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SERRAÇÃO DA VELHA

Não se pode afirmar, exatamente, como e quando vieram parar ao Brasil as folias portuguesas da Serração da Velha. O que se sabe é que as crônicas coloniais do começo do século XVIII já delas nos falam com entusiasmo, embora sem demasiada freqüência.

Eram festas de rua, festas do poviléo, dos raros sorrisos da cidade infeliz.

Suprindo, muita vez, a ação do Estado, vamos encontrar a igreja do Brasil colonial como uma espécie de empresária das alegrias do povo. Igreja mãe. Igreja amiga. Se não se organizava, como o Município, folganças de espavento, com almotacés trombeteando em bandos mascarados, pavoneando-se sobre ginetes com arreios de prata, não esquecia de organizar, com certo propósito e constância, motivos deliciosos de recreio e folia, onde o homem se deleitasse sempre com o pensamento em Deus. Quando não dava a sua novenazinha, dava o seu tedeuzinho, um mês de Maria, uma missa com boa orquestra e castrati estupendos, mandados vir diretamente da fábrica, em Roma. E as folias do adro? Que é também preciso contar com elas: o coreto, o império, o fogo de artifício, o leilão de prendas… E as procissões? Quando as tivemos mais pitorescas e divertidas? Procissões como nunca mais puderam ver os nossos olhos, em préstitos intermináveis, com músicas alegres, com danças, alegorias pagãs e até máscaras. Além disso, a Mitra sempre animou e protegeu os festejos de rua, que de qualquer forma tivessem significação religiosa, com as congadas, os reisados, o império do Espírito Santo e a serração da velha.

O vigésimo dia da quaresma, em toda parte do mundo onde se venera a imagem de Cristo católico, sempre foi um dia de folga à penitência do jejum. Féria amável que o epicurista cristão do século XVIII não deixava nunca passar sem grandes sinais de regozijo. Não esquecer que o estômago, no século, era víscera respeitabilíssima. Preparavam-se, portanto, nas moradas de família, para essa quarta-feira da terceira semana de jejum, opíparos repastos, em que figuravam as mais raras e saborosas iguarias, ceias estupendas, variadas em cobertas e fartíssimas em acepipes, sempre regadas dos melhores vinhos; cousa, enfim, capaz de enternecer até o mais abstêmio e cético dos estômagos. Diante de homenagem tão tocante, a víscera regozijada, como era de esperar, dilatava-se feliz, enchia-se, atulhava-se, entupia…

Ora, enquanto pelos lares a famulagem, desde cedo, pressurosa se distribuía asseando o ambiente das moradas, compondo alfaias e ativando as cozinhas, nas ruas a patuléia influida organizava-se em bando para as folias atordoantes da serração da velha.

Esses conjuntos pitorescos de foliões sempre variavam na sua apresentação luxuosa, ou modesta, de acordo com as posses dos seus organizadores. Serrava-se a velha faustosamente dentro de casacas de chamalote e luvas de manopla, sob pálios de bulbute ou de damasco, ao som de filamôrnicas de truz, como modestamente se serrava, ainda, na indumentária esfarrapada dos pobrezinhos, com dois ou três instrumentos apenas como música, e substituindo andor e palitos por um simples estrado onde se punha solenemente o pipo que figura o aljube, onde a velha se escondia.

Melhor será, porém, acompanharmos um desses conjuntos de ralé, formados pela gentalha das ruas, massa pitoresca, gritona, irrequieta e revel, mas, por isso mesmo, interessando-nos muito mais.

São quatro horas da tarde, Estamos em pleno largo do Moura, pletórico de gente e onde os quadrilheiros da Câmara, com as suas armas, cruzam, impondo aos organizadores do cortejo, que vai sair, moderação e ordem. Não trazem fantasias os festeiros.

O préstito larga ruidosamente ao som das músicas conhecidas e cantadas por todos:

Serre-se a velha
Força no serrote
Serre-se a velha
Dentro do pipote


Seguindo as pegadas dos instrumentistas da filarmônica improvisada, vai um estrado tosco, rasteiro ao chão, e que rola pousado sobre quatro rodas curtas, mas fortes. No estrado está uma pipa em cujo interior – diz o povo – vai oculta uma velha condenada ao suplício do serrote.

Esta velha tem malícia
Esta velha vai morrer
Venha ver serrar a velha
Minha gente, venha ver


O homem do serrote, enquanto o estrado desliza lentamente, puxado à corda por um negro, dança, ora erguendo alto o instrumento de suplício, ora assentando-o no ventre do barril já ferido, e sempre a cantar em falsete:

Serre-se a velha
Dentro do pipote…


Conta-se que a ingenuidade feminina da época era tão grande que velhas havia que se negavam com insistência, a sair das alcovas, onde se escondiam, isso pela hora da passagem dos préstitos, trêmulas, sucumbidas, medrosas, receando que a farandulagem das ruas as obrigasse a ir também no pipote, como em charola, sofrer o cruel suplício da serração.

