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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
O índio amazônico, em geral, é visto pelos sábios a vôo de pássaro. Mesmo os
etnólogos, dedicados exclusivamente ao estudo das tribos, das malocas e dos indivíduos,
poucas vezes chegam a exame satisfatório, profundo no assunto.
Na maioria dos casos, o cientista sobe o Amazonas ou o Tocantins, enfia-se no aranhol
hidrográfico, vai até as vertentes donde brotam os rios, mas não sai das margens; e,
quando sai, num rápido viés ao traço recurvo dos caudais, falta-lhe sempre o
elementoprincipal ao sucesso visado: o conhecimento da língua. Não esse conhecimento
superficial que todos nós possuímos para saber que tinga é branco e pixuna
preto, mas as modalidades da expressão, as sutilezas da frase, o segredo léxico, em
suma.
Sem falar o idioma nas linhas gerais do tupi-guarani, e, muito menos os dialetos, sonoros,
duros, cantantes, guturais o simples contato efêmero, no comum das vezes
dramatizado na mímica mais cômica deste mundo, não faculta ao adventício meios
suficientes a observações minuciosas, que recortem e precisem, na mais ampla realidade,
hábitos e costumes, psicologias individuais e coletivas. Raríssimos estrangeiros podem,
como Hans Staden, e isso mesmo no caráter de prisioneiro, sempre vigiado, assustado,
desconfiado com as fogueiras e as danças comemorativas, ao lume e ao passo das quais se
assavam e devoravam os inimigos contar incidentes íntimos do selvagem.
Retraído pela desconfiança que o civilizado lhe vem inspirando através de mil perfidias
memoráveis, de mil fraudes, de mil quebras de palavra, o índio ainda é, organicamente,
reservado. O instinto avisa-o da necessidade defensiva em todos os aspectos da vida. A
adversidade arma-o de tal prudência que ele só fala baixo, pisa leve, raramente canta,
nunca anda em bando. De longe em longe dá um grito. Uma vez por outra solta uma
gargalhada. Sua voz resume-se a murmúrios, sua alegria a sorrisos. Este resguardo pessoal
amplia-se na tática da tribo. Se o índio individualmente é discreto, a nação é
misteriosa, a ponto de excluir a mulher dos ritos, das liturgias, das decisões bélicas.
O tuixaua e o pajé, representantes da lei e do dogma, guardam segredos invioláveis, só
transmitidos aos substitutos na hora da morte. De maneira que o espírito fechado do
silvícola agrava-se para o naturalista até a ignorância mútua dos idiomas. Sem poder
trocar idéias com o morador das brenhas, semlhe poder surpreender, numa palavra, numa
pergunta, num diálogo o indício que o leve a conclusões seguras, o etnólogo quase
sempre recolhe notícias deturpadas, pontos de vista errados, acontecimentos desfigurados.
Daí se deduzir que a simples aproximação, para exame donde reponte a verdade, é
insuficiente.
O principal motivo das inpumeras contradições registadas entre sabios, a propósito dum
mesmo caso indígena, provém, de certo, da falta de entendimento verbal. O intérprete
porventura empregado, na hipótese de manejar bem os dois idiomas, jamais traduz com
fidelidade e argúcia o sentido das perguntas e respostas que lhe cruzam mecanizadas o
cérebro. E isso porque o aborígene, de comum alarmado e prevenido, não somente
restringe cauteloso o pensamento em todo o inquérito, sempre suspeito aos seus
interesses, como, por um cunho racial, espécie de advertência de sangue, confunde,
despista o interlocutor. A experiência de muitos séculos ensina-o que das visitas, dos
sorrisos, dos presentes, do convívio, enfim, com o estrangeiro, é que lhe tem vindo em
desgraça. O rosário de miçangas, invariavelmente, é o símbolo do seu cativeiro. O
colar de vidro transmuda-se em grilhão de ferro. Eis porque homens incapazes de qualquer
improbidade, científica ou literária, têm relatado, na melhor boa-fé, já se vê, as
mais extravagantes petas deste vale de lágrimas a respeito do selvagem.
Agassiz e a esposa, por exemplo, para logo citar gente de penacho que tem andado por aqui,
atacaram a moralidade do caboclo. E dessa errada maneira de ver, focada de afogadilho, no
trajeto de uma viagem pela calha do rio, pretendeu o ilustre casal deduzir a inferioridade
da gente tapuia, degenerada e degradada por falta de sentimentos nobres. A senhora
Agassiz, que era quem registava os aspectos sociológicos da jornada, teceu as mais
inverossímeis anedotas a respeito da família mameluca da Amazônia. José Veríssimo, o
magnífico escritor patrício, de fato um arguto analista, deslumbrado a princípio com o
superficialismo do professor suíço mail-a madama [sic], corroborou-lhes as asertivas nas
Cenas da vida amazônica, para depois, felizmente, seguro da leviandade cometida, e
mais, talvez, pesando a sua responsabilidade de intelectual, filho da planície, recuar
dos aplausos externados.
No meio de tantas inteligências que estudaram o homem da grande arena equatorial, nenhuma
o fez dentro na maior justiça, na maior fidelidade, e na maior independência, como a de
Couto de Magalhães. Toda a sua obra, elegante e austera, remarca esse tom positivo de
quem viu e ouviu. O selvagem, livro dos maiores que já se escreveram no Brasil, é
um documento de tal sorte honesto, narrando costumes domésticos, teogonias desconhecidas,
hábitos guerreiros, práticas religiosas, riquezas de folclore, interpretações
mitológicas, cerimônias fúnebres que há de ficar, no meio contraditório das
opiniões sobre o caso, como padrão real e científico da espécie.
sabedor do tupi-guarani, enfronhado em vários dialetos, ele conversava diretamente com o
índio. Entendia-se com tuixauas e pajés, estranhando, perquirindo, comentando
acontecimentos. Numa de suas arriscadas viagens pelo noroeste do Brasil, da bacia do Prata
à bacia do Amazonas, notou, entre os quatro mil arcos guerreiros das oitenta aldeias de
chambioás, carijós, curujaús e pavões, que havia em cada uma dessas malocas um
indivíduo robusto, bem apessoado, jovem, que não caçava, não pescava, não remava,
não pelejava, não trabalhava, enfim.
