminho. Éramos três
- Comigo quatro.
Fomos os três andando
- Comigo quatro.
Encontramos três burros
- Comigo quatro!
P. Deodato de Morais e Osvaldo Orico consignam modelo do sul, que conclui assim:
- Encontrei um burro morto
- Eu também.
Os corvos a comerem ele
- Eu também.
(MELO, Veríssimo de. Folclore infantil) |
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