A matula feliz caminha, penetrando a rua da Misericórdia, onde mais se avoluma e se expande a cantar. É um berreiro indômito e infernal. Não esquecer, porém, que o reinol, atiçado pelas recordações pátrias, nostálgico das velhas que serrava na Metrópole, a alma desdobrada, em festa, é também uma porção bem grande em meio à malta foliona. Há, além disso, mulatos, ciganos, mendigos, soldados das milícias do reino, dos terços auxiliares, ébrios de alegria, também cantando, também dançando, pulando, requebrando…

Para gozar a festança, bem como nos dias de procissão, em frinchas de alguns dedos, as portas de rotula e as janelas de grade de urupema da casa colonial. Vem a família inteira cheirar a novidade, ver a corja que se diverte, ouvir os cânticos que são gritados, berrados em coro:

Serra, serra, serra a velha
Puxa a serra, serrador
Que esta velha deu na neta
Por lhe ouvir falar de amor

Serra, ai serra! Serra a velha
Puxa, puxa, ai, serrador
Serra a velha – ai, viva a neta
Que falou falas de amor

Serra! – a pipa é rija
Serra! – a velha é má
Serra! – a neta é bela
Serra – e serra já


Diante da casa do mestre de campo Bartolomeu José Bahia, perto do beco do Cotovelo, o préstito estaca de repente e, então, dentre os componentes da farsa, um há que avança, e que lê a história da sacrificada do pipote. A versalhada é longa e, quiçá, um tanto monótona. É a vida da velha ali pintada com as cores mais trágicas. Má filha, má mulher, má sogra, má avó, por isso, no pipote em que está, espera a sua morte. E o poeta então pergunta, perorando, já meio fatigado de voz:

Que castigo ela merece
Dizei-me, senhores, meus?


Entram as músicas, e logo o coro responde, alvorotado e bulhento:

Serre-se a velha
Força no serrote
Serre-se a velha
Dentro do pipote!


Sabem os moradores distingüidos pela atenção do préstito que a homenagem dos versos tem que ser paga. Então, de uma das gelosias de grade mais ou menos entreaberta, surge certa mão, que avança, portadora de um prato de doces, que é recebido e cuidadosamente colocado depois sobre o tampo superior do barril. De ver os aplausos, os guinchos, os berros, até daqueles que não se aproveitarão do prato na hora do repasto. E de novo a marcha regular em busca de outras ruas e de outras dádivas capazes de garantir uma ceia gostosa e farta. Dobra o préstito o beco do Cotovelo, desce a rua da Cadeia, vai até ao largo da Carioca, sobe Latoeiros, desce Ouvidor, Direita, até penetrar o terreiro do Paço, aonde, em geral, vão ter todos os préstitos congêneres.

E sob as janelas da residência vice-real, então, recomeçam os cânticos, agora mais do que nunca galhardamente acompanhados pelo homem do serrote, que já fendeu visivelmente o barril. Chega o momento apetecível do brinquedo. Para ferir o entulho do pipote, grávido de uma malotagem vasta e suculenta em vez de velha, o serrador, com a própria arma, levanta o tampo superior, já posto em dobradiça, e do continente começa ele a desovar, sob aplausos frenéticos da turba, todas as iguarias do banquete.

A colheita dos pratos de brinde foi pequena, e quase todos são de doces. Uns seis, nada mais. O miolo do pipote, entanto, garante o apetite voraz dos festeiros.

Comem, porém, apenas os componentes do préstito, claro. Os outros espiam, mas com isso se contentam. Come-se a valer. E bebe-se melhor. Pantagruel preside ao festim…

Dançam-se, depois disso, em torno do pipote, lindas tiranas e lundus; mas já não se diz - serre-se a velha

Sobre o estrado, o pipote vazio espera pela função nova, que lhe vão dar na hora de recolher.

E o préstito recolhe. Para dentro do barril já saltou, envolto num vasto camisolão de linho, o mais afeminado dos circunstantes, e que se dispõe a fazer a velha do folguedo. Como vai, os cabelos encrespados sobre a testa, é bem uma figura de mulher, embora com a barba por fazer… Veja-se-lhe, agora a atitude de dor e tristeza. Sente-se que até na alma a velha traz sinais do serrote. Que grande artista, diz-se, olhando o homem que a pantomimar a farsa, ergue, de quando em quando, os braços aos céus para os descer após, num grande gesto de fraqueza ou desânimo. Que grande artista! Agrada, mas não há na farandulagem quem explique melhor as razões do talento do ator. O homem está integralmente bêbedo. O que ele mostra, portanto, não é talento, é vinhaça.

A volta do préstito acorda a rua solitária. Entreabrem-se, de novo, as frinchas das portadas. Nota-se que a alegria é maior, a bulha é mais intensa. O homem do pipote cabeceia. Os cantos já são outros. Os quadrilheiros chegam com as suas lanças e ordenam que o préstito caminhe com mais presteza. São sete horas. Anoitece. Pelas moradas de famílias, iluminadas, interiormente, aproveita-se a folga da igreja. Come-se, bebe-se; depois, resvala-se para o oratório e daí para a cama.

E assim foram as mi-carêmes do Rio pelo correr do século XVIII.

(Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis)

 

Ilustração de autor ignorado. In Luiz Edmundo, O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis.

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