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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)O cafuné, por Wilson Lins.

setaquad.gif (95 bytes)O marido das viúvas, costumes do índio amazônico, por Raimundo Morais.

setaquad.gif (95 bytes)As nossas filhas, por Joaquim José da França Júnior.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


AS NOSSAS FILHAS

Joaquim José da França Júnior


O leitor que me conhecer particularmente, há de, sem dúvida, achar singular o plural deste título.

— Como, — dirá ele com os seus botões, — um homem, sobre sua cabeça nunca choveram as bêçãos de Jacó, uma criatura sem préstimo que não conhece as santas alegrias da paternidade, tem a pretensão de encher as bochechas e dizer, assim com ares de quem entende do riscado: — As nossas filhas!

Não me humilhes, leitor benévolo.

Eu sou o primeiro a reconhecer a minha incompetência.

No meu lar não há essas formosas criaturinhas de faces rosadas, que te despertam logo pela manhã, a choramingar e a pedir pão. O meu lar é deserto, tranqüilo, calmo e monótono; nele nunca se verá uma cadeira fora do seu lugar; os bonecos de porcelana que ornam-me a sala de visitas estão ainda virgens de fraturas; não tenho trastes inválidos, e os passarinhos, que saltitam por entre as begônias e canteiros de violetas de meu modesto jardim, cantam felizes e satisfeitos, porque sabem que das minhas janelas ninguém lhes atirará pedradas.

No meu lar não se ouvem: menino, fica quieto; cala a boca, pestinha; passa para dentro, menino; olha que se eu te pego... e outras exclamações que são a vida de tua casa. Quando eu saio, dizem os vizinhos:

— Isto é que é criatura feliz!

— É verdade.

— Naquela casa parece que não há viva alma!

— Ora, é ele só e a mulher.

— Que bom!

— Por isso é que andam os dois sozinhos por toda a parte.

— Não há nada como não ter filhos.

—Ora! Olhe, se eu não tivesse dois, ninguém podia com a minha vida. Havia de fazer o mesmo que eles fazem.

— Se a gente pudesse ter só um...

— Mas, atrás de um vem outro...

Quando entro, encontro tudo em seus respectivos lugares; sempre o mesmo silêncio, a mesma calma, a mesma monotonia! Não me é dado, é verdade, receber em cheio, na face, os beijos estalados por uma boquinha vermelha e besuntada; sentir em seguida na perna frisagens estranhas e exclamar, cobrindo de ósculos a cabecinha adorada:

— Ó ladrãozinho, pois você foi fazer isto em papai?! Não me será dado ainda ter um sucessor de meu nome. Não me será... Não me serão dados, enfim, todos os inefáveis prazeres da paternidade, mas também nunca passarei pelo transe, sem nome na linguagem humana, que deve sofrer aquele que se vê entre um berço vazio e um esquife ocupado.

Deixa passar, pois, o título — As nossas filhas.

É uma simples metáfora.

* * *

Quando escrevi acerca dos — nossos filhos, — disse alguma coisa a respeito da maneira por que eles são educados física e moralmente.

Os inconvenientes da nossa educação tornam-se ainda mais sensíveis em relação ao sexo, por cujo porvir o sr. Bethencour da Silva tanto trabalha.

Dos sete aos doze anos, justamente na época em que a criança precisa de ar, de luz, como as flores, e de liberdade, como o passarinho, vemos as nossas meninas encerradas e tolhidas nos mais pequenos movimentos.

Se, por acaso, correm, dizem-lhes logo:

— Que modos!

— Isto não é bonito para uma moça.

— Parece um cavalão!

— Uma moça não faz isto!

Entre nós, pois, a primeira idéia que se incute no espírito de uma menina, é que ela já é uma moça.

A visita, ao vê-la, exclama:

— Gentes! Pois esta é sua filha. Eu já não a conhecia! Está uma moça!

A mãe sorri satisfeita com o qualificativo e diz:

— Qual! Não tem ainda bastante juízo; só o que quer é pular.

Os sujeitos que freqüentam as casas, onde há meninas, dizem-lhes constantemente:

— Que mocetona!

— Que olhos!

— Esta menina há de trazer tudo num cortado.

— Como é bem feita!

— E que cabelos bonitos que ela tem.

Os mais íntimos habituam-lhe os ouvidos com frases:

— Adeus, minha noiva.

— Venha cá, minha noiva!

— Você há de casar comigo.

E em vez de saltar, pular, correr ao lado dos felizes companheiros da sua idade, a menina, imbuída do que ouve contantemente ao redor de si, principia a tomar uns ares ridículos de moça.

Convencida de que é bonita, vai para o espelho, estuda sorrisos, e dedica-se exclusivamente à toillete.

Hoje, exige um vestido branco, com fitas escarlates; amanhã, aborrece-se das fitas escarlates e quer azuis.

Se a família pretende ir a um baile, o pimpolho grita logo:

— Eu também vou.

— Mas, minha filha...

— Vou sim, mamãe, vou. E hei de ir com o meu vestido novo.

— Vai ficar todo estragado.

— Mamãe depois faz outro.

E quero umas botnias bronzeadas, de salto bem alto.

— Não; é melhor ficar em casa com a Joana a ouvir histórias...

— Não é melhor, não senhora. Eu vou, eu vou.

E vai com toda a certeza.

E dança durante a noite inteira, como qualquer moça.

Aos dezoito anos, quandoo seu organismo deveria estar em pleno vigor, ei-la de faces desbotadas a inspirar madrigais aos poetas sentimentais.

A mãe diz às visitas:

— Não sei o que tem esta menina. Não come, é um fastio de morte e está emagrecendo a olhos vistos.

— Por que não toma óleo de fígado de bacalhau?

— Já tomou, não lhe tem feito nada.

— Ainda não experimentou o arsênico?

— Está tomando agora.

— Dê-lhe duchas. Minha mulher tem-se dado muito bem com elas; vai todas as manhãs à casa do Eiras.

— Já me lembrei de ir para Friburgo.

— Não é mau.

— Quem sabe se não será alguma paixão?

— Qual!

— Banhos de igreja! Banhos de igreja! É o único remédio infalível para moças.

* * *

Leitoras, um pequeno conselho.

Deixai que as vossas filhas pulem, pulem à vontade, na época em que o pular é uma necessidade para o organismo.

Sem exercício não há saúde, e sem saúde não há beleza possível.

Mandai vossas filhas para os jardins públicos. a fim de que elas possam desenvolver-se sob a ação benéfica do ar e da luz.

Vesti-as com a maior simplicidade, com roupas largas e cômodas. A criança não deve ter a preocupação de possuir cintura fina e pé pequeno.

Tratai, enfim, de dar músculos, carne, a essa nova geração que surge, a fim de que desapareçam para sempre desta terra o óleo de fígado de bacalhau, os vinhos ferruginosos, a peptona, o arsênico, etc.

Lembrai-vos que sobre vós pesa a grande responsabilidade de dar-nos mães de família e deputados, ministros, vereadores, magistrados, literatos, e tutti quanti hão de felicitar este país.



(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins. 4ª ed. Rio de Janeiro, Jacinto Ribeiro dos Santos Editor, 1926, p.237-241)

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