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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Superstições dos garimpeiros, por Marina de Andrade Marconi.

setaquad.gif (95 bytes)Baba e babado, por Osvaldo Orico.

setaquad.gif (95 bytes) Das árvores de virtude: o bálsamo e a copaíba, por Gabriel Soares de Sousa.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


SUPERSTIÇÕES DOS GARIMPEIROS

Marina de Andrade Marconi


As superstições nasceram com o homem e estão presentes em muitos de seus atos; o temor pelo desconhecido, aliado à insegurança da vida geram as crenças supersticiosas.

Supersticiosos, como em geral são todos aqueles que contam com a sorte, os garimpeiros levam muito em conta suas "cismas", principalmente em relação aos sonhos.

O que é bom, fonte de vida ou símbolo de esperança, são indícios favoráveis às atividades garimpeiras; por exemplo, sonhar com água clara, com criança de colo nos braços da mãe, com boi.

O garimpeiro quase sempre espera encontrar no sonho palpites para o garimpo; se o boi aparecer bem perto da pessoa, tranqüilo, quer dizer que o diamante está próximo de ser encontrado; todavia, se ele for bravo e investir contra alguém, é mau sinal; não adianta insistir ou tentar, pois sofrerá fatalmente alguma conseqüência.

Quando o sonho é assustador, implicando acidentes, ataques ou coisas desconhecidas, não é bom; assim "não presta" sonhar que caiu do cavalo ou que o barranco desmoronou, mais muito pior é ver onça atacando alguém; prenúncio certo de algum desastre naquele dia.

É bom sinal se o sonho simbolizar um desafio: remar contra a correnteza, encontrar-se em extrema penúria ou em qualquer situação de desconforto; mas se em sonho a própria pessoa aparecer muito bem de vida, rica, ou tiver encontrado diamante, o sinal indica que a sorte não vai ajudá-lo naquele dia, nem precisa tentar.

Sonhar com negro é bom agouro, mas o mesmo não se aplica ao padre.

Alguns garimpeiros acreditam tanto no sonho, que dependendo dele, chegam a abandonar o cascalho, pronto para a lavação, indo abrir outra cata, perdendo assim todo o serviço de vários dias. O receio de que algo grave lhe aconteça, leva-o a agir dessa maneira.

Com medo do "olho gordo" ou inveja, do mau-olhado, o garimpeiro não deixa que mexam no cascalho antes de ser lavado, na certeza de que a pedra que ali estiver desaparecerá. Para ele, diamante cobiçado "queima", isto é, volta para o leito do rio; por isso, logo que encontra uma pedra, coloca-a na boca e pronuncia uma série de palavrões para "batizá-la"; depois de tirá-la da boca, ainda cospe nela, para maior segurança. Só depois desse procedimento poderá mostrá-la aos companheiros sem correr o risco de perdê-la. Coloca-a então no picuá, peça cilíndrica, oca, de uns 10 centímetros, arrolhada, feita de chifre, osso de lobo, bambu ou cipó imbé, para guardar o diamante.

Garimpeiro não gosta de contar que está pegando diamante, nem de mostrá-lo a estranhos, não ligados ao garimpo, pois, segundo ele, não é bom. Diz ainda que a primeira vez que se mostra a pedra a alguém, deve ser vendida, pois dificilmente alcançará seu real valor se duas pessoas a virem. Novamente aqui se evidencia o medo do "olho gordo".

Para o garimpeiro, o comércio do diamante é "esquisito", tendo os capangueiros o costume de "queimar o diamante": fazem uma oferta, o garimpeiro não aceita por considerá-la desvantajosa, procura então outro capangueiro; não alcançando preço igual ou melhor, volta ao primeiro comprador, que não sustenta mais a oferta, ao contrário, faz outra mais baixa. Talvez desse procedimento dos capangueiros tenha se originado a crença da "queima do diamante". O garimpeiro, para não ser muito explorado, deve conhecer melhor o valor aproximado do diamante.

Às vezes, o cascalho vem acompanhado de areia aurífera, mas o garimpeiro não aproveita esse ouro, de medo, não de tirar-lhe a sorte, mas de acontecer-lhe algo pior; "não presta aproveitá essa areia, tem de jogá fora", senão terá azar para o resto da vida.

Outra coisa que não se deve fazer no garimpo é comer alimentos temperado com sal, perto do cascalho, porque caindo migalhas sobre ele, o sal faz o diamante desaparecer. O sal, tradicionalmente, tem uma função maléfica: antigamente era espalhado pelo terreno onde se cometera um crime ou profanação, para torná-lo maldito ou estéril. Até hoje sobrevive entre o povo esse aspecto negativo.

Por outro lado, há garimpeiros que acreditam no poder benéfico do sal, por isso, pulverizam o cascalho, como um meio infalível de encontrar diamante.

O uso do sal e o "batizado"da pedra talvez sejam transferências de elementos religiosos de vez que os dois estão unidos na cerimônia do batismo.

Outra coisa que garimpeiro não faz, se estiver na balsa, é tirar o sapato e deixá-lo de boca para cima, porque a posição de borco é que "chama" o diamante.

A cobra desperta dualidade de interpretação na mentalidade popular; ora se apresenta como elemento promissor, ora como animal vil e traiçoeiro. No garimpo, dá sorte se apenas aparecer e azar se passar sobre o cascalho.

Para o garimpeiro, garimpo é jogo, portanto "maldiçoado", sendo coisa do diabo; por isso não se deve e não presta rezar para encontrar diamante: "Deus não é assunto de garimpo, nunca deve ser invocado o seu auxílio pras coisas do diamante". Percebe-se novamente aqui a união de elementos religiosos com a superstição: a cobiça, o jogo, a ganância, são sentimentos condenados pela religião.

Outro aspecto supersticioso, comum também aos moradores da zona rural, é o tabu dos nomes, garimpeiro nunca diz a palavra diabo com medo de atraí-lo, falam em "chifrudo", "coisa ruim", "cão", "capeta", e outras designações.

Há horas a que o povo dá maior importância: 6 da manhã e da tarde (das Ave-Marias), meio-dia e meia-noite. O garimpeiro em geral, não trabalha depois das 18 horas: "depois que o sol se põe o diamante desaparece". Acredita-se que raramente o feitiço opere durante o dia, quando o sol ainda está de fora, porque este é o inimigo das forças do mal; na força do sol a pino os anjos estão cantando e as pragas dificilmente atingem as pessoas; a meia-noite é a mais perigosa.

De um modo geral, o homem do campo não pratica a religião no sentido rigoroso do cumprimento de obrigações e preceitos, devido à sua ignorância quanto à doutrina; os raros contatos com a igreja e seus ministros, sua condição de analfabetos ou semi-alfabetizados impedem o conhecimento maior. É temente a Deus por tradição ou hábito, misturando seus parcos conhecimentos religiosos com crendices e superstições nos quais acredita piamente.

A análise do comportamento do garimpeiro, sob o aspecto religioso, revela que ele se assemelha à maioria da população brasileira: um misto de catolicismo e outras práticas e crenças, sendo bastante supersticioso.



(Marconi, Marina de Andrade. Garimpos e garimpeiros. São Paul, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1978, p.111-114)

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