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O frevo tomou Francisco do Nascimento Filho nos braços, ainda jovem, seguindo Vassourinhas nos acertos de marcha pelas ruas de Recife. De folião, num pulo de tesoura virou Nascimento do Passo - passista profissional, destaque nos disputados concursos dos anos de 1960. O povo o coroou rei do passo, antes mesmo de obter sua maior conquista: A Escola Municipal de Frevo, que saía itinerante ensinando a quem quisesse os segredos dessa arte pernambucana.

Disposto a não deixar virar realidade os discursos pessimistas sobre o fim do frevo, fundou a primeira escola pública de dança do estado, criou uma técnica de ensino personalizada, formou os nossos principais bailarinos.

Nessa busca que é ao mesmo tempo por sobrevivência e contra o preconceito que muitas vezes abate as tradições populares, Nascimento, fazendo o Passo, saiu vencedor.

Em fevereiro do ano 2000 a África Produções aproveita a segunda edição do Pernambuco em Concerto para homenagear o Mestre Nascimento do Passo, dedicando-lhe o CD do projeto que reúne treze grupos musicais pernambucanos que como ele buscam espaço e respeito à sua arte.

O Mestre passista nasceu no Amazonas e viajou para Recife aos 14 anos, trabalhando como carregador de frete no porto, engraxate e dormindo nos bancos de praça. Era o início da década de 1950 e o frevo era a grande sensação do carnaval pernambucano. Maestros como Antônio Bandeira, Capiba e Levino Ferreira se dedicavam ao ritmo criando grandes composições. Época também em que as rádios locais como a Rádio Clube e a Rádio Tamandaré tinham suas próprias orquestras de frevo e promoviam concursos de passo. Além dos artistas, havia em Recife uma gravadora de alta qualidade, a Mocambo, que fazia artistas do sul irem gravar na capital pernambucana. Doca da Ilha do Leite, Egídio Ferreira, Coruja, Marise, Farinha Ruim, Sete Flechas, Pinico de Afogados, eram os principais passistas dessa época.

O frevo entrou mais forte em sua vida quando conseguiu um emprego como jardineiro e se hospedou na pensão atrás do Clube Vassourinhas. Nos dias dos acertos de marcha, as ruas das calçadas ficavam lotadas de brincantes e passistas. Nascimento foi aprendendo com o povo e com os grandes mestres que também iam por lá. Começou a participar de concursos e a se destacar. Ganhou uns, perdeu outros, mas já em 1958 foi destaque dos jornais locais como o grande passista pernambucano.

Lembrando dessa época fica difícil imaginar como o frevo perdeu importância nas décadas seguintes. O advento da televisão e, com ele, o fim dos estúdios ao vivo das rádios, a ditadura e o programa habitacional que conduziu a população para COHABs longes do centro foram alguns fatores que ajudaram a diminuir a força popular do frevo. Tanto que em 1971, dos 100 clubes-de-rua que existiam em 1900, apenas 8 restavam, como conta Valdemar de Oliveira no seu Frevo, capoeira e passo. É nessa época que Nascimento volta de Manaus, onde passou três anos, com a idéia de lutar pela divulgação do frevo.

"Tem que passar a sombrinha com leveza! Vocês já estão dançando" – estimula Nascimento do Passo nos primeiros acordes do frevo de sua aula. Com o mesmo rigor e paciência de quando fundou a Escola Nascimento do Passo, em 1973. Para ele, o frevo é mais do que uma dança acrobática, é leveza desde as pontas dos pés, passando pelos ombros até a última fita da sombrinha.

É janeiro de 2000 e a escola está de férias, mas, "pra não perder o contato com os alunos", Nascimento reúne professores e alunos nos sábados à tarde para o que chama "Aula Técnica". Diferente das normais, as aulas técnicas são compostas de um rápido alongamento e um "esquente" para logo em seguida cada aluno dançar o frevo e receber a crítica ou sugestão dos professores. Os novatos dançam em grupo.

A sala está lotada e as turmas são divididas por idade. O alongamento é um dançar lento ao som do frevo de bloco. Sombrinha na mão, aquecem-se os punhos, os braços, os ombros. Completando o alongamento todos fazem lentamente um passo chamado bico de papagaio – o nome sugere a torção no corpo, mas esse só vendo pra entender, alonga da ponta do pé ao bico da espinha! O que mais impressiona é que ao aportar na sala de aula, o frevo não se transformou em um exercício fragmentado e difícil. A técnica de Nascimento consiste em desinibir qualquer um que chegue na escola, fazer o bailarino vivenciar a ligação que existe entre os passos e mostrar lentamente, todos os movimentos de que o passo é composto. Tudo é muito natural e, a priori, todo mundo pode fazer. A mais gorda da turma é quem demonstra mais elasticidade e o mais baixo é quem dá o maior salto. Senhores se misturam com crianças e cada um respeita seu ritmo.

Isso também porque Nascimento não restringe a criação do passista. Catalogou mais de cem passos diferentes e é bastante enfático: "o número de passos que existe, é a quantidade de pernambucanos que vivem" afirmando que cada passista tem o seu jeito de dançar.

A Escola Municipal de Frevo foi fundada em 1996 como conseqüência de um trabalho que Nascimento faz desde 1973: a Escola de Frevo Nascimento do Passo, que saía pelas ruas e clubes da região metropolitana ensinado o passo e pregando a prática do frevo durante todo o ano. "Fiquei com medo da morte, por isso criei a escola e o método para passar o que eu sei", explica Nascimento que se via na obrigação de perpetuar seu aprendizado.

A Escola Municipal funciona de segunda a sábado com turmas pela manhã, à tarde e à noite, no bairro de Torreão próximo ao centro de Recife. Uma média de 240 alunos passa anualmente por lá. Todos os professores foram seus alunos e são supervisionados diariamente pelo mestre.


Ana Valéria Vicente, em colaboração com a Jangada Brasil. Pesquisa originalmente desenvolvida para o núcleo de estudos da África Produções.

O telefone da Escola Municipal de Frevo é (0--81) 426-2728.

Maiores informações sobre o CD do festival Pernambuco em Concerto, podem ser obtidas pelo telefone (0--81) 424-8998 ou pelo e-mail africa@africaproducoes.com.br

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