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ENCOMENDAÇÃO DAS ALMAS

Logo após o tríduo de Momo vem o período de resguardo: nada de festas durante a Quaresma. Esse período de quarenta e sete dias, a começar da Quarta-feira de Cinzas inclusive o terminando no Domingo de Páscoa (e incluindo o Sábado Santo, anteriormente de Aleluia) não tem festividades de caráter religioso popular.

Todavia, especialmente o povo rural costuma efetuar práticas propiciatórias na Quaresma, com grupos de homens, mulheres e crianças que saem à noite, pano branco cobrindo a cabeça, rosário nas mãos, berra-boi (um cordão com peso na ponta, e que é girado rápido, provocando forte zumbido), a matraca... Objetivo: fazer orações para as almas sofredoras ou para os que morreram de acidentes. Chama-se esses grupos de Recomenda de Almas, Recomendação de Almas, Encomenda de Almas. Existem essas Recomendas em praticamente todo o Estado.

Veja trechos da Recomenda de Almas, gravada em Franca, em junho de 1960 no Festival de Folclore, o grupo era formado por cinco homens, duas mulheres e duas criança:

Alerta, alerta pecadores
Acordai, quem está dormindo
Veja que o sono é irmão da morte
E a cama é a sepultura

Peço que vós reze um Padre Nosso
Padre Nosso e Ave Maria
Pras almas da obrigação
Peço pelo amor de Deus

(Pausa para rezar, cerca de 20 segundos)

Peço que vós reze mais um Padre Nosso
Padre Nosso e Ave Maria
Pras almas do purgatório
Peço pelo amor de Deus

(Pausa, cerca de 20 segundos)

Peço que vós reze mais um Padre Nosso
Padre Nosso e Ave Maria
Pras almas todas gerais
Peço pelo amor de Deus

(Pausa, cerca de 20 segundos)

Estava Maria
Fazendo oração
Chegou Madalena
Também São João

O meu filho está preso
Numa corrente sem fim
Soltai o meu filho
Pertence a mim

Nosso Pai lá do céu
Olhai pela terra
Livrai-nos da fome
Da peste e da guerra

Cadê o garfo que furou
Os olhos de Santa Luzia?
Lá pro céu ela foi cega,
Senhora Santa Luzia

(Mas) Quando ela perdeu a vista
Que tristeza, ai, não seria
Quando ela perdeu a vista
Não enxergô a luz do dia

Cadê a toalha que enxugou
Os olhos de Santa Luzia?
Lá pro céu ela foi cega
Senhora Santa Luzia

Ave Maria
Cheia sois de graça
Salvais as nossas almas
Bendita sejai.

(PELLEGRINI FILHO, Américo. Folclore Paulista)

 

Até meados do século XIX nas sextas-feiras da Quaresma ou durante novembro (mês das almas) saíam procissões noturnas em sufrágio das almas do purgatório. Muitas não eram dirigidas pelos sacerdotes. Entre onze horas e meia-noite, os homens vestindo cogulas brancas, que lhes encobriam inteiramente as feições, levando lanternas, iniciavam o desfile, que era guiado por uma grande cruz. Cantavam rogatórias, ladainhas, rezando rosários, e detinham-se ao pé dos cruzeiros, para maiores orações, em voz alta. Certas procissões conduziam instrumentos de música, e as orações eram cantadas. revestiam-se do maior mistério, e era expressamente proibido alguém ver a encomendação das almas, não fazendo parte do préstito. Todas as residências nas ruas atravessadas deveriam estar hermeticamente fechadas e de luzes apagadas. Qualquer janela que se entreabrisse era alvejada por uma saraivada de pedras furiosas. A encomendação das almas deixava, pelo seu aparato sinistro e sigiloso, a maior impressão no espírito do povo. Afirmava-se que o curioso que conseguisse olhar a procissão, veria apenas um rebanho de ovelhas brancas, conduzido por um frade sem cabeça. Algumas encomendações permitiam a flagelação penitencial, e muitos devotos feriam-se cruelmente, durante a noite, necessitando tratamento de muitos dias. Ainda ouvi as descrições de velhos moradores de Natal, que tinham ouvido, tremendo de medo, as lamentações assombrosas da encomendação, que vieram até depois do ano do cólera, 1856, assustando a todos com o sinistro batido das matracas e gemidos dos flagelantes.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)

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