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O vocabulário da jangada Mestre: Piloto da jangada e o
primeiro pescador. Tem a responsabilidade da navegação, escolha dos pesqueiros,
duração da tarefa. Leva o remo de governo na mão e a linha de corso amarrada na coxa,
sentado no banco de governo ou de mestre. Tem direito até a quarenta e cinco porcento do
pescado. É a autoridade real da jangada. Mestre é para mandar. Quem é mestre deve
saber... Proeiro: Segunda pessoa da jangada. É quem puxa o peixe na linha de corso. Substitui o mestre doente ou
impossibilitado do comando. Fica à sua direita nos espeques e aí pesca. O pescado do
proeiro é marcado por uma ponta da cauda cortada. Bico de Proa: Terceiro pescador da
jangada. Substitui o proeiro. Marca o peixe que lhe é destinado cortando as duas pontas
da cauda. Contra Bico: Quarto e último homem na
jangada. Pesca na proa e marca o peixe cortando uma parte da cabeça. Pau de Jangada: Jangadeira. Tiliácea, Apeiba
tibourbou, Aubl. Gabriel Soares de Souza, em 1587, foi o primeiro a descrever o pau de
jangada: - "Apeiba é uma árvore comprida, muito direita, tem a casca muito verde e
lisa, a qual árvore se corta de dois golpes de machado, por ser muito mole: cuja madeira
é muito branca, e a que se esfola a casca muito bem; e é tão leve esta madeira, que
traz um índio do mato as costas três paus destes de vinte e cinco palmos de comprido e
da grossura da sua coxa, para fazer delas uma jangada para pescar no mar, à linha; as
quais árvores se não dão senão em terra muito boa. "Apeiba", contração de a-pe-iba,
significa "árvore de flutuar" e tibourbou semelhantemente "pau que
flutua ou bubuia" (Pirajá da Silva, notas à Notícia do Brasil, 2º, 70).
O pau de jangada é exportado do Pará e por Alagoas, vindo do município de São Miguel
dos Campos, considerado o melhor "boeiro", que bóia e certas partidas cearenses
são acusadas de "madeira alagada". Chamam-na ainda embira branca e pente de
macaco. Mastro: O único mastro da jangada é
feito de gororoba, camassari ou conduru e mede de cinco a seis metros. São estas madeiras
recomendadas pela resistência e flexibilidade. Durante a pescaria,
largado o tauaçu ou a fateixa, enrola-se a vela no mastro, retirando-o do banco.
Deitam-no apoiado no banco de vela e na forquilha dos espeques. A vela é uma influência
estrangeira? Os portugueses não a encontraram no Brasil no século XVI. Havia no
Pacífico, segundo Nordenskiold. Se desceu pelo Amazonas, vinda do Peru ou Equador, não
deixou rasto. Deduzo, entretanto, que a vela já estava aplicada à jangada na quarta
década do século XVII, no litoral do nordeste brasileiro. Vela: As jangada usam uma vela única,
triangular, latina de algodãozinho. Os indígenas tupis chamavam-na "língua
branca", cu-tinga, pela sugestão de sua forma. O almirante Alves Câmara encontrou na Bahia, em 1888, jangadas com duas velas e dois mastros: uma
quadrangular, maior, e outra pequena e triangular, num mastro de vezena inclinado para vante e escorado ou amarrado no aracambuz e esquepes atuais. O
tamanho da vela é relativo à altura do mastro. Os mestres põem o mastro no solo e
riscam a futura vela na areia, marcando o desenho com fios e cobrindo o espaço com faixas
de pano que vai sendo cortado e cosido dentro das dimensões fixadas. O trabalho mais
sério é "entralhar" ou "palombar" a vela. Consiste em cosê-la com
fio encerado em cera de abelha, e que se chama "coberta", enfiado na agulha de
palombar, à uma corda de macambira, carrapicho ou cabo de manilha, de três quartos. A
corda, que se denomina "envergue", sofreu um processo de prova, exposta vinte e
quatro horas ao sol, esticada entre os coqueiros e com um tauaçu pendente, para que não
encolha, fazendo a vela ficar "sacuda", com sacos, com bolsos, diminuindo a
superfície de exposição ao vento. A vela fica cosida com pontos de duas polegadas de
distância de um ao outro. Depois de "entralhada" é levada para
"envergar" no mastro. Referia-se a pôr a vela na verga que não existe nas
jangadas. A parte superior da vela é a "testa" e o restante "corpo".
Os vértices são "guinda", o superior; "punho", o mais saliente e
"amura" ou "mura", o inferior. Os grandes mestres de jangada
governavam olhando apenas a vibração do vento na "testa" da vela. O segredo da
jangada corredeira está no entralho da vela. Os portugueses não encontraram o uso da
vela nas embarcações indígenas brasileiras. No Pacífico, o piloto Bartolomé Ruiz viu,
em 1526, nas águas do Equador, uma grande bolsa com vela quadrangular e já utilizando a
bolina: Dos mástiles o palos gruesos, colocados en el centro del buque, sostenian una
gran vela cuadrada de algodón, mientras que un grosero timón y una especie de quilla
hecha com una tabla encajada entre los maderos facilitaba al marinero el que diese
dirección a esta clase de buque, que seguia su curso sin la ayuda del remo. É a mais
antiga menção. No Brasil, o primeiro registro gráfico é um desenho na Brasilae
Geographica & Hydrographica Tabula Nova, etc de Jorge Marcgrav, 1643, num desenho.
Vê-se uma pequeníssima jangada com um só negro pescador, usando a vela quadrangular,
suspensa duma carangueja. Tenho a convicção do uso da vela nas jangadas, já em 1635, e
possivelmente a bolina, como quilha móvel e o remo de governo. Sem a vela, como
registraram os cronistas quinhentistas, a jangada apenas fazia a pesca próxima à costa.
Arriscar-se ao mar aberto, com direção deliberada e domínio do vento só seria
possível com aparelhagem que hoje conhecemos: vela, bolina e remo de governo. E há
documentação destas viagens, em 1635. Resta apurar se nos veio do Pacífico, via
Amazonas, onde não deixou vestígios, dando explicação à vela redonda da jangadinha de
Marcgrave, em 1643, ou seria influência direta e imediata, e lógica das embarcações
portuguesas, vindas de Portugal, e as construídas no Brasil sob a sua técnica. Botar prá maré: Ir pescar. Dar de vela: Voltar das pescaria. É a
ordem de "largar", findando o trabalho. Encalhar: Botar prá cima, arrastar a
jangada para terra enxuta, fazendo-a deslizar em cima de rolos de coqueiro. É operação
diária e sempre delicada e nem todos sabem encalhar com precisão e limpeza. Durante a
noite o mestre avisa sua chegada soprando o búzio, pedindo o auxílio aos companheiros
que encalharam anteriormente. Búzio: Búzio era outrora empregado
pelos jangadeiros, chamando os fregueses, anunciando peixe fresco quando as jangadas
chegavam à praia. Continua usadissimo em quase todas as praias do Rio Grande do Norte
para avisar a aproximação das jangadas ou canoas durante a noite. O som é prolongado e
rouco atrai infalivelmente os pescadores que ajudam encalhar a jangada ou recebem
encomendas ou recados trazidos. No Ceará, denominava-se atapu. |
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