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A
PRESENÇA DA CACHAÇA NA VIDA DOS MINEIROS 
Costuma-se repetir aquilo de que o vinho alegra o
coração do homem, como está no salmo 103, versículo 15. E também se pode citar, a
propósito, o poeta do Rubayat [1]. Ouçamo-lo: "Dizem-me:
- Não bebas mais, Káyyám / E eu respondo: Quando bebo ouço o que dizem as rosas, as
tulipas e os jasmins. Ouço mesmo o que me não pode dizer a minha bem amada!
"
Se não alegra o coração, o vinho mitiga ao menos a pena de viver. É lastimável a
embriaguez? Sim, é. Mas, ouçamos ainda Káyyám: "Considera com indulgência os
que bebem até à embriaguez / Lembra-te que tens defeitos maiores / Se queres conhecer a
paz e a serenidade, pensa nos miseráveis que padecem os piores infortúnios e
acabarás por jugar-te feliz".
Não estamos defendendo a bebida. Somos mesmo abstêmios, não em homenagem à virtude,
mas por disposição da nossa natureza particular. Temos, no entanto, de reconhecer que
não faltou razão a quem disse nada haver mais triste que duas pessoas sentadas em frente
de uma garrafa de água mineral. Disse-o um poeta paulista. Martins Fontes [2], em conferência sobre "A
alegria", e indagava, lealmente, sinceramente, já houve alegria sem bebida?
Não pode haver, respondia. Quando a sabedoria popular diz que alguém está alegre, é
porque, na certa, esse alguém bebeu.
Uma das últimas reflexões escritas do romancista W. Somerset Maugham, já nonagenário,
foi esta: "Quando tiverem alcançado a minha idade descobrirão que às seis da
tarde a vida começa a tornar-se um tanto difícil; mas, se tomar um pouco de whiskey,
enfrentar a noite fica bem mais fácil".
A cachaça, como o vinho, alegra o coração. Sobretudo o do homem pobre, que tem no copo
o seu remédio de males. A cachaça dos cem nomes não é só o aperitivo de virtudes
muito apreciadas, mas ainda um poderoso estimulante para levantar as energias. Para
levantá-las até o limite em que as abaixa e anula, sempre que provoque embriaguez de
segundo e terceiro graus. Abaixa e degrada, muita vez, como aconteceu nos tempos bíblicos
do patriarca Noé. Esse homem justo e perfeito, que achara graça diante do Senhor,
aplicou-se depois do dilúvio à vida agrícola, plantou uma vinha e, tendo bebido do
vinho, embebedou-se e apareceu nu na sua tenda. Ficou o exemplo para os que bebem sem
moderação.
Bebe-se muita pinga em Minas? Bebe-se. Pinga boa, a de muitas partes do estado. Pinga da
cabeça. E muita, muita pinga detestável, na maioria dos casos.
A produção de cachaça no país, foi de trezentos milhões de litros, o que representa
trezentas doses por ano para cada brasileiro maior de idade. A informação é de Realidade,
ano I, nº 1, 01/04/1966. Existem registrados hoje, no Brasil, uns vinte mil nomes de
caninha e já a temos exportado para a Itália, Antilhas Britânicas e Alemanha.
Logo que se descobriram as Minas, e a pouco se começarem a povoar, instalaram-se engenhos
de moer cana e destilar aguardente. Informado de que tais engenhos eram prejudiciais aos
interesses da Real Fazenda, por ocuparem numerosas pessoas mais úteis em outros misteres,
e também porque perturbavam o sossego público em razão das desordens
causadas por negros bêbados, Sua Majestade proibiu que se instalassem novos engenhos. A
aguardente devia ser importada das capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro, onde não
havia mineração, e também do Reino. Expediram-se sucessivas ordens nesse sentido, que
não foram executadas com a devida exação. Multiplicavam-se os
engenhos e engenhocas e rara era a fazenda, mesmo pequena, onde não os havia. Vendia-se
por isso a aguardente a um preço ínfimo. [3] Em nosso tempo, já em fase
importante da economia canavieira, com a montagem de engenhos centrais e usinas, as
tradicionais engenhocas das velhas fazendas mineiras limitaram-se a fabricar rapadura e
aguardente, e a própria rapadura vem sendo abandonada aos poucos. Só a aguardente dá
resultado compensador. E cachaça nunca faltou no mercado, por mais que aumente a sede dos
seus consumidores.
