
AGUARDENTE; ESPUMA QUE SE RETIRA DO SUCO DA CANA DURANTE A FERVURA NA
CALDEIRA; MANIA OU OBSESSÃO
Cachaça da cabeça: a
primeira a sair do alambique;
Cachaça de rabo: a última a sair do
alambique e imprópria para o consumo, por ser tóxica;
Cachaça do coração: a segunda a sair do
alambique e a mais comercializada;
Cachação: pescoção, pancada na parte
posterior do pescoço;
Cachaceira: bebedeira; lugar onde se junta a
cachaça tirada das caldeiras do açúcar; correia que passa por detrás das orelhas da
cavalgadura.
Cachaceiro: aquele que se embraiaga com
cachaça; arrogante, soberbo; Hortia excelsa, árvore rara, de belo aspecto, cujas
folhas alcançam um metro de comprimento, a casca exala um odor de cachaça no momento que
é retirada.
Cana-caiana
A cana-caiana, é a única Saccharum officinarum a denominar a
aguardente, ingressando na rica sinonímia da cachaça.
Batizou um livro de poemas de Ascenso Ferreira (Cana-caiana. Recife, 1939), onde
reaparece um ditirambo popular:
Suco de cana-caiana
Passado nos alambique
Pode sê qui prejudique
Mas bebo toda sumana
As primeiras mudas vieram de Cayenne, capital da Guiana Francesa, então domínio
de Portugal, chegando ao Rio de Janeiro, em maio ou junho de 1810, deduzindo-se do
registro do padre Perereca (Luís Gonçalves dos Santos. Memórias para servir à
história do reino do Brasil. I, 332, Rio de Janeiro, 1943):
"Sim, também desta colônia francesa, presentemente sujeita ao domínio do
príncipe regente nosso senhor, foi remetida para esta corte, pelo brigadeiro Manuel
Marques, governador da mesma colônia, uma preciosa coleção de plantas especieiras, e
frutíferas, extraídas do célebre jardim chamado Gabriela, onde os franceses as
cultivavam com todo o desvelo e ciúme. Muitas dessas plantas ficaram no Pará, outras em
Pernambuco, e grande número delas chegaram a este porto do Rio de Janeiro, carregadas a
bordo do brigue Vulcano, do comando do capitão-tenente Joaquim Epifânio de
Vasconcelos, e logo foram remetidas para o jardim real da lagoa de Freitas, para ali se
cultivarem. Juntamente com esta remessa de plantas vieram canas sacarinas da mesma Caiena,
as quais pela sua enorme grandeza e grossura, se fazem apreciáveis, prometem grandes
vantagens à cultura, e fabrico do açúcar, e muito maiores ainda para a destilação das
águas-ardentes, visto serem as ditas canas muito suculentas".
Em 1768 o navegador Bougainville encontrara-as na ilha de Taiti, vindas da Índia ou mais
provavelmente da Polinésia, origem do povoamento insular. [1]
Trouxera sementes para as ilhas Maurícia (de France), e Bourbon (Reunion),
de onde as recebeu a possessão francesa vizinha ao Brasil, dizendo-as Canan de Bourbon.
Divulgaram-se em Cayenne, sede de maior concentração canavieira, inicialmente utilizada
na fabricação das tafiás, determinando alto número de Rhuberies,
antes que produzissem o açúcar, segundo a informação de Augusto de Saint-Hilaire. O
açúcar nunca atingiu nível suficiente ao consumo local ainda em 1960.
A tafiá é aguardente do mel.
Em 1810, é a data histórica, vencendo os cinco mil quilômetros de distância, a
cana-caiana veio reinar no Brasil. Cito "data histórica" porque há a
tradição de dom Francisco de Souza Coutinho, entre 1790-1793, havê-la introduzido no
Pará, tendo-a bem, pouco provável, da Guiana Francesa, alcançando Pernambuco e mesmo a
Bahia.
Os naturalistas viajantes no quinqüênio 1815-1820 deparam a cana-caiana nos engenhos
fluminenses (Wied-Neuwied) aos pernambucanos, (Henry Koster). Escreveu este:
"Sua superioridade é tão evidente que, depois de rápido ensaio em cada
propriedade, substituiu a pequena cana-de-açúcar, geralmente plantada" (Viagem
ao nordeste do Brasil. XVI)
Wied-Nieuwied equivoca-se: "Cultivavam a princípio a cana da Caiena; tornando-se,
porém, conhecida a do Taiti e revelando-se esta muito mais produtiva, substituiu quase
completamente aquela". (Viagem ao Brasil. III). Era a mesma. Competira e
vencera a velha cana criola inicial, vinda da ilha da Madeira que a recebera da
Sicília, plantada pelos mouros, e fundara a indústria açucareira no Brasil. A
cana-caiana resistia mais à falta de chuvas, adaptando-se aos terrenos secos, embora o
teor sacarino fosse acentuado na maturação.
O professor Renato Braga (Plantas do nordeste, 118) esclarece:
"Tanto a caiana, como outras variedades posteriormente introduzidas: preta,
roxa, bambu, ou salangor, cavangire, imperial, de Pernambuco, amarela, fita ou
listrada, rajada, rósea, etc. foram quase totalmente substituídas, a partir de 1930,
pelas variedades javanesas e outras canas híbridas, além de mais produtivas, resistentes
ou tolerantes ao mosaico".
Essas variedades soavam no ritmo aceso das emboladas pelos cambiteiros
dos engenhos nordestinos:
Cana-caiana, cana roxa, cana fita
Cada qual a mais bonita
Todas boa de chupá!
A cana preta, amarela, pernambuco
Quero vê descê o suco
Na pancada do ganzá!
***
Atenda-se que o brasileiro é devoto da cachaça mas não
é cachaceiro. Augusto de Saint-Hilaire, de junho de 1816 a agosto de 1822,
percorrendo o Brasil do sul, fixado em livros incomparáveis, informava em 1819 que Cachaça
é a aguardente do país. Apesar do registro vulgarizador, o grande botânico não
hesitou em afirmar: "Não se deva supor, todavia, que o gosto desses homens pela
cachaça os conduza freqüentemente à embriaguez. Apresso-me a dizer, em louvor não só
dos goianos, como ainda dos habitantes do Brasil em geral, que não me lembro de ter
visto, no decurso das minhas longas viagens, um único homem embriagado" (Viagem
às nascentes do rio São Francisco e pela província de Goiás, 2º, São Paulo,
1937).
Mais vivo é o depoimento de George Gardner, de julho de 1836 a junho de 1841 no Brasil,
colecionando plantas para os museus da Inglaterra. Médico, Gardner ficou dois anos no Rio
de Janeiro, passando à Bahia, Recife, Ceará, alcançando o Piauí, Goiás, Minas Gerais,
visitando regiões inexploradas, motivando o inimitável Travels in the interior of
Brazil, Londres, 1846. Declara:
"Vindo do Brasil desembarquei num domingo de manhã em Liverpool, e vi nesse dia
mais ébrios, no meio das ruas dessa cidade, do que vi, entre os brasileiros, brancos ou
mestiços, durante toda a minha estada em seu país, que foi de cinco anos".
1. Samuel Wallis, o descobridor do Taiti,
encontrara em 1766, cana-de-açúcar, coqueiros, bananeiras, inhame, fruta-pão, na ilha.
Commerson, o naturalista da expedição Bougainville, dois anos depois, afirmara serem
produtos da flora da Índia. Todas essas plantas estavam disseminadas por quase todas as
ilhas dos mares do sul, de uso tradicional e antiqüíssimo por toda Polinésia, povoadora
do Taiti. Exceto o fruta-pão (Artocarpus incisa, Linneu, vindo em 1810), as demais
estavam aclimatadas no Brasil desde a segunda metado do século XVI.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Prelúdio
da cachaça)

Eu tinha lá em casa dez garrafas de cachaça, da boa.
Mas minha mulher obrigou-me a jogá-las fora. Peguei a primeira garrafa, bebi um copo e
joguei o resto na pia. Peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei o resto na pia.
Peguei a terceira garrafa bebi o resto e joguei o copo na pia. Peguei a quarta garrafa,
bebi na pia e joguei o resto no copo. Pequei o quinto copo joguei a rolha na pia e bebi a
garrafa. Peguei a sexta pia, bebi a garrafa e joguei o copo no resto. A sétima garrafa eu
peguei no resto e bebi a pia. Peguei no copo, bebi no resto e joguei a pia na oitava
garrafa. Joguei a nona pia no copo, peguei na garrafa e bebi o resto no décimo copo, eu
peguei a garrafa no resto e me joguei na pia.
