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BATACLAN (Firmino Teixeira do Amaral) Lá vai a nova "Revista" Quem não gostar baixe a crista Peço a Deus passe uma vista Neste seu mundo de intriga Olhe o grande desmantelo Com este novo modelo Mulher cortar o cabelo Só parece rapariga Pego na pena, tremente Para narrar o presente Nestes versos, simplesmente Vou mostrar nova mudança Vou mostrar modelo e uso Da dança do parafuso Falando do grande abuso Da mulher que corta a trança Deste uso marca "Espora" Dos braços todos de fora Destas cinturas de agora Que abaixo da anca vêm Estes modelos de blusa Da nossa bondade abusa Mas se a rapariga usa Famílias usam também Meu avô sempre dizia Que dantes se conhecia Uma família onde ia Era muito respeitada Hoje tudo é diferente A rapariga faz frente A moça segue contente De cabeleira cortada Santo Deus! Que mundo escasso Eu só conheço um pedaço Mas pelo lugar que passo Vejo tudo em desmantelo A mulher que dança o "Bode" E homem que raspa o bigode Deus quer salvar mas não pode Mulher que corta o cabelo Este mundo é um rebolo Faz da humanidade um rolo E o pai da família é tolo Tudo vê, não dá cavaco A mulher joga a perua A filha anda semi-nua Fazendo reclame na rua Mostrando os seios e o sovaco Vestidos finos demais Se chama mata rapaz Pelo reclame que faz Não é pra família usar Mas, assim acham decente Vestido bem transparente Decota a blusa na frente Quem quiser pode falar Santo Deus! Que grande horror Neste mundo zombador Todo o homem pensador Perde o gosto de viver Com este novo modelo De homem dançar camelo Mulher cortar o cabelo O homem deixando crescer! Mulher que raspa o sovaco São Pedro dá um cavaco Em vez do Céu vai ao saco Mulher que raspa o cangote Homem que raspa o bigode Maroto que dança o bode Deus quer salvar mas não pode Temendo pegar calote Depois de tanta mudança A mulher perde a esperança Da cabeleira, da trança Que a tornava mais bonita Hoje não tem mais desvelo Num acerbo pesadelo Manda cortar o cabelo Para ficar mais catita Tudo é moda nesta terra As moças fazendo guerra Pela beleza que encerra No famoso Ba-ta-clan! Não sentem mais embaraços Se enfeitam com finos laços Raspando as pernas e os braços Calçando meias de lã! Uma fita cor de rosa Salto alto, melindrosa Parece ficar formosa A moça que quer beleza! Está vestida decente Admira toda gente Ficam vergadas pra frente Como se fossem põe-mesa! Depois do tal "Parafuso" A moda provoca abuso Para o homem só falta o uso De sapatos salto alto! Há de ter hilaridade Homem sério de verdade Andando pela cidade Como se fosse um pernalto Pode dizer quem quiser Pois a moda é quem requer Que o corpo de uma mulher Fique penso de um lado! Uma formosa donzela Passa o dia na janela Esperando o amante dela Com o cotovelo ralado Que diferença não há De dez anos para cá E eu não posso me adomar Com este novo modelo Todo dia chega um uso Veio agora o "Parafuso" De tudo é maior abuso Mulher cortar o cabelo Veio o Diabo na caixa Fazendo a cintura baixa O Bataclan não rebaixa Morreu a dança do "Bode" Deus botou na porta um selo São Pedro não quer nem vê-lo Mulher que corta o cabelo Homem que raspa o bigode Há dança do repenico Periquito não tem bico Como a pobre vê o rico Arrancar o "Parafuso" Cria logo grande gana Cheia de orgulho se ufana: - O meu marido se dana Mas eu acompanho o uso E fica nesse sentido Até que chegue o marido Para fazer-lhe o pedido De um bom vestido de lã Se o pobre besta não tem Custe o diabo, mas ele vem Que a mulher só fica bem Com vestido à Bataclan! Só nos falta ver agora O uso da anca de fora Vestido marcando a hora Em cada ponteiro um buraco Mulher de calça e colete Homem em sela de ginete Galinha choca dar leite Homem de saia e casaco Hoje é a moda do suco Um pai de família caduco Fazendo a vez de maluco Raspa o bigode se quer Eu não aprecio a moda Embora saia da roda Toda água barrenta é tolda E homem sem barba é mulher Este mundo está perdido Quem quiser bote sentido A mulher dribla o marido Jogando de carta e sóta! A filha que não é mole procura quem lhe console O velho o bocado engole Tudo vê, faz que não nota A mulher num traje lindo Na rua se sacudindo E o besta tudo engolindo Calado, sem dizer vã! E ele é tolo pra falar? Pode a mulher se zangar Bater no peito e gritar Tudo agora é Bataclan! A mulher manda e desmanda Grita fora e na varanda Passando seu contrabando Driblando as vezes que quer! Sempre risonha e contente Muito santinha na frente Do burro velho demente Que a julga boa mulher Vê-se uma mulher casada Na rua toda pintada De cabeleira cortada E as outras fazendo figa Arranja seu par de bota Vai jogar carta e sóta Quem vê na rua não nota Se é casada ou rapariga Noutro