|
|
| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
SUPERSTIÇÕES DOS GARIMPEIROS |
Marina de Andrade Marconi |
As superstições nasceram com o homem e estão presentes em muitos de seus atos; o temor
pelo desconhecido, aliado à insegurança da vida geram as crenças supersticiosas.
Supersticiosos, como em geral são todos aqueles que contam com a sorte, os garimpeiros
levam muito em conta suas "cismas", principalmente em relação aos sonhos.
O que é bom, fonte de vida ou símbolo de esperança, são indícios favoráveis às
atividades garimpeiras; por exemplo, sonhar com água clara, com criança de colo nos
braços da mãe, com boi.
O garimpeiro quase sempre espera encontrar no sonho palpites para o garimpo; se o boi
aparecer bem perto da pessoa, tranqüilo, quer dizer que o diamante está próximo de ser
encontrado; todavia, se ele for bravo e investir contra alguém, é mau sinal; não
adianta insistir ou tentar, pois sofrerá fatalmente alguma conseqüência.
Quando o sonho é assustador, implicando acidentes, ataques ou coisas desconhecidas, não
é bom; assim "não presta" sonhar que caiu do cavalo ou que o barranco
desmoronou, mais muito pior é ver onça atacando alguém; prenúncio certo de algum
desastre naquele dia.
É bom sinal se o sonho simbolizar um desafio: remar contra a correnteza, encontrar-se em
extrema penúria ou em qualquer situação de desconforto; mas se em sonho a própria
pessoa aparecer muito bem de vida, rica, ou tiver encontrado diamante, o sinal indica que
a sorte não vai ajudá-lo naquele dia, nem precisa tentar.
Sonhar com negro é bom agouro, mas o mesmo não se aplica ao padre.
Alguns garimpeiros acreditam tanto no sonho, que dependendo dele, chegam a abandonar o
cascalho, pronto para a lavação, indo abrir outra cata, perdendo assim todo o serviço
de vários dias. O receio de que algo grave lhe aconteça, leva-o a agir dessa maneira.
Com medo do "olho gordo" ou inveja, do mau-olhado, o garimpeiro não deixa que
mexam no cascalho antes de ser lavado, na certeza de que a pedra que ali estiver
desaparecerá. Para ele, diamante cobiçado "queima", isto é, volta para o
leito do rio; por isso, logo que encontra uma pedra, coloca-a na boca e pronuncia uma
série de palavrões para "batizá-la"; depois de tirá-la da boca, ainda cospe
nela, para maior segurança. Só depois desse procedimento poderá mostrá-la aos
companheiros sem correr o risco de perdê-la. Coloca-a então no picuá, peça
cilíndrica, oca, de uns 10 centímetros, arrolhada, feita de chifre, osso de lobo, bambu
ou cipó imbé, para guardar o diamante.
Garimpeiro não gosta de contar que está pegando diamante, nem de mostrá-lo a estranhos,
não ligados ao garimpo, pois, segundo ele, não é bom. Diz ainda que a primeira vez que
se mostra a pedra a alguém, deve ser vendida, pois dificilmente alcançará seu real
valor se duas pessoas a virem. Novamente aqui se evidencia o medo do "olho
gordo".
Para o garimpeiro, o comércio do diamante é "esquisito", tendo os capangueiros
o costume de "queimar o diamante": fazem uma oferta, o garimpeiro não aceita
por considerá-la desvantajosa, procura então outro capangueiro; não alcançando preço
igual ou melhor, volta ao primeiro comprador, que não sustenta mais a oferta, ao
contrário, faz outra mais baixa. Talvez desse procedimento dos capangueiros tenha se
originado a crença da "queima do diamante". O garimpeiro, para não ser muito
explorado, deve conhecer melhor o valor aproximado do diamante.
Às vezes, o cascalho vem acompanhado de areia aurífera, mas o garimpeiro não aproveita
esse ouro, de medo, não de tirar-lhe a sorte, mas de acontecer-lhe algo pior; "não
presta aproveitá essa areia, tem de jogá fora", senão terá azar para o resto da
vida.
Outra coisa que não se deve fazer no garimpo é comer alimentos temperado com sal, perto
do cascalho, porque caindo migalhas sobre ele, o sal faz o diamante desaparecer. O sal,
tradicionalmente, tem uma função maléfica: antigamente era espalhado pelo terreno onde
se cometera um crime ou profanação, para torná-lo maldito ou estéril. Até hoje
sobrevive entre o povo esse aspecto negativo.
Por outro lado, há garimpeiros que acreditam no poder benéfico do sal, por isso,
pulverizam o cascalho, como um meio infalível de encontrar diamante.
O uso do sal e o "batizado"da pedra talvez sejam transferências de elementos
religiosos de vez que os dois estão unidos na cerimônia do batismo.
Outra coisa que garimpeiro não faz, se estiver na balsa, é tirar o sapato e deixá-lo de
boca para cima, porque a posição de borco é que "chama" o diamante.
A cobra desperta dualidade de interpretação na mentalidade popular; ora se apresenta
como elemento promissor, ora como animal vil e traiçoeiro. No garimpo, dá sorte se
apenas aparecer e azar se passar sobre o cascalho.
Para o garimpeiro, garimpo é jogo, portanto "maldiçoado", sendo coisa do
diabo; por isso não se deve e não presta rezar para encontrar diamante: "Deus não
é assunto de garimpo, nunca deve ser invocado o seu auxílio pras coisas do
diamante". Percebe-se novamente aqui a união de elementos religiosos com a
superstição: a cobiça, o jogo, a ganância, são sentimentos condenados pela religião.
Outro aspecto supersticioso, comum também aos moradores da zona rural, é o tabu dos
nomes, garimpeiro nunca diz a palavra diabo com medo de atraí-lo, falam em
"chifrudo", "coisa ruim", "cão", "capeta", e
outras designações.
Há horas a que o povo dá maior importância: 6 da manhã e da tarde (das Ave-Marias),
meio-dia e meia-noite. O garimpeiro em geral, não trabalha depois das 18 horas:
"depois que o sol se põe o diamante desaparece". Acredita-se que raramente o
feitiço opere durante o dia, quando o sol ainda está de fora, porque este é o inimigo
das forças do mal; na força do sol a pino os anjos estão cantando e as pragas
dificilmente atingem as pessoas; a meia-noite é a mais perigosa.
De um modo geral, o homem do campo não pratica a religião no sentido rigoroso do
cumprimento de obrigações e preceitos, devido à sua ignorância quanto à doutrina; os
raros contatos com a igreja e seus ministros, sua condição de analfabetos ou
semi-alfabetizados impedem o conhecimento maior. É temente a Deus por tradição ou
hábito, misturando seus parcos conhecimentos religiosos com crendices e superstições
nos quais acredita piamente.
A análise do comportamento do garimpeiro, sob o aspecto religioso, revela que ele se
assemelha à maioria da população brasileira: um misto de catolicismo e outras práticas
e crenças, sendo bastante supersticioso.
(Marconi, Marina de Andrade. Garimpos e garimpeiros. São Paul, Conselho
Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978, p.111-114) |
|