Um cara chegou no trabalho todo de porre e
trançando as pernas, o chefe dele chegou e falou pra ele: - Que estória é esta que te
aconteceu pra você estar neste estado? - E o bêbado respondia: - A culpa é' do
doutor... Foi o doutor que fez isso... - Mas como assim? o médico? - Eu fui no doutor, e
ele me examinou, e disse pra mim comprar uns negócios... Escreveu num papel... Eu não
entendi muita coisa... era uma letra ruim... Mas li lá embaixo... dos garranchos... E
pinga três vezes ao dia...
O dono do bar já estava de saco cheio com
o bêbado, que todo dia vinha ali encher a cara. Numa daquelas, quando o bêbado pediu
"Bota mais uma", ele despejou ácido no copo. O bêbado tomou, fez uma careta,
disse "esta é forte, hein?" e saiu, cambaleando. Passaram-se vários dias e o
bêbado não apareceu mais. O dono do bar até ficou preocupado, pensando que tinha matado
o infeliz. Uma noite, o bêbado reaparece, já trocando as pernas, e pede uma pinga. O
dono do bar serve a cachaça, o bêbado toma, faz careta, e diz: - Esta não, eu quero é
aquela que quando a gente faz xixi, enche a calçada de buraquinho...
Dois bêbados estavam no bar há mais de três
horas enchendo a cara, até que um pergunta pro outro: -Onde é que você mora? -Eu moro
aqui na rua do lado... -Pô! Eu também... Mas nunca te vi por aqui... -Minha casa é a da
esquina... - A minha também é na esquina... -A minha é aquela amarela. Número treze.
-Pera lá! Mas essa é minha casa! -Não senhor! É muito minha! Então resolveram
solucionar este mistério e foram, os dois na direção da tal casa. -É aqui que eu moro!
-IMPOSSÍVEL! Quem mora aqui sou eu! -Se eu tô falando que moro aqui é porque moro! -De
jeito nenhum! Tá me chamando de mentiroso? -Tô sim, essa casa é minha! -Não, é minha!
-Minha! -É minha! E ficaram os dois naquele papo furado até que a porta se abriu e uma
senhora aparece, e diz: -BONITO, né?! Pai e filho bêbados discutindo no portao!
O tonto entrou no bar pela décima vez no dia e
pediu uma cachaça. O dono, português, já não aguentando mais, porém não podendo
perder a freguesia, pegou o primeiro copo que viu (sujo, certamente) e foi servir ao
bebum. Assim que começou a despejar a caninha, percebeu que no copo tinha uma barata.
Não se importou e mandou ver (talvez o tonto desse sossego pra ele depois desta). O
sujeito pegou o copo e tomou a bebida de uma vez. Quando ainda estava descendo pela goela,
percebeu alguma coisa diferente na boca. Deu uma parada, uma mordida, sentiu o gostinho
meio amargo e engoliu tudo de vez. Depois que fez a cara feia, virou pro português e
gritou: - Bota outra aí!... E capricha na ameixa, viu?!
Um cara com uma camisa listradinha em preto
e branco estava no bar, de cara cheia de cana, quando aparece um crente que tenta lhe
converter: -Meu filho, pare de beber, seja uma testemunha de Jeová. E o bêbado com cara
de zangado: -Você já viu este cara? -Não.. -Você já falou com este cara? -Não..
-Você conhece este cara? -Não... -Então não venha me pedir pra ser testemunha dum cara
que nem você conhece!
O bêbado entrou na contramão e o guarda o deteve:
-Onde é que o senhor pensa que vai? -Bom... eu ia pruma festa, mas parece que ela já
acabou... Tá todo mundo voltando.
Um bêbado entrou num ônibus, sentou ao lado de
uma moça e disse: -Mas como você é feia, você é a coisa mais horrível que eu já vi!
A moça olha para ele e responde: -É você, seu bêbado nojento! E o bêbado
imediatamente responde: -É, mas amanhã eu estou curado!
O cara tava no maior porre dentro dum boteco no Rio
de Janeiro. E, na rua estava passando uma procissão. O Bêbado sai na porta do boteco e
grita: -OLHA A MANGUEIRA AÍ, GENTE! O pessoal caiu de porrada em cima do bêbado dizendo:
-Não respeita a santa? E a procissão continuou, chegou na curva da rua a santa esbarra
numa mangueira e cai. O bêbado sai de dentro do bar e diz cambaleando: -Eu não falei?