Isso levou-o a indagar de um dos chefes, o motivo de tão alto favor no meio dum povo
laborioso e enérgico, em cujo seio floresciam as roças, abundavam a spescarias,
constatavam-se as lutas com o inimigo. O tuixaua respondeu-lhe, então, que esse
indivíduo era apenas e unicamente o marido das viúvas daquela tribo. Não tinha outro
mister. E que a paz fruída pela família selvagem desse núcleo, provinha exclusivamente
daquele companheiro, alçado ao cargo por uma lei imemorial, instituída entre eles.
Nessas tabas, aparentemente ermas de qualquer regimento disciplinador, de qualquer
estatuto social, a moralidade se mantinha rígida; e não é só isso, todos gozavam de
profunda tranqüilidade. Os zelos, os mexericos, as intrigas, os ciúmes, que as viúvas
poderiam, com ou sem motivos, despertar nas casadas, não existiam ali.
Ora, visto o caso com uma certa filosofia de quem sabe que a moralidade, como a moda, como
o gosto, como a beleza, é relativa, de acordo com a latitude, clima, raça, e pois
sujeita a certas influências mesológicas e éticas a instituição surge de tal
forma benemerente e luminosa, sarjada de original sabedoria, que parece de Salomão.
Elisée Reclus, na sua grande obra Estados Unidos do Brasil, lindamente
traduzida por esse elegante e castiço Ramiz Galvão, na parte etnográfica, refere-se a
ela. Outros escritores registam-na e exaltam-na.
Alguns viajantes, mais em contato com essas tribos, baixam a minúcias, à primeira vista
ridículas e cômicas, sobre a famosa lei e o seu funcionário. Revelam esses forasteiros
peripécias interessantes sobre a vida, o exercício, o ambiente, do marido das viúvas. O
escolhido, referem, antes de mais nada, tem que ser jovem, forte e formoso. Não há que
estranhar tal exigência, pois os habitantes dessa região, segundo J. E. Wappaeaus, na
sua Geografia física do Brasil, "são os mais belos índios da América do
Sul e aproximam-se muito do tipo caucásico. As mulheres, lindas, usam cabelos
flutuantes."
Além dos atributos físicos, porém, exigem-se, ao marido das viúvas, outros morais,
como brando de gênio, corajoso, firme. É com estes elementos, apolíneos e físicos, que
o escolhido surge aclamado para o melindroso cargo de enxugar a lágrima e apagar a
saudade daquelas tristes criaturas.
Em compensação destes peregrinos dotes, nenhum homem na terra gozará de maior ventura
que o marido das viúvas. Todos os carinhos, todas as delícias, todos os prazeres,
fruidos pelos milionários e protegidos dos deuses, apagam-se junto dos cuidados e da
paixão dedicados ao herói selvagem. O amor envolve-o. A fruta mais doce, o milho mais
tenro, o beiju mais branco, a farinha mais torrada, a caça mais gorda, pertencem-lhe.
Resinas cheirosas, redes bem tecidas, troféus multicores, xerimbabos esquisitos, vasos
simbólicos, colares de concha, panacus vistosos, tudo, em suma, que é raro e valioso, as
comovidas viúvas lhe dedicam.
E para que ele não tenha dúvidas e esteja sempre ouvindo a voz desses corações
aflitos, três papagaios, dos mais verdes da mata, simbolizando certamente a esperança de
um amor eterno, dizem, trepados em poleiros no terreiro da cabana, do nascer ao
pôr-do-dol, com ternura que trai a dona, esta sentida frase; meu bem! meu bem! meu bem!
Vivendo à parte da maloca, num tosco harém de palha, aquele protegido de Rudá (deusa do
amor) consome a vida sem atribulação maior que o desempenho fastidioso e monótono de
seu leve ofício. Desse melindroso encargo, porém, sem a menor dúvida, a nação respira
a mais doce paz, enquanto que os povos vizinhos, alheiados daquela personagem que se chama
marido das viúvas, para manterem a moralidade, e pois a ordem e a disciplina, são
obrigados a queimar as adúlteras.
Das observações recolhidas na Amazônia a respeito da severidade do selvagem, na parte
referente àquilo que a sensibilidade masculina acordou chamar ponto de honra, constata-se
o seguinte: sempre que as cabildas permanecem isoladas, fora do convívio do branco, a
pureza de costumes é um fato, embora nesses costumes se encontrem alguns que firam leis,
religiões e hábitos consagrados, como, verbi gratia, entre os guatós, que adotam
a poligamia, sustentando duas, quatro, seis mulheres, conforme a agilidade de que cada um
dispõe na caça e na pesca. essas mulheres, no entanto, sejam três ou sejam oito, são
fiéis ao companheiro a ponto de não falarem com o estrangeiro que lhe visite a taba.
Casos contrários se registam invariavelmente toda a vez que os silvícolas se aldeiam
perto de núcleos civilizados, como seringais, acampamentos militares, estações
telegráficas. Aí degradam-se. O índio, de comum altivo, deixa de manter o preceito
singular e nobre de não admitