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RITUAL DE BEBEDORES

O culto da amorosa, no que há de mais comum e popular, vive sobretudo nas bodegas e vendas dispersas por todo Brasil. Nestes lugares se realizam, diariamente, os cerimoniais típicos dos mamoeiros. O pitoresco cerimonial compreende, quase sempre, três fases:

a) oferececimento e pedidos;
b) agradecimentos;
c) louvações.

O oferecimento é feito pelo pagão, cristo, sofredor, isto é, a pessoa que faz a despesa. No Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo registrou o seguinte ritual – Quem paga e oferece, diz: Vamos dar-lhe. O convidado, fazendo-o serve-se em primeiro lugar, retruca: Venha de lá. O conviva também costuma responder: Venha de lá, que eu vou de cá. Bebendo ambos, no mesmo instante.

Observou o citado Câmara Cascudo, em todo o norte do Brasil, um interessante rito da cachaça, que assim nos descreve: Tendo na mão o copo, feita a vênia do estilo, o primeiro bebedor derrama um pouco do líquido no chão, antes do primeiro gole, nunca aliás bebido por quem oferece o trago e sim pelo homenageado, quando só há um copo para os dois amigos. Perquirindo a origem do costume o ilustre rio-grandense-do-norte foi encontrá-la na libatio romana, cerimônia pagã que consistia em derramar no fogo ou no solo o vinho que sobrava das libações.

O oferecimento, muitas vezes, é feito em versos. Versos improvisados ou decorados. Geralmente decorados. Nas nossas investigações deparamos pequeno número de improvisadores. A grande maioria repete, com as inevitáveis deturpações, loas de João Martins de Ataíde, José Pereira, Pacífico Cordeiro Manso, Cuíca de Santo Amaro e outros conhecidos autores muitos lidos em Sergipe e na Bahia. Os versos são chamados lodaças, loas, velachos, relaxos, glosas, puias, expressões já anotadas pelos dicionaristas. O termo puia designa especificamente, em Aracaju, a trova pornográfica, mais frequente entre os fumadores de maconha, segundo apurou o doutor Garcia Moreno, ilustre psiquiatra sergipano.

É muito conhecida, no seio dos avestruzes de Sergipe, a lodaça de oferta que se segue:

Comigo você não bula
Eu brigo até de tacape.
Tome, poive, beba, ingula,
Desaroe, destampe e tape.

A resposta do companheiro, igualmente decorada, bem pode ser:

Eu bebo, tampo e tapo,
Não deixo o fartum saí.
Sou cidadão brasileiro,
Falo em favô do Brasi.

Os relaxados acima não passam de fragmentos da vasta literatura de cordel existente a respeito da borbulhante. Temos seguras notícias que a constante "tome, prove, beba, ingula" foi glosada por um outro poeta popular nordestino, em livro assaz procurado. Os trechos encontrados nos velachos de bodega vêm, pois, da obra referida.

Eu bem não queria vir,
Você mesmo me chamou.
Inda que o fogo se acabe,
Na cinza fica o calor.
Na bebedeira dos homens,

Eu bebo, derramo e dou.
Bebo, tampo e tapo.
Não deixo o fartum sair.
Sou cidadão brasileiro
E brigo a favor do Brasil.

Num embate entre cantadores Antônio Patativa e José Francisco, que figura no livro O matuto cearense e o caboclo do Pará, veio à baila o mote:

Antônio tu há de errá
Vamos na reta carreira.
Na regra de bebedeira
Tu tens de atrapaiá.
Já cantei em Maranguape.
Que dá o traço é o lapi.
Negro no relho é quem pula,
Tome, prove, beba, ingula.
Desaroie, destampe e tape.

Zé Francisco eu também digo
Nasci para ser poeta.
Minha palavra é bem reta,
Todo homem é meu amigo.
Eu entro em todo perigo.
Embora não escape.
Mas eu bebo "acarape".
Comigo você não bula.
Tome, prove, beba, ingula,
Desaroie, destampe e tape.

Acontece com frenqüência, surgir a figura clássica do pidão, pessoa que não foi convidada a tomar parte na bicada, não raro inteiramente desconhecida dos presentes. Desfalcado da massa, sentindo porém a tentação irresistível de emborcar sua golada, o pidão dirige-se ao cristo, invocando o próprio Deus:

Deus cando andou no mundo
Deixou a água e o vinho.
Meu amigo de calico na mão,
Lembre-se de mim, não beba sozinho.