Um portuga tinha bebido a mais e voltando para
casa, capotou com o carro e ficou pendurado numa árvore, sobre um precipício de
mil metros. Logo após chega um mascarado todo vestido de preto, num cavalo preto, e usava
uma espada e salva o portuga. Logo pega a espada e faz um "Z" na barriga do
portuga e prergunta: - Sabes quem eu sou? O portuga pensa, olha o "Z" e
responde: - Pois claro! Zuperman...

Quem vive no campo é que pode avaliar o poder da cachaça entre os homens do povo.
Entre os que trabalham na enxada de sol a sol. Até parece que essa gente nela encontra
força de esquecimento tão necessário às agruras de um viver nada fácil. É fonte de
alegria falsa, a cachaça como, aliás, o álcool em suas múltlipas formas de bebedeira.
Nada realmente mais importante para o trabalhador de cana, que apreciar bom gole depois do
longo dia de pesadas e monótonas tarefas. Aquilo que desce como bálsamo confortador e
compensador de muitas desditas. Poderá faltar dinheiro
para tudo, menos para adquirir a "pancada oitavada". Poderá faltar luz e comida
em casa, porém o desejo fica morto ante a preponderância da vontade forte, tão forte
que supera todas as obrigações sociais. É raro encontrar-se na zona rural,
principalmente entre os cassacos de engenho e usina, alguém que não tome o seu
"remédio" a horas certas, assim ao quebrar da noite que vem ou, então, ao
levantar do dia que chega cheio de esperanças ou indecisões.
O destilador, talvez pelo fato de ser o fabricante de cachaça e andar a toda hora
sentindo o cheiro vivo do álcool, pegado no serviço lento e paciente, carecendo a todo
instante de assistência continuada, talvez seja um dos poucos indivíduos que não beba
como vício e mesmo como obrigação do ofício. Quando muito pode provar. Conheço o
mestre Benício, que não se lembra de haver se embriagado alguma vez na vida. Faz somente
é provar para dar o ponto certo, ver se o corte está direito, se a água não está se
infiltrando demais, se o álcool está sendo equitativamente compensado num equilíbrio
que tanto recomenda a qualidade e o gosto do produto. A vigilância se torna
indispensável. Mas o aparelho, por seu turno, também ajuda.
No engenho que tem destilação, quando o alambique é de qualidade (uns dizem que de
barro é melhor, porque a cachaça dele sai mais gostosa, outros acham que, se for de
cobre, produz por maneira muito superior) fica logo conhecido o líquido que
"passarinho não bebe", procurado de longe, vem gente do fim do mundo para
adquirir algumas doses e a vendagem conseguintemente é de alarmar, não chegando
para quem quer e sim para os merecedores da simpatia do senhor privilegiado.
Acham os entendidos que a cachaça tem "alma". Seria melhor dizer: tem
espírito. Faz com que "alimente" e traga a confiança no êxito. Que alimenta,
parece que não resta dúvida alguma, pois os homens do canavial mal comem, alimentam-se
muito pouco e, no entanto, não dispensam a cachaça como ajuda extrordinária. Não se
embriagam, mas tomam vastos goles vespertinos e matutinos, já como hábito. Acontece que
existem as exceções: então é o que se vê os viciados que não encontram
serviço facilmente, vivendo do favor dos amigos, não conhecendo nada da agricultura e
sim como verdadeiros judeus-errantes. Acontece ainda que, nos dias de festa, o que se
surpreende é a libertação geral por via da cachaça. Os mais retraídos saem do estilo
para tomar parte da dança geral. Todos bebem. A bebedeira é a razão dos folguedos. E é
quando se desenrolam os acontecimentos mais curiosos: moradores de respeito subitamente se
transformaram em arruaceiros quando não tiveram ensejo de tomar parte em crimes de
sangue.
Há engenhos e usinas onde a cachaça é proibida por maneira intransigente, ao ponto do recalcritante ser posto para fora
sem maiores delongas. É mandado sumariamente embora. Dane-se. Vá para o inferno.
