Retornar para PalhoçaRetornar para Palhoça
Ir para a página principal A CASA

A casa de Manoel Gordo está construída dentro de um dos seus sítios, recuada da estrada cerca de vinte metros. Na frente há uma pequena plantação de abacaxi. A casa é chamada de rancho; ele me disse: casa é feita de "tea", telha.

Casas para eles são as cobertas com telhas. Manoel Gordo tem dois sítios. Aquele onde mora com a família tem uma dimensão de vinte metros de largura por mil de comprimento. Um está relativamente perto do outro.

A casa é de pau-a-pique, paredes barreadas, chão de cimento e cobertura de sapé. Tem uma sala de aproximadamente 3X4 e a cozinha da mesma dimensão. Na sala, há duas camas, uma mesa com duas cadeiras e um baú, onde são guardadas as roupas. As camas são feitas com ripas e, em cima das ripas, colocam-se duas ou mais esteiras, na hora de dormir, de modo que fiquem bem macias. Dorme-se sobre as esteiras, sem lençóis, que são estendidos somente para visita considerada importante, por exemplo, quando o noivo da filha de Manoel Gordo vinha almoçar com eles no domingo. Há uma cama na cozinha, onde dormem mãe e filha. Marido e mulher dormem separados. Quando há dois filhos de sexos diferentes, o filho dorme com o pai e a filha com a mãe.

A mesa praticamente não tem utilidade, pois costuma-se comer fora de casa, com o prato na mão, sentado numa cadeira ou mesmo em cima de uma gamela. A sala tem uma porta e uma janela, que estão constantemente abertas, até mesmo quando a família sai. Na cozinha além da cama, há um fogão, uma tábua, uma talha de guardar água. A tábua serve de prateleira. Ali estão os mantimentos.

Sobre a tábua, estão expostas as latas de arroz, milho para as galinhas, feijão, açucar, café e farinha. Sob a tábua há vários caixotes, onde são colocados os poucos pratos que possuem, as canecas que não se usam todos os dias, os talheres que só são usados quando tem visitas, as panelas de alumínio, as sacolas e os sacos de levar comida para a roça, os ovos das galinhas e as cebolas. O alho e o sal são guardados em coités. Os coités são usados também para guardar colorau, pimenta e todos os ingredientes de pequeno volume. Ficam em cima do fogão ou dependurados por uma cordinha numa ripa junto ao fogão.

O fogão de barro, e não tem os quatros pés de madeira. As paredes são barreadas e vão até o chão. Tem uma chapa de ferro, com duas bocas, um lugar para alimentá-lo com lenha. Fica no canto da cozinha, encostado a duas paredes. Uma parede tem uma pequena janela e a outra uma tábua, à guisa de prateleira. A fumaça do fogão sai pela janela, pela porta e por uma chaminé feita com cano de brasilit. Na beira do fogão, há sempre um bule com café e um quituto onde dona Maria guarda o sal e os temperos.

Em cima do fogão, num cantinho quase escondido, existe uma vassourinha feita com um feixe de gravetos, usada para sua limpeza, depois que dona Maria ou sua filha Maria José terminam de lavar os pratos e as panelas. Arrumar a cozinha, elas dizem ajeitar a cozinha ou dar um jeitinho nos trastes.

As casas de pau-a-pique da região tem geralmente sala e cozinha. As travessas são armadas com bambus lascados ao meio, que se sobrepõem horizontalmente, a cada quinze centímetros. Eles são amarrados com cipós aos esteios verticais, feitos com bambu inteiro. A seguir, barreia-se as paredes, que não são alisadas. O chão é de areia, barro socado, acimentado ou de tijolos.

O telhado é feito da seguinte maneira: um caibro grosso e comprido fica no meio da cumeeira. Sobre este apóiam-se, a cada dois palmos, ripas que são amarradas com cipó ou pregadas. Há também ripas finas colocadas perpendicularmente, para segurar as camadas de sapé trançado, que cobrem todo o telhado. Coberto o telhado, amarra-se bem os feixes de sapé, juntamente com as ripas e, depois, corta-se as pontas de ambos por igual.

Dentro da cozinha, há sempre a cama, o fogão e os utensílios domésticos. O fogão tem quatro pernas de madeira, que lhe sustentam o peso. Sobre elas, é feita uma armação de ripas de madeira, coberta com seis tijolos. Algumas vezes as ripas são cobertas apenas com uma camada de mais ou menos oito a dez centímetros de barro. Seguem-se duas fileiras de três tijolos, colocados de corte, que apóiam a chapa com dois furos. Geralmente há um bom espaço debaixo do fogão, para colocar lenha. Na parede próxima há tábuas ou ganchos para dependurar canecas, panelas, etc.

A sala é o lugar de dormir. Os moradores da casa costumam ficar sentados à porta ou fora. Entram, quando vão dormir à noite, quando dormem à tarde, o fazem sobre uma esteira, á sombra de uma árvore. Na sala, há cama, cristaleira e, em algumas casas, uma mesa com quatro ou seiscadeiras. As roupas são guardadas em pequenos baús ou sacos que ficam dependurados nas paredes, nos pregos ou ainda nas pontas de ripas soltas. Em lugar de colchão sobre as camas, esteiras, de uso generalizado.

As casas com coberturas de telhas são quase sempre maiores e pertencem à gente de classe média. Sua construção é orientada por quem entende do assunto. No Açu, quando se deseja construir uma casa, costuma-se chamar um construtor, fazedor de casa. Quase sempre é o Daniel, pedreiro que sabe fazer um pouco de tudo, é contratado para construir com um certo estilo, e entregar dentro de um determinado prazo. Desse modo, é o construtor que se encarrega de comprar, selecionar o material e a mão-de-obra necessária. Algumas vezes, o próprio dono da casa dá a sua mão-de-obra.

(...) A planta da casa de telha varia segundo o gosto e posses do proprietário. A cobertura sofre pouca mudança em relação às casas de pau-a-pique. A diferença consiste no fato que uma é coberta com telha e a outra com sapé. O chão pode ser feito com tijolos, porém não acimentado, com tábuas ou cimento misturado com pó de tijolos e recobertas com um liga feita de cimento e argila.

Os quartos tem uma ou duas janelas e quase sempre um armário embutido, feito com tijolos. Na sala dessas casas há televisão que funciona a bateria, um sofá de plástico, uma mesinha no centro, uma cristaleira e uma mesa retangular grande. A mesa é quase sempre para oito pessoas sentarem. A varanda faz parte da sala, pois é ai que se toma café, quando se volta do trabalho. É o lugar onde se recebem os amigos para bate-papo. Aí deixam-se as bicicletas e outros objetos, à noite.

Na cozinha, há janela, chaminé, dois fogões, um a gás e outro a lenha. O fogão a lenha é uma peça única, acimentado ou barreado até o chão. A parte de cima é feita da mesma maneira que os fogões de quatros pés. Lateralmente, há um forno para doces e assados. Na cozinha, há pia com água encanada, um armário feito diretamente na parede e uma mesa para depositar mantimentos e louças. No terreiro, há sempre uma bomba para tirar água, e uma pequena horta. O banheiro é geralmente pequeno, porém com jogo de peças completo.

(LUBATTI, Maria Rita da Silva. O folclore na vivência atual de Açu, Marreca e Quixaba)

 

 

Palhoça

Folhinha | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Colher de Pau | Panacéia | Catavento | Almanaque
Candeeiro | Mural | Expediente
| Busca | Outras Edições