NUM
TEM PARCÊRO
- Me falaro que mecê
dumingo passado, teve
Lá no arrasta-pé que teve
Na casa do Zico Ipê
- Tive mermo.
E se conteve:
Num dançô munto?
Ara sê!
Dancei cum nhô Américo Bê;
Cum nhOgengio; cum nhô Isteve
- E num dançô cum nhô Prado?
Dancei uma.
E ele é acanhado,
mesmo, nha Chica Montêro?
- Quar acanhado, nhô Antão!
Ele é o chefe dos gavião
Pra apertá, num tem parcêro!
SÓ NAS FOINHA
- Tenho visto munta gente
Quatro-pau pra arrecitá
Mais, que nem nhô Lau Corrente
Inda num pude topá
Mais, pra falá francamente
Eu acho isso naturá
O dianho tem, nhô Cremente
Livro de verso, a fartá
- Mecê acha, intão, nhô Cerso
que im livro é que tem bão verso?
Uai! Essa é a minha opinião.
Puis, intão, escuite a minha:
Pra mim, é só nas foinha
Que se incontra verso bão
(COSTA, Fontoura. Matutices)
***

Deraldo Dias, médico, latinista e
professor do Ginásio de Salvador, criou este epigrama em sátira aos seus colegas de
grau:
Doutor dos mais eminentes
Homem severo, impoluto
Entre os deveres urgentes
Por que não perca um minuto
Vai vistar os doentes
Logo vestido de luto
(LIMA, Herman. Roteiro da Bahia)


Pelo sinal
Do bico real!
Comi toucinho
Não me fez mal!
Se mais houvesse
Mais comeria
Adeus, compadre
Até outro dia!
***

O MARIDO MINEIRO
Na sala de espera da Academia Brasileira de Letras, no
seu Petit Trianon, um visitante falava mal dos mineiros, em geral, e acentuava:
- Eu tenho tanta prevenção com mineiro, que, havendo uma sobrinha minha, a quem muito
estimo, contraído casamento recentemente com um rapaz de Juiz de Fora, cortei
imediatamente relações com ela. O mineiro tem todos os defeitos e o principal é furtar
nos negócios em que se mete.
O general Lauro Müller, que se achava próximo, e que, como se sabe, era catarinense,
não se conteve:
- Pois olhe, meu caro amigo, - interveio, mesmo sem conhecer o sujeito; - sabe de uma
cousa? O senhor ainda vai ser muito amigo desse mineiro, porque fique certo que ele vai
tratar muito bem a sua sobrinha.
Eu, amigo de um homem que furta?
- Sim, senhor, - tornou Lauro Müller Porque o brasileiro, em geral, furta da
família para lançar fora; ao passo que o mineiro, se furta, como o senhor diz
E com entusiasmo:
- Furta para a família!
(CAMPOS, Humberto de. O
Brasil Anedótico.)

|

Uma vendedora de suspiro de Botucatu, Estado
de São Paulo, revelava sua presença nas ruas da cidade, cantando esta melodia, que foi
anotada em 1945:
Quem quiser comê suspiro, ai,
Vá em casa que eu dô dado, ai
Eu tenho um pé de suspiro, ai,
Que dá suspiro dobrado, ai.
***

Uma tarde, um sabiá, desesperado
Foi dizer a um ipê todo enflorado
Com as suas flores de ouro a se ostentar
Que um periquito desavergonhado
Basta ouvi-lo para logo, airado,
começar
a berrar!
"Mestre Ipê, ensinai-me uma lição
Que sirva de castigo ao paspalhão"
E o ipê retrucou:
- Se quereis que te dê uma lição
esta lição te dou
Se Deus te fez, sabiá, um grande artista,
Se o canto é um dom, que o próprio mal conquista
Tu tens a obrigação de perdoar.
Ninguém pode negar que ele seja bonito
Mas não passa de um pobre periquito
Que só sabe gritar!
Dá-lhe, pois, o perdão, continuando a cantar".
***
E o cantor, o sabiá, curvando os joelhos
Ouvindo, filialmente, os seus conselhos
Entre as flores do ipê reflorescido
Cantou-lhe uma canção, de agradecido
(CEARENSE, Catulo da Paixão. Fábulas
e alegorias)
***