Manoel Pichilinga é doente. No trabalho, falam ser completo no cumprimento dos deveres
que lhe são conferidos, na qualidade de cassaco da mais
ínfima categoria. Percebe dois cruzeiros diários. Na hora da refeição come farinha com
o pedaço de qualquer coisa como se fora carne ou bacalhau (que bacalhau, é um peixe que
vem do sertão, criado nos açudes, muito seco e salgado de doer a língua, não tendo
mesmo gosto algum) e continua depois do serviço até à noitinha. Então ganha a estrada
da vila aonde vai dormir. Antes, porém, de fazê-lo toma bebedeira solene, fica de não
se sustentar em pé e, cai não cai, se dirige para seu miserável dormitório. Na
madrugada seguinte se levanta e pega no serviço com a disposição de quem teve noite
anterior deliciosa de repouso e alimentação.
E assim vive, desde anos, esse homenzinho franzino e moço, risonho e respeitador, dizendo
sempre isto nas histórias que conta:
- Conheço a alma da aguardente.
Berba, mais ou menos feliz com a sorte, achando tudo bom e
natural. Ou é doido ou é superior a todos onde vive.
- Mas como será essa alma, Pichilinga?
Certa ocasião ele confessou como costumava ver nos seus momentos de prazer intenso. De
primeiro ficava suspenso no ar (o álcool dá essa sensação) e neste instante entrava a
sentir a "fumaça que é uma cobra". Como definir isso? Então explicava: - A
fumaça saía da boca sem eu me sentir.
E depois: - Ela saía se enrolando toda e subindo, subindo e, a certa distância do chão,
descia devagar, mansinha e já tomando um jeito de bicho.
Então chega a parte final. Pichilinga entrava no mais importante da história. -
Formava-se uma cobra cinzenta (a fumaça tem esta cor) dançando na minha frente ao ponto
de despertar desejo da gente pegar nela (justificava-se a vontade sexual) porque parecia
esquisitamente com uma mulher se requebrando.
Aliás, os bêbedos, quando acordam, geralmente pensam ter visto ou sonhado com alguma
beldade, é o que quase todos dizem. Que a cachaça tem "alma", tem, assegura
Pichilinga e, como ele, muita gente boa, mesmo senhor de engenho ou dono de usina,
quando talvez sejam estes os menos capazes dessa afirmativa, pois não bebem e, quando
bebem, se destacam muito na sociedade onde vivem.
(VIDAL, Ademar. Lendas e superstições; contos
populares brasileiros) |


Santa Cana que se
extrai da roça, purificado seja o teu caldo. Aguardente sem mistura, venha a nós o vosso
líquido, a ser bebida à nossa vontade, assim no boteco como em qualquer lugar. Cinco
litros por dia nos dai hoje, perdoai o dia em que bebemos de menos assim como perdoamos o
mal que a "marvada" faz. Não nos deixeis cair atordoados e livrai-nos da
rádio-patrulha. Amém. Hic!
Ali não mordia a
graça
Eram iguais os juízes
Não vinha nada da praça
Ali, da vossa cachaça!
Ali, das vossas perdizes!
(Escrita em meados do século XVI, esta é a mais antiga menção existente à cachaça. Carta
II, de Sá de Miranda) |

Abre, abrideira, aca, aço,
a-do-ó, água-benta, água-bruta, água-de-briga, água-de-cana,
água-que-gato-não-bebe, água-que-passarinho-não-bebe, aguardente, aguardente de cana,
aguarrás, águas-de-setembro, aninha, arrebenta-peito, azougue, azuladinha, azulzinha,
bagaceira, baronesa, bicha, bico, birita, boa, borbulhante, boresca, branca, branquinha,
brasa, brasileira, caiana, calibrina, cambraia, cana, cândida, canguara, canha, caninha,
canjebrina, canica, capote-de-pobre, catuta, caxaramba, caxiri, caxirim, cobreira,
corta-bainha, catréia, cumbe, cumulaia, danada, delas-frias, dengosa, desmancha-samba,
dindinha, dona-branca, elixir, engasga-gato, espírito, esquenta-por-dentro,
filha-de-senhor-de-engenho, fruta, gás, girgolina, gororoba, gramática, guampa,
homeopatia, imaculada, já-começa, januária, jeribita, jinjibirra, junça, jura,
jurubita, legume, limpa, lindinha, lisa, maçangana, malunga, malvada, mamãe-de-aluana,
mamãe-de-aruana, mamãe-de-luana, mamãe-de-luanda, mandureba, marafo, maria-branca,
mata-bicho, meu-consolo, minduba, miscorete, moça-branca, monjopina, montuava, morrão,
morretiana, mundureba, óleo, orontanje, panete, parati, patrícia, perigosa, pevide,
pilóia, pinga, piribita, porongo, prego, pura, purinha, quebra-goela, quebra-munheca,
rama, remédio, restilo, retrós, roxo-forte, samba, sete-virtudes, sinhaninha,
sinhazinha, sipia, sumo-da-cana, suor-de-alambique, supupara, tafiá, teimosa,
terebintina, tiquira, tiúba, tome-juízo, três-martelos, uca, xinapre, zuninga.