tempo ninguém via Esta moda de hoje em dia As moças ficavam titia Sem conhecer dança em uso Agora vejo a mudança Hoje nasce uma criança Amanhã ela já dança Bataclan e Parafuso Se toda mulher soubesse O valor que ela merece Mil cabelos que tivesse Nunca mandava cortar Por mais que seja bonita Toda beleza se agita O filho da Candinha grita: - Lá tem um "gato" acolá! Mas agora, lá em casa Toda moça que se casa Pode criar até asa Tem que respeitar o selo Estes garotos, marreco Que faz figura de boneco Não bebe no meu caneco Mulher que corta o cabelo! A mulher repare e veja Que todo mundo deseja Por mais feia que ela seja Mulher de cabelo grande Com este novo modelo Mulher que corta o cabelo Perde o respeito e o selo Espera que o freguês mande É um mingau de caroço Oh! Meu Deus, que alvoroço! Velho deseja ser moço Para acompanhar o uso Mesmo do lado de fora Diz a sogra para nora: "A moça que não namora Não arranca o "Parafuso"" Com estas blusas modenras As moças ficam mais ternas Com a cintura nas pernas Os braços todos de fora E quem assim não usar Nunca terá de casar Se os sovacos não mostrar Morre velha e não namora Dantes só luxava o nobre Com muita pena do cobre Hoje a menina mais pobre Bate no peito com afã Diz meu pai é boticário Porém no correr diário Eu só quebro o Centenário Melindrosa e Bataclan! Quer possa ou quer não possa A pobre mãe não se esforça O velho puxa a carroça Na rua a vender bucho Para a filha passear Ir aos bailes, namorar Boa amizade gozar É preciso andar no luxo Se a rica bota um vestido A pobre diz ao marido: - Eu quero um parecido Aquele da dona Justa! Daquela mesma fazenda Já vai o besta pra venda E não traga a encomenda Que há de ver o que lhe custa Fica num canto amuada Fala como uma danada De que serve ser casada Sem na vida ter um gosto? Se no tempo de donzela Você chaleirava ela Nunca mais cança a tramela tudo lhe lançando ao rosto Este mundo está virado Quem conheceu o passado Fica deveras pasmado Pois dantes não era assim Hoje não vale um juá Quem quiser pode notar De certo tempo pra cá Só temos tempo ruim Casada, rapariga ou moça No Bataclan de cumforça Tudo pega bem na louça Se todo trajar é um só Como se faz diferença Vendo a primeira presença Parte, sem pedir licença Usa o cabelo cotó? Tudo acompanha a tabela Não se conhece a donzela Se a casadinha for bela O marido é quem padece Tudo cortando o cabelo É um grande desmantelo Aí só botando o selo Porque ninguém a conhece! Se o governo nos mandasse Uma lei que obrigasse Que a mulher "sura" botasse Uma estampilha ou um selo Hoje a moda quando vem Tudo acha muito bem Pegava um selo de bem Mulher que corta o cabelo Muitos dirão : É abuso! Mas se a moça está no uso Tudo arranca o "Parafuso" Ele querendo bem pode E não perderá na festa Separando aquela desta Pegava um selo na testa Homem que raspa o bigode! Alguns falaram de mim Me chamando de ruim Mas dantes não era assim Nem se via a bandalheira Andava tudo direito: O homem tinha respeito Nem havia este defeito De tanta mulher solteira Hoje a vida está devassa Pois nas ruas que se passa Encontra-se em grande massa debruçadas na janela Como aquela casa é sua Quem vai passando na rua Tem que vê-la quase nua Seja casada ou donzela Na janela debruçada Se uma senhora casada Vem vindo pela calçada E naquela rua desça Vê ela naquele estilo Dando "coio" que nem grilo Quem não quiser ver aquilo Tem que baixar a cabeça Esta fraca mocidade Gosta muito da vaidade Quem mais carrega bondade Mais aprecia a pilhéria Num adjunto de moça A língua bate com força Quem está de parte ouça Uma só palavra séria! Esta que se faz bondosa É quem mais gosta de prosa Aprecia o vento em glosa Estando longe do pai Em casa é muito santinha Mas sabe uma ladainha Para contar à vizinha Num minuto que ele sai Homem cínico, sem proveito Está roubando o direito Da pobre mulher o peito Depois que veio este uso Do homem raspar bigode Pegaram a dançar o "Bode" E a rapariga não pode Arrancar o "Parafuso" Conheço um camaradinha Que só banca o almofadinha Rezando uma ladainha No ouvido de um leiteiro! Eu disse a ele: Seu moço O seu mingau tem caroço E quem bebe no seu poço Ainda ganha dinheiro Sendo que o freguês aceite Essa loção ou azeite A água que põe no leite Desforra seu prejuízo Quem comprar que leve o rombo Eu não namoro nem zombo Ele bateu no meu ombro Fazendo cara de riso Eu lhe respondi: Seu moço O seu mingau é insosso Só cachorro é que rói o osso Quem come milho é galo! Case quem lhe convier Vá sorrir pra quem quiser Quem ri pra homem é mulher Quem corre muito é cavalo (LESSA, Orígenes; SILVA, Vera Lúcia de Luna e. O cordel e os desmantelos do mundo) |
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