Noutros casos, o apelo é dirigido aos circunstantes, quando fallha a primeira tentativa:

O home não tem dinheiro,
Eu também não tenho a massa:
Senhores que estão presentes.
Quem paga p’ra mim uma cachaça?

Também pode o chupista estipular a quantia que deseja, o que não é comum. Ouvimos, apenas, na estiva de Aracaju, o "ganhador" Josias Pereira da Silva, que se dizia "sujeito de repente", improvisar versos determinando o dinheiro que queria para virar o copo.

Josias Pereira da Silva,
Sou "sujeito de repente",
Não digo meu naturá,
Tou aqui, tou acolá.
Na prosa sou brasileiro.
Tou precisando de dinheiro.
Sei que o doutô vai me dá,
Devido ao meu sacrifiço.
Nas artes do meu ofiço,
Quero destões p’ra tomá.

O pagão, se é generoso, manda corrê os copos. Há porém, embora em diminuto número, os que preferem jogar a bebida fora.

Se eu comprei foi sozinho
Sozinho hei de pagar.
Eu dando o senhor recebe,
Eu prefiro botar fora
E dessa o senhor não bebe.

Dificilmente um frequentador de venda recusa uma tiliscada. Aceita sempre.

Quando eu enjeitá cachaça,
Macaco enjeita banana,
Vigário perde a sumana.

Após os oferecimentos e pedidos, os irmãos de cordão passam aos agradecimentos.

Com u’a mão pego no copo,
Com a outra digo adeus.
Bato na palma, digo viva,
Viva quem o copo deu.

As louvações, que se prolongam, constituem a parte mais interessante e sugestiva do ritual. Louva-se tudo e todos. O dono da venda, o fabricante da bebida, o ofertante, as pessoas presentes, as várias espécies de cachaça, a bebida pura, a misturada. As "bençãos propiciatórias" ocupam o primeiro lugar. "Eu te benzo e rebenzo, boca de suçuarana, dente de surucucu e toda espécie de ameba." Coligiu, ainda Câmara Cascudo:

Em jejum eu te arrecebo,
Como xarope dos bebo,
Tu puxas, eu arrepuxo,
Bates comigo no chão,
Bato contigo no bucho.

No baixo São Francisco, ouviu o professor José Augusto da Rocha Lima:

Giribita, giribitinha.
Tu me puxas, eu te puxo
Tu bates comigo no chão,
Eu bato contigo no bucho.

No alto São Francisco, Manuel Ambrósio encontrou:

E risca,
E trisca,
Belisca
E cola.

Alguns beberrões são lacônicos, práticos:

Eu como não tenho o que dizê,
Boto na boca e voceis vê desce.

Outros, louvadores prolixos, louvadores de "légua e meia":

Diz adeus Mamãe de Luana
Com o seus fios Nogueira.
Se ela viesse lá na feira,
Caiu dez de cada banda.
Mais, apois, Mamãe seja mais branda
P’ra brincar com os seus mancebos;
Eu vi Cirilo bebo,
Daniel quase deitado.
Como o chão não é furado,
Em jejum eu te arrecebo.

Guilherme Santos Neves refere-nos uma lodaça de procedência mineira, onde vamos topar a mesma prolixidade dos muiados sergipanos.

Cachaça é moça bonita,
Filho de pardo trigueiro.
Que bebe muita cachaça,
Não pode juntar dinheiro.
Floriano Peixoto,
A tentação do canhoto.
Prudente Morais,
Que já foi não volta mais.
Vira esta cachacinha,
Que vai correr por esta goelinha.

Outro exemplo é ainda trazido pelo folclorista capixaba.

Sant’Ana, mãe de Maria
E de Massarandá,
Pedra de tirar fogo,
E de quilarear.
Caju, cajá, cajarana,
Cajarana, caju, cajá,
Se tiver catarro na goela
Com certeza... (aqui, toma-se o gole da cana)
E desce já.

(José Calasans. In CASCUDO, Luís da Câmara (org.). Antologia de Alimentação no Brasil)

 

Veja também:

- A presença da cachaça em Minas Gerais

- O baile da aguardente
- Cachaça, no Almanaque
- Do modo de alimpar e purificar o caldo de cana...
- Receitas com cachaça

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