Vendedores de Caldo de CanaOs
vendedores de caldo de cana das ruas de São Paulo estão divididos em duas categorias:
1-Trabalhadores que vivem mais em função de cultura espontânea. São biscateiros,
aposentados, desempregados, subempregados, donas-de-casa e crianças entre oito e doze
anos. Vendem caldo de cana, pastéis, pamonha, milho cozido, água de coco gelada e água
mineral, em kombis estacionadas à beira de rodovias, nas grandes avenidas e à entrada de
parques de diversões.
Boa parte delas trabalham por conta própria, mas há quem esteja a serviço de terceiros,
colegas que possuem uma ou mais kombis.
2-Trabalhadores que possuem equipamentos mais sofisticados e empregam pessoas sem
condições de ingresso em fábrica ou em outros ramos de atividades, devido a pouca
escolaridade ou pelo fato de serem jovens demais ou velhas demais.
Os vendedores diferenciam-se também pelo tipo de aparelhagem usada e pelo produto que
comercializam. Os mais abastados têm caminhões com equipamento para moer cana e vender
pastéis feito na hora, milho cozido, etc. O caldo de cana é opcional em três sabores
diferentes: simples, com suco de abacaxi e com suco de limão.
Os grandes vendedores instalam-se na avenida Professor Abrão de Morais, na rodovia dos
Imigrantes, na Marginal Pinheiros, na avenida dos Bandeirantes, na rodovia Castelo Branco.
Os menos equipados, que não dispõem de tantos instrumentos de trabalho, esmeram-se em
oferecer bom atendimento e principalmente higiene aos fregueses. Só vendem caldo de cana;
seus instrumentos de trabalho são: kombi com bastante uso, pequena máquina de moer cana,
balde ou bacia de plástico para lavar os copos, jarra de plástico para servir de caldo,
copos de vidro, coador de plástico ou peneirinha, caixas de isopor para conservar o gelo,
tambor dágua e mesinha de fórmica. Há uma mesa colocada ao lado da porta aberta
para ser usada como balcão.
Os bagaços de cana são vendidos a japoneses que os transformam em ração para os
porcos.
A cana que os vendedores ambulantes transformam em caldo procede quase sempre de
Caçapava. Em São Paulo, o ponto de negociação entre vendedor ambulante e o vendedor de
cana é o largo 13 de Maio, em Santo Amaro. Os fornecedores de cana são os que suprem as
moendas das pastelarias de São Paulo.
Segundo Celso dos Santos, que vende caldo de cana numa kombi estacionada à avenida dos
Bandeirantes há mais de dois anos (1979), os vendedores que não dispõem de grande
capital compram a cana diretamente dos agricultores, para pagarem menos e obterem um lucro
maior. Os pequenos vendedores, que estão começando com o capital reduzido, estes
percorrem bairros periféricos e cidades interioranas, próximas a São Paulo. O objetivo
é comprar cana dos chamados agricultores de quintal, os pequenos agricultores, cujo
preço é mais convidativo.
O caldo de cana é vendido dia e noite em São Paulo, de novembro e abril, porque tem
maior saída no verão. As pessoas, nessa época, saem de casa com maior frequência. A
venda intensifica-se nos dias quentes, nos festivos e nos fins de semana.
Freguês:
Os consumidores são homens e mulheres de todas as idades, pertencentes a todas as
camada sociais. Na opinião de alguns vendedores, os fregueses dos fins de semana e
feriados diferem dos fregueses dos demais dias. Quem consome caldo de cana nos dias
festivos é gente de maior posse e que circula de carro. Baseando-se nessa ocorrência, os
vendedores, nos finais de semana e feriados, instalam-se à beira de rodovias de maior
concentração de veículos e nas áreas de lazer.
Propaganda e Venda:
Os vendedores recorrem a vários meios promocionais para chamarem a atenção dos
transeuntes. Colocam feixes de cana amarrados ao meio e abertos em forma de leque em
espaços próximos às kombis e aos caminhões estacionados. Sobre os feixes penduram
cocos, garrafas de água mineral e bagaços de cana. Utilizam também cartazes fixados em
ramos de árvores, nos postes de iluminação, nas laterais das kombis e dos caminhões e
nos vidros das janelas dos veículos. Costumam ainda colocar grandes cartazes em lugar de
boa visibilidade onde relacionam os nomes e preços dos produtos.
O vendedor Celso e outros afirmam que, para obter resultados com cartazes é necessário
que estes tenham grandes dimensões, sejam vistosos mas de cor única, escritos com letras
de forma constrastante com a cor de fundo. As cores consideradas mais eficientes são o
amarelo, o verde e o vermelho. Eis os fundamentos de sua propaganda folclórica : "Eu
sei que dão resultado porque um amigo meu que vende caldo de cana no Paraná, há muito
tempo só faz cartaz amarelo, verde e vermelho. E depois ele diz que, a cor forte, vê
até quem não enxerga bem. Aqui em São Paulo, os colegas costumam falá que cartaz
pequeno e escrito com letras miudinhas não presta, porque gente rica enxerga pouco e é
distraída. Precisa então cartazes grandes e com cores fortes, pra vê até quem não
enxerga nada e prá despertar neles a vontade de tomar o nosso caldo. A gente procura
vender prá esse povo rico, pois pobre gasta pouco, porque não tem muito dinheiro para
gastar com bobagem quando sai. E tem mais, caldo não é novidade para pobre, mas é prá
rico."
Em suma, os vendedores de caldo de cana aprendem a comercializar o produto, a confeccionar
cartazes e os demais macetes da profissão vendo fazer e ouvindo os conselhos dos colegas
que estão no ramo há mais tempo.
(LUBATTI, Maria Rita da Silva. Vendedor Ambulante, profissão
folclórica: pesquisa nas ruas, parques e jardins de São Paulo)