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Ir para a página principal O MAU-OLHADO

O povo do Brasil padece disto. Formosas crianças adoecem por causa de forças terrenas e extraterrenas que lhes invejam a beleza; e não apenas bruxas e ogres, como ainda senhoras elegantes possuem olho gordo. Quando o cabelo de uma mulher se torna prematuramente cinzento ou cai por alguma doença, em nove casos sobre dez o responsável é o olhar de alguma invejosa. Uma jovem senhora de nossa vizinhança tinha até há puco tranças iguais às de Eva em comprimento e macieza. Perdeu-as e ela diz que sabe muito bem qual é a pessoa de sua amizade responsável pelo desastre.

Quando um estranho acaricia a cabeça de uma criança e diz que ela é bonita, etc., a ama e os pais inquietam-se se ele não concluir pedindo a Deus ou aos santos que o abençoe, isto sendo a prova de que não lhe está dirigindo um mau-olhado. O poder de murchar diz-se está associado àquele pelo qual as serpentes atraem pássaros para as suas goelas; e que as humanas vítimas, uma vez atacadas, adoecem, definham e se não forem socorridas morrem.

Além dos numerosos preservativos figurados e descritos no capítulo precedente, há ainda outros.

Os cornos não são raros. Vi-os pela primeira vez num lugar em que se expunham à venda frutas, vegetais e outros comestíveis. Um par de cornos de carneiro, pintados com faixas alternadas de azul, vermelho e amarelo, pendiam à porta. Perguntando por que estavam expostos, a proprietária negra exclamou rindo-se: "Para afastar o mau-olhado". H. perguntou se ela queria vendê-los ao que ela deu uma firme negativa.

Há uma série de choças imundas nas vizinhanças do cais, onde sempre há aves à venda, e comumente um macaco ou dois. Um deles é de propriedade de Antônio, um português ativo de idade mediana. Como eu o havia encarregado de arranjar-me um preguiça, passava freqüentemente por seu estabelecimento. Ele tinha dois pares de cornos aí suspensos. Para minha satisfação, H. um dia apontou-os e perguntou para o que serviam. Com animação e gesticulação imoderada, ele disse como os seus amigos das choças vizinhas costumavam invejá-lo por conseguir realizar negócios melhores, e por isso olhavam-no, como as suas aves, de olho gordo, e faziam com que muitas de suas galinhas morressem.

– "Como me protegem?" Pois quando qualquer um deles procura ofender-me, estacam-lhe a inveja. Com isso pensam um pouco e assim recuam, receando o castigo – isto é, eles temem ter um ataque, cair enquanto andam, ou quebrar uma perna, ou qualquer outro infortúnio. Nem é preciso dizer que os vizinhos de Antônio também guardam a sua saúde e a dos seus capados contra o mau-olhado e por meios semelhantes.

Os cornos também podem ser vistos nas vendas. A crença neles parece generalizada.

Antônio pode reconhecer o mau-olhado num estranho ou em qualquer outro. Se ele tivesse lido Byron exclamaria freqüentemente:

I know him by his pallid brow;
I know him by the evil eye
That aids his envious treachery

(Eu o conheço por sua testa pálida
Conheço-o pelo mau-olhado
A que ajuda a sua perfídia)

(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil)
 

Ilustração de autor ignorado. In EWBANK, Thomas. A vida no Brasil.

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