É de crer que sempre se bebeu muita cachaça no país, se bem que as opiniões de alguns
viajantes divirjam nesse particular. O reverendo Robert Walsh achou que o brasileiro era
pouco dado à bebida. A cachaça, escreveu ele, "salutar antídoto
contra os efeitos do frio e da umidade", era consumida pelos negros ou pelos
marinheiros estrangeiros. Isto com referência ao observado no Rio de Janeiro, George
Gardner, vindo depois, corroborou de certo modo essa
opinião. Andando por Liverpool, disse, vira em poucos dias mais ébrios do que encontrara
entre brasileiros, pretos e brancos, durante cinco anos de viagem. Pareceu-lhe o
brasileiro muito mais temperante no beber que no comer e muito mais inclinado ao rapé que
ao fumo.
Viajando por Minas, em 1840, notou Gardner, todavia, o uso imoderado da cachaça na
região de Diamantina, e não só entre os pretos, que tinham motivos de sobra para
ingerirem ácool com freqüência, mas entre os brancos de ambos os sexos, em todas as
camadas sociais, os quais lhe pareceram também largamente viciados. Viu contudo poucos
casos de embriaguez.
Richard Burton referiu-se também à nossa cachaça. "A aguardente, disse, citando
o Dr. Johnson, é bebida de heróis e aqui os homens bebem heroicamente a sua cachaça; o
resultado é a hepatite, a hidropisia e a morte!" Seu emprego lícito, aduziu, é
no banho depois de insolação ou para afastar os incômodos insetos. Reconhecia que,
bebida com moderação, especialmente em manhãs frias e tardes úmidas, fazia mais bem do
que mal. O homem do povo, francamente a seu favor, reconhecia-lhe as virtudes de refrescar
o calor, aquecer o frio, secar o úmido e umedecer o seco. Bons pretextos se acaso
fossem necessários para um gole. O hospedeiro brasileiro, geralmente, mandava ao
seu hóspede uma garrafa dela com a tina de água quente, para o banho.
Gardner não mentia: os diamantinenses granjearam a fama de amigos da pinga e ainda a
conservam em nossos dias. Exigência do clima frio, provavelmente. Pelo norte de Minas
correm estes versinhos folclóricos:
Montes Claros dá toucinho
Bocaiúva dá feijão
Buenópolis dá dinheiro
Diamantina dá pifão
Os diamantinenses, ao menos os dotados de senso de humor, não o negam. Como aquele que
cantava:
Na Diamantina nasci
É minha terra, pois não
Bebendo pinga cresci
E hei de morrer no pifão
Aires da Mata Machado Filho cita no seu livro Arraial do Tijuco, Cidade Diamantina
os versinhos de um coreto que, no dizer dos antigos, era cantado pelos pretos de
São João da Chapa:
Oia como bebe
Esse povo do Brasil
Inxuga um garrafom
Mai depressa quun funi
Não era melhor que a de Diamantina a fama de Ouro Preto. O Zé da Fé, popular tipo de
rua, sempre bêbado, cantava pelas ladeiras vilarriquenses versos satíricos que
estudantes lhe sopravam, como estes:
Os moços desta cidade
São como os velhos daqui
Bebem demais, é verdade
Não passam sem parati
Seria porém totalmente injusto restringir a fama às duas tradicionais cidades de Minas,
outrora celebradas pela urbanidade de suas populações. Houve época, não distante, em
que geralmente se bebia mais do que hoje. Pode-se afirmá-lo, não com o fundamento em
dados estatísticos, que não existem, mas pelo testemunho até certo ponto aceitável dos
mais velhos. Eram comuns e numerosos os casos visíveis de embriaguez, observados em
lugares públicos. Muito mais comuns do que hoje. Os viciados de condição humilde eram
apontados como "cachaceiros" e os que mereciam consideração social
recebiam a qualificação atenuada de "etílicos".
Não se praticava desportos. Tirante as festas religiosas e as conversas
no adro das igrejas, a única distração que se achava fora da casa era na mesa dos
botequins, baiúcas mal instaladas e pouco
limpas, quase sempre. Passava-se aí, e à noite nos bordéis, a chamada vida de boêmia,
cara aos amigos do copo e da estúrdia, aos estudantes vadios,
aos artistas impecuniosos e aos literatos in herbis, que também os havia.
Terra de boêmios foi a Vila Rica de fins do século passado e princípios
deste. A frígida garoa serrana convidava ao gole. Como em Diamantina. E havia outro
motivo: a catadura tristinha da cidade como
que incitava a matar o bicho da melancolia. Pretextos? Claro que sim. Há sempre pretexto
para se tomar um trago. Pelas voltas de 1860, ou proximidades, "existia em Ouro
Preto uma sociedade composta de muitos homens de posição, denomidada Nossa Senhora dos
Tombos, devota de Ceres e Baco, tendo procissões anuais da pragmática, além das que
efetuava em benefício das Vendas Novas e que consistiam em esvaziar em uma só noite
todos os líquidos que vinham para o primeiro sortimento". [4]
Os botequins tinham fregueses até às tantas da madrugada. Era preciso que o
botequineiro, quase sempre um italiano, despejasse os retardatários: "Per favore,
signori
Bisogno dormire." Fora, esmurravam a porta, recalcitrantes: "Abra
para mais um traguinho! Abra, seo carcamano!" vociferavam. "Ainda temos
dinheiro para comprar toda essa m.!" Urinavam-lhe na porta, alagando o passeio,
com escândalo das velhas beatas, rebuçadas em xales pretos, que àquela hora matinal se
dirigiam para a missa das cinco.
