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Ir para a página principal CURADOR DE RASTO

Diz-se no sertão do nordeste aos feiticeiros ou simples "curiosos", que fazem cair os bichos (vermes) das bicheiras dos animais sem que os vejam, usando apenas a força das fórmulas oracionais. São ensalmos numéricos em colocação decrescente que obrigam a diminuição das entidades sob sua influência na mesma ordem em que foram os números indicados. Toda a Europa conhece essa tradição e a emprega não apenas como força mágica como também acalantos (A. A. Barb, Animula vagula blandula, Notes on jingles; Nursery Rhymes and Charms, Folk-lore, LXI, 15-30, Londres, 1950; João Ribeiro, O folclore. XVIII, Rio de Janeiro, 1919).

Um dos modelos mais antigos é uma oração para inflamação de glândulas, registada por Marcellus Burdigalensis, Marcelo de Bordéus ou Marcelus Empiricus, do século V: - Novem glandulae sorores / Octo glandulae sorores / Septem glandulae sorores - e para findar: - Una fit glandula / Nula fit glandula.

O ensalmo mais popular entre os curadores de rasto é o seguinte:

Mal que comeis
A Deus não louvais!
E nesta bicheira
Não comerás mais!
Hás de ir caindo:
De dez em dez
De nove em nove
De oito em oito
De sete em sete
De seis em seis
De cinco em cinco
De quatro em quatro
De três em três
De dois em dois
De um em um!
E nesta bicheira
Não ficará nenhum!
Há de ficar limpa e sã
Como limpas e sãs ficaram
As cinco chagas
De Nosso Senhor

Riscam no ar uma cruz e os bichos caem. Gustavo Barroso (Terra de sol. 198, Rio de Janeiro, 1912); Lourenço Filho (Juazeiro do padre Cícero. 254, ed. Melhoramentos, São Paulo, sd); Aires da Mata Machado Filho (O negro e o garimpo em Minas Gerais. 52, Rio de Janeiro, José Olympio, 1944) registam o ensalmo. Vi empregarem no sertão com diferença: Bichos que comeis / A Deus não louveis / Antes caireis / De dez em dez, etc. Os elementos ocorrem noutras orações da mesma espécie em Portugal, correntes na Beira e no Minho.

Havia em Portugal, popular no século XVI, uma outra oração para fazer caírem os vermes das feridas do gado. Num depoimento no Santo Ofício, a 24 de janeiro de 1592, dado por João Roiz Palha, cristão velho, vê-se: "… confessando disse que avera cinquenta e dois anos (seria 1540) que em Portugal no termo do Moura uma ou duas vezes encantou os bichos de certo gado cujo dono lhe não lembra… o qual encantamento, era para os bichos caírem ao gado de maneira seguinte, tomava nove pedras do chão e dizia as palavras seguintes, encantos bizandos com o diabo maior e com o menor, e com os outros todos, que aos três caíram todos, e estas palavras dizia nove vezes, e cada vez que se achava de dizer, lançava uma das ditas pedras para encontrar o lugar onde andava o gado e desta culpa disse que pede perdão… e que o fazia porque naquele tempo o viu fazer geralmente a quase todos os pastores daquela terra" (Confissões da Bahia. 121, Rio de Janeiro, Ed. da Soc. Capistrano de Abreu, 1935).

Rodney Gallop, Portugal, ‘A book of folk-ways'. 66, Cambridge, 1936, regista outro ensalmo, contemporâneo, para fazer desaparecer parasitos nas crianças: "The spell consists in saying: Nine bichos on the child, eight bichos on the child, seven… six… and so on down to "No bichos on the child", by which time its confidently believed that the bichos will have been compelled to disappear".

As duas fórmulas, uma da primeira metade do século XVI e outra dos nossos dias, usadas em Portugal e baseadas ambas no poder dos números e sua ação sugestionadora, denunciam a antigüidade do processo na fonte de onde a recebemos. Há, identicamente, pela América Latina o mesmo uso. Rafael Cano (Del tiempo de Ñaupa. 191-197, Buenos Aires, 1930) coligiu vários processos de curas de palabra e por secreto, curación por el rastro, com base na sugestão numérica descrescente. Há uma variante em Santa Catarina, Mário Campos Birnfeld ('Tia Chica', Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore, nº 8, 59, Florianópolis, julho de 1951):

"Bichas. Sobre a cabeça do paciente, que deve estar sentado, fazer o sinal da cruz com uma folha de laranjeira, enquanto diz três vezes:

De dez que se parem em nove
De nove que se parem em oito
De oito que se parem em sete
De sete que se parem em seis
De seis que se parem em cinco
De cinco que se parem em quatro
De quatro que se parem em três
De três que se parem em dois
De dois que se parem em um
De um que se derreta e que fique nenhuma
Em nome de Deus e da Virgem Maria, Amém

Depois disso, atirar ao mar, ao rio, etc., a folha de laranjeira
". No século XIV, dom Pedro Gómez de Albornoz, arcebispo, denunciava no seu Libro de la justicia de la vida espiritual a existência dessa superstição em Sevilha, citando a los que acomiendam las bestias perdidas… com palabras vanas et de escarnio (Menéndez y Pelayo, História de los heterodoxos españoles. III, 382, Emecé, Buenos Aires, 1945)

(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)
 

 

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