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TRÊS AVENTURAS
DE PEDRO MALASARTES NO CÉU
I
ansado de vagar
pelo mundo, Malasartes resolveu dar um passeio ao céu, onde chegou com três dias de
viagem. Bateu no portão do paraíso e esperou. Pouco depois ouviu a voz de São Pedro:
- Quem é?
- Sou eu.
Eu quem?
- Pedro Malasartes.
Que vem você fazer aqui no céu?
- Vim dar um passeiozinho. Quero ver essas belezas aí de dentro.
Não pode ser, moço. No céu não entra ninguém vivo.
- Tenha piedade, São Pedro, só quero dar uma espiadinha
- Nada, não é possível!
- Ora, abra, São Pedro, abra por favor
é só um instante
Deixe-me ao menos botar a cabeça aí dentro
E tanto pediu e rogou, que São Pedro, já abalado, ou caceteado, entreabriu-lhe a porta
para que espiasse.
Malasartes deitou-se, mais que depressa, de barriga para baixo, com os pés voltados para
a porta, e foi-se deslizando para dentro do céu.
São Pedro protestou, mas o Malasartes retrucou-lhe que o santo se havia comprometido a
deixá-lo meter a cabeça no céu, e era o que estava fazendo.. O chaveiro celeste não
teve remédio senão conformar-se, porque palavra de santo é como a de rei, não volta
atrás; e o caso é que quando a cabeça de Malasartes penetrou no céu já estava o corpo
dele inteirinho
II
ndando Malasartes por uma
estrada, encontrou-se com um pobre, que lhe pediu esmola. Deu um vintém ao pobre, e este
que não era outro senão Nosso Senhor fez-lhe presente de um gorro vermelho,
declarando-lhe que só ele Malasartes e ninguém mais poderia pôr a mão naquele objeto.
Tempos depois, cansado de vaguear pelo mundo, entendeu Malasartes de dar um passeio ao
céu. Para lá se encaminhou, e depois de três dias de viagem batia no portão de São
Pedro.
O santo porteiro perguntou lá de dentro quem era, e ele respondeu; perguntou o que
desejava, e respondeu. O santo negou-lhe a permissão pedida; mas o viajante tanto rogou,
tanto chorou que ele sempre consentiu em entreabrir a porta para que espiasse um pouco.
Mal vê a fresta, Malasartes atira o gorro pra dentro e começa a gritar:
- Quero o meu gorro, quero o meu gorro!
São Pedro prontifica-se a ir buscá-lo, mas o burlão protesta:
- Não pode ser, só eu posso pegar no meu gorro. Ninguém mais, só eu. São ordens de
Nosso Senhor.
São Pedro tratou de certificar-se da verdade, e veio a saber que Malasartes não mentia.
Não havia outro remédio: deixou-o entrar para apanhar o gorro.
Assim Malasartes conseguiu entrar no céu. Mas não se demorou lá muito tempo...
III
m dia chegou para
Malasartes a hora de ir para o outro mundo, e de nada lhe valeu a esperteza; teve que
marchar. Quando se viu no estradão da eternidade, pensou no que faria e resolveu, em
primeiro lugar, ir bater à porta do céu.
Lá foi; mas São Pedro, assim que o enxergou, deu-lhe com a porta na cara. Então
deliberou ir ao inferno; foi, bateu, mas o porteiro, dando com o homem que surrava até os
diabos, tratou de fechar o portão com quantas trancas havia e foi correndo avisar o seu
rei.
Houve um rebuliço dos diabos no inferno: pavor e correrias por todos os cantos. O
próprio Satanás tremeu; mas, recuperando o sangue frio, pensou, pensou e ordenou que se
deixasse entrar o hóspede. E disse-lhe:
- Eu não quero você no inferno, Malasartes; você, além do que já fez, ainda é capaz
de vir aqui revolucionar a minha gente.
Tenha paciência, seu Satanás, mas aqui estou e aqui fico.
Então vou fazer uma proposta: que se decida o seu destino pela sorte do jogo.
Aceita?
- Feito!
- Se você perder, irá diretinho para o caldeirão.
Está dito. E se eu ganhar, você me paga com uma das almas que lá estão
fervendo.
Começaram o jogo, e cada qual fazia o possível para passar a perna no outro. Mas Pedro
Malasartes era mais esperto e ganhou a primeira partida, depois a segunda e assim outras.
Satanás, vendo que não podia derrotar o parceiro e que ia perdendo almas sobre almas,
postas em liberdade por Malasartes, mandou botar o insuportável para fora do inferno.
Malasartes andou vagando como alma penada, muito tempo, sem saber onde havia de se
aboletar.. Até que um dia teve uma idéia e tocou de novo para o céu. Chegando à porta
do céu, tomou uns ares muito humildes, e bateu devagarinho. São Pedro abriu um postigo,
enfiou a cabeça e perguntou:
- Quem bate a estas horas?
- Sou eu, meu santo
- Eu, quem? Diga o que quer, e toca!
- Será possível que o meu santo padroeiro não me reconheça
Pois eu sou o Pedro
Malasartes.
Malasartes?! Outra vez?! Já não lhe disse que o seu lugar não é aqui?
- Não se zangue, meu santo, meu grande santo
Sei muito bem que nunca entrarei neste
lugar de glória
- Então vamos ver, o que quer?
Malasartes, com muita brandura e muita lábia, pediu ao santo que entreabrisse ao menos a
porta, um bocadinho, só para que pudesse espiar por um momento a beleza do céu. Tanto
pediu e tanto fez que São Pedro o atendeu. Então, mais que depressa Malasartes atirou o chapéu pela fresta.
São Pedro bufou e descompôs o patife, e tanto barulho fez que começaram a ajuntar-se magotes de anjos e de justos ali
junto da porta.
Acontece que o chapéu era um objeto terreno, além de estar muito sujo, e ninguém no
céu lhe podia tocar. Mas Pedro Malasartes reclamava o chapéu, não abria mão, e enfim,
para encurtar, não houve jeito senão, perimitir-lhe que entrasse. E o malandro, entrou,
muito contente, com ar vitorioso.
Mas o atrevimento não ficou sem castigo. Levaram o tal para junto de um monte enorme de
milho e mandaram-no contar os grãos um por um. Malasartes, que remédio! Começou a
contar, a contar, a contar, e levou um mundo de tempo a amontoar os grãozinhos para um
lado. Quando já estava acabando a contagem, veio um anjo e misturou tudo. E Malasartes
teve de contar de novo
E até hoje lá está contando e recontando os grãos de
milho, sem acabar nunca.
(AMARAL, Amadeu. Tradições populares)
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