Bebia-se laranjinha, conhaque, rum, genebra, aniz, vinho e outros líquidos alcóolicos. A
cerveja que se consumia era da melhor qualidade, importada da Alemanha e da Inglaterra
(marcas Einbeck, Pá, Guiness e Porter), não faltando também as de fabrico nacional,
marca barbante, assim chamada a inferior, cujas garrafas tinham as rolhas presas por meio
de barbantes. As boas marcas nacionais só apareceriam em fins do século passado.
O vinho que se importava de Portugal em pipas e quartolas costumava ser escandalosamente
falsificado pelos comerciantes. Por causa disso houve em Ouro Preto um conflito que deixou
lembrança duradoura na história da cidade. O caso é que um representante da Higiene
Pública, o doutor Campos da Paz, empreendeu saneadora campanha contra os vendedores de
vinhos falsificados. Penetrava em armazéns, examinava o material das garrafas e barris e,
se adulterados, mandava-os quebrar e derramar o liquido nas sarjetas. Ardeu Tróia! O
comércio protestou, gritou, alvoroçou-se. Ataques ao médico higienista. Colocados ao
lado da autoridade, os estudantes da Escola de Farmácia, em represália, promoveram uma manifestação de desagravo. Quando o cortejo passava pela praça Tiradentes,
foi atacado inopinadamente por numerosa massa de capangas assalariados e por caixeiros das
casas comerciais, adrede preparados para o assalto.
Levantaram-se paralelepípedos da calçada. Tiros, pedradas, porretadas. Entreveros a
socos e pontapés. Comparece a polícia militar, distribuindo pranchadas a torto e a
direito. Resultado do conflito, que durou minutos: um comerciário morto e inúmeros
feridos.
Por aquele tempo, em todo o país, importava-se de Portugal e outras partes da Europa
muito vinho que se falsificava aqui, e da mesma procedência vendiam-se artigos
alimentícios, como por exemplo a manteiga, já em mau estado de conservação.
Dizem os amigos da caninha que só quem não bebe é sino e ovo, sino porque tem o ventre
para baixo e ovo porque é cheio. E a caninha bebe-se pura ou misturada, lisa ou queimada,
em grogues, ponches e batidas. À queimada se dá também o nome de quentão,
bebida quente, como o nome diz, forte, com ou sem gengibre o grogue nacional por
excelência. O melhor ponche é o preparado com laranja azeda, aguardente e açúcar, e a batida mais apreciada é a de aguardente com limão e, modernamente, com uma
camada de gelo moído. Para as bandas de Januária, terra de famosa aguardente, dá-se o
nome de pitoresco à cachaça fervida com açúcar mascavado, servida em cuités nas festas de casamento,
batizado, etc. Quem toma cuitezadas do pitoresco é chamado folião e quem
não toma é dito quelementes. O folclorista Manuel Ambrósio [5], de quem recolhemos a
informação, não explica o porquê do nome quelementes.
Muitos amigos da caninha preferem bebê-la temperada ou misturada. A mistura pode ser com
gengibre, ruibarbo, umburana, junça, xarope, vermute, aniz, bitter ou fernet. Pede-se no
balcão "parati com goma", isto é, um xarope adocicado em que entram
gotas de bitter ou fernet. A cachaça engana a fome. Para não relaxar o estômago, o
freqüentador de botequim pode beber dilatadamente a sua branquinha
acompanhando-a de nacos de lingüiça frita na hora, o que lhe permite ir longe nas suas libações.
Notas:
1. Rubayat de Omar Kháyyám, versão portuguesa de Otávio
Tarquínio de Sousa, Rio de Janeiro, 1938.
2. Citado por Leonardo Mota, Sertão Alegre, Belo Horizonte. 1928,
p.124.
3. Ver 'Instrucção para o governo da Capitania de Minas Gerais' por J.
J. Teixeira Coelho, in Revista do Arquivo Público Mineiro, VIII, p. 558.
4. Albino Esteves. O teatro em Juiz de Fora. Juiz de Fora, 1910,
p. 33.
5. Brasil interior. São Paulo, 1934, p. 126
(FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve)
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Veja
também:
- O baile da
aguardente
- Cachaça, no
Almanaque
- Do modo de
alimpar e purificar o caldo de cana...
- Ritual dos
bebedores
- Receitas com
cachaça
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