Aguardente é Giritiba
Nunca vi coisa tão boa
Se até os padres gostam dela
Que dirá quem num tem coroa.
Aguardente é Giritiba
Feita de pau de cupacho
Bate comigo no chão
Bato com ela no bucho.
Aguardente é Giritiba
Feita de cana crioula
Quem bem beber em demasia
Quebra o botão da ceroula.

Galileu, quando
afirmou que o mundo apenas girava, confirmou o que os bêbados já sabiam |

(Laureano)
Com a marvada pinga
É que eu me atrapaio
Eu entro na venda
E já dou meu taio
Pego no copo
E dali num saio
Ali mesmo eu bebo
Ali mesmo eu caio
Só prá carregá
É que dou trabaio, ôi lá!
Venho da cidade cantando
Trago um garrafão
Que venho chupando
Venho pros caminhos
Venho tropicando
Chifrando os barranco
Venho cambetiando
E no lugar onde eu caio
Já fico roncando, ôi, lá!
O marido me disse:
Ele me falô
Largue de bebê
Peço por favô prosa de hôme
Nunca dê valô
Bebo com o sol quente
Prá esfriar o calô
E bêbo de noite
É pra fazê suadô, oi lá!
Cada vez que eu caio
Caio deferente
Meaço prá trás
E caio prá frente
Caio devagá
Caio de repente
Vou de corropio
Vou diretamente
Mas sendo de pinga
Eu caio contente, ôi lá!
Pego o garrafão
E já balanceio
Que é prá mode vê
Se está mesmo cheio
Num bebo de vez
Porque acho feio
No primeiro gorpe
Chego inté no meio
No segundo trago
É que disvaseio, oi lá!
Eu bebo da pinga
Por gosto dela
Eu bebo da pinga branca
Bebo da amarela
Bebo nos copos
Bebo na tigela
Bebo temperada
Com cravo e canela
Seja quarquer tempo
Vai pinga na goela! Ôi lá!
(é marvada pinga)
Eu fui numa festa no rio Tietê
Eu lá fui chegando no amanhecê
Já me déro pinga prá mim bebê
Já me déro pinga prá mim bebê
Tava sem fervê!
Eu bebi demais
E fiquei mamada
Eu cai no chão
E fiquei deitada
Ai, eu fui prá casa
De braço dado
Ai! De braço dado
E com dois sordado!
Ai, muito obrigado!
Quem não bebe não
vê o mundo girar. |
Você pensa que cachaça é
água?
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão
Pode me faltar tudo na vida
Arroz, feijão e pão
Pode me faltar manteiga
E tudo o mais
Não faz falta, não
Pode me faltar amor
Disso eu até acho graça
Só não quero é que me falte
A danada da cachaça
(Cachaça. Mirabeau, L. Castro, H. Lobato, Marinosio Filho)

OS
DEZ MANDAMENTOS
Primeiro: Bebê
Segundo: Pagá
Terceiro: Cuspi
Quarto: Saí
Quinto: Voltá
Sexto: Repiti
Sétimo: Caí
Oitavo: Drumi
Nono: Levantá
Décimo: Curá ressaca
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Veja também:
- A presença da
cachaça em Minas Gerais
- O baile da aguardente
- Do modo de
alimpar e purificar o caldo de cana...
- Ritual dos
bebedores
- Receitas com
cachaça
A cachaça na web:
- Cachaça.web
- Cachaça & Cia.
- Casa da Cachaça
(utiliza Shockwave)
- Museu da Cachaça

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