|
|
| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
| Joaquim José da França Júnior |
O leitor que me conhecer particularmente, há de, sem dúvida, achar singular o plural
deste título.
Como, dirá ele com os seus botões, um homem, sobre sua cabeça
nunca choveram as bêçãos de Jacó, uma criatura sem préstimo que não conhece as
santas alegrias da paternidade, tem a pretensão de encher as bochechas e dizer, assim com
ares de quem entende do riscado: As nossas filhas!
Não me humilhes, leitor benévolo.
Eu sou o primeiro a reconhecer a minha incompetência.
No meu lar não há essas formosas criaturinhas de faces rosadas, que te despertam logo
pela manhã, a choramingar e a pedir pão. O meu lar é deserto, tranqüilo, calmo e
monótono; nele nunca se verá uma cadeira fora do seu lugar; os bonecos de porcelana que
ornam-me a sala de visitas estão ainda virgens de fraturas; não tenho trastes
inválidos, e os passarinhos, que saltitam por entre as begônias e canteiros de violetas
de meu modesto jardim, cantam felizes e satisfeitos, porque sabem que das minhas janelas
ninguém lhes atirará pedradas.
No meu lar não se ouvem: menino, fica quieto; cala a boca, pestinha; passa para dentro,
menino; olha que se eu te pego... e outras exclamações que são a vida de tua casa.
Quando eu saio, dizem os vizinhos:
Isto é que é criatura feliz!
É verdade.
Naquela casa parece que não há viva alma!
Ora, é ele só e a mulher.
Que bom!
Por isso é que andam os dois sozinhos por toda a parte.
Não há nada como não ter filhos.
Ora! Olhe, se eu não tivesse dois, ninguém podia com a minha vida. Havia de fazer
o mesmo que eles fazem.
Se a gente pudesse ter só um...
Mas, atrás de um vem outro...
Quando entro, encontro tudo em seus respectivos lugares; sempre o mesmo silêncio, a mesma
calma, a mesma monotonia! Não me é dado, é verdade, receber em cheio, na face, os
beijos estalados por uma boquinha vermelha e besuntada; sentir em seguida na perna
frisagens estranhas e exclamar, cobrindo de ósculos a cabecinha adorada:
Ó ladrãozinho, pois você foi fazer isto em papai?! Não me será dado ainda ter
um sucessor de meu nome. Não me será... Não me serão dados, enfim, todos os inefáveis
prazeres da paternidade, mas também nunca passarei pelo transe, sem nome na linguagem
humana, que deve sofrer aquele que se vê entre um berço vazio e um esquife ocupado.
Deixa passar, pois, o título As nossas filhas.
É uma simples metáfora.
* * *Quando escrevi acerca dos nossos
filhos, disse alguma coisa a respeito da maneira por que eles são educados física
e moralmente.
Os inconvenientes da nossa educação tornam-se ainda mais sensíveis em relação ao
sexo, por cujo porvir o sr. Bethencour da Silva tanto trabalha.
Dos sete aos doze anos, justamente na época em que a criança precisa de ar, de luz, como
as flores, e de liberdade, como o passarinho, vemos as nossas meninas encerradas e
tolhidas nos mais pequenos movimentos.
Se, por acaso, correm, dizem-lhes logo:
Que modos!
Isto não é bonito para uma moça.
Parece um cavalão!
Uma moça não faz isto!
Entre nós, pois, a primeira idéia que se incute no espírito de uma menina, é que ela
já é uma moça.
A visita, ao vê-la, exclama:
Gentes! Pois esta é sua filha. Eu já não a conhecia! Está uma moça!
A mãe sorri satisfeita com o qualificativo e diz:
Qual! Não tem ainda bastante juízo; só o que quer é pular.
Os sujeitos que freqüentam as casas, onde há meninas, dizem-lhes constantemente:
Que mocetona!
Que olhos!
Esta menina há de trazer tudo num cortado.
Como é bem feita!
E que cabelos bonitos que ela tem.
Os mais íntimos habituam-lhe os ouvidos com frases:
Adeus, minha noiva.
Venha cá, minha noiva!
Você há de casar comigo.
E em vez de saltar, pular, correr ao lado dos felizes companheiros da sua idade, a menina,
imbuída do que ouve contantemente ao redor de si, principia a tomar uns ares ridículos
de moça.
Convencida de que é bonita, vai para o espelho, estuda sorrisos, e dedica-se
exclusivamente à toillete.
Hoje, exige um vestido branco, com fitas escarlates; amanhã, aborrece-se das fitas
escarlates e quer azuis.
Se a família pretende ir a um baile, o pimpolho grita logo:
Eu também vou.
Mas, minha filha...
Vou sim, mamãe, vou. E hei de ir com o meu vestido novo.
Vai ficar todo estragado.
Mamãe depois faz outro.
E quero umas botnias bronzeadas, de salto bem alto.
Não; é melhor ficar em casa com a Joana a ouvir histórias...
Não é melhor, não senhora. Eu vou, eu vou.
E vai com toda a certeza.
E dança durante a noite inteira, como qualquer moça.
Aos dezoito anos, quandoo seu organismo deveria estar em pleno vigor, ei-la de faces
desbotadas a inspirar madrigais aos poetas sentimentais.
A mãe diz às visitas:
Não sei o que tem esta menina. Não come, é um fastio de morte e está
emagrecendo a olhos vistos.
Por que não toma óleo de fígado de bacalhau?
Já tomou, não lhe tem feito nada.
Ainda não experimentou o arsênico?
Está tomando agora.
Dê-lhe duchas. Minha mulher tem-se dado muito bem com elas; vai todas as manhãs
à casa do Eiras.
Já me lembrei de ir para Friburgo.
Não é mau.
Quem sabe se não será alguma paixão?
Qual!
Banhos de igreja! Banhos de igreja! É o único remédio infalível para moças.
* * *
Leitoras, um pequeno conselho.
Deixai que as vossas filhas pulem, pulem à vontade, na época em que o pular é uma
necessidade para o organismo.
Sem exercício não há saúde, e sem saúde não há beleza possível.
Mandai vossas filhas para os jardins públicos. a fim de que elas possam desenvolver-se
sob a ação benéfica do ar e da luz.
Vesti-as com a maior simplicidade, com roupas largas e cômodas. A criança não deve ter
a preocupação de possuir cintura fina e pé pequeno.
Tratai, enfim, de dar músculos, carne, a essa nova geração que surge, a fim de que
desapareçam para sempre desta terra o óleo de fígado de bacalhau, os vinhos
ferruginosos, a peptona, o arsênico, etc.
Lembrai-vos que sobre vós pesa a grande responsabilidade de dar-nos mães de família e
deputados, ministros, vereadores, magistrados, literatos, e tutti quanti hão de
felicitar este país.
(França Júnior,
Joaquim José da. Folhetins. 4ª ed. Rio de Janeiro, Jacinto
Ribeiro dos Santos Editor, 1926, p.237-241) |
|