A vida de solteiro é vazia, a de
casado enche
Não buzine. Acorde mais cedo
Guie com cuidado, o próximo carregamento pode ser seu
Pobre não casa, ajunta os trapos
Com mulher de bigode nem o diabo pode
Se você tem olho gordo, use colírio diet
Vivo correndo para não morrer devendo
Em Cubatão toda quarta-feira é de cinzas
Se a botina é boa, não precisa de turbina
Amigo do sol e amante da lua
***

A honra é como o vidro quebrado,
quebrando, não solda mais
Os dias se sucedem, e não se parecem
Os invejosos têm um no papo, outro no saco, e choram pelo que está no prato
Os homens sobem por ambição e por ela vêm ao chão
Pai rico, filho pobre, neto nobre
Pão roubado não enche barriga
Parente é o pior aderente
Por fora, filó, filó, por dentro, molambo só
Que culpa tem a cascável de ter veveno?
Quem a filha casa, arde a casa
***
| O animal na boca do povo: COBRA Pessoa de má
indole
Pessoa que atinge idade avançada
Número 9 no jogo do bicho
Mulher de mau gênio
O maior em determinada atividade
Cobrão: o maior em determinada atividade
Cobra verde: (sem veneno) frouxo com fama de valente
Cobra coral: símbolo do Santa Cruz Futebol Clube
Cobrinha: modo de anunciar o nº 9 no jogo de víspora
Ficar cobra: ficar em fúria
Gênio de cobra: gênio mau, perverso
Cascável: gênio mau, perverso
Dizer cobras e lagartos: falar muito mal de alguém
Carne de cobra: coisa muito ruim
Cobra choca: homem valente no momento de fúria
Ninho de cobras: grupo de pessoas más e rixentas em família ou em
qualquer ponto de reunião. Negócio encrencado
Cobra assanhada: pessoa má e agressiva
Fala que só o homem da cobra no mercado de São José: (Recife) tagarela
comparado ao camelô
Cobrinha elétrica: fogo junino
Parece mordido de cobra: parece louco
Botar suspensório ou colete de cobra: fazer o impossível
Assovio de cobra: aguardente
Cobreiro: nome popular de uma dermatose
Virar cobra: enfuerecer-se
Matar a cobra e mostrar o pau: provar o que fez
Engole cobra: sujeito de pescoço comprido; apelido de trabalhador rural
na zona da mata de Pernambuco
Uma cobra engole a outra: os maus se destróem mutuamente
Natureza de cobra: mau gênio
Cobra fumando: emblema da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II
Guerra Mundial
Ficou que só caninana choca: furioso, indomável
Cobra que errou o bote: fracassou no ataque.
Deus foi sábio quando não deu asas á cobra: quando limitou a ação
dos maus
Cobra que perdeu a peçonha: redução no poder de fazer mal
Conservado que só cobra de farmácia: pessoa ou coisa de aparência
nova, em desacordo com a idade
Comer ou engolir cobra: ficar agressivo
Piolho de cobra: chato, teimoso, implicante
Ver cobra: espantar-se
Mata-cobra: cacete
Ovo de cobra não gora: o que é ruim continua
Gritar logo por São Bento antes que a cobra morda: gritar em tempo
Valente que só cobra de resguardo: com a fúria de réptil choco
Me enrolei na cobra de cipó: tive medo sem motivo
Pisei em chacoalho de cobra: fiquei surdo
Veneno de cobra: intrigante, caluniador
Mordido de cobra: danado da vida
Venenoso(a) como uma cobra: intrigante
Estou cobra com aquele cabra: estou zangado, em fúria
Magro(a) que só cobra de cipó: magricela
Sacode-se mais do que cobra em areia quente: aplica-se à mulher que se
remexe muito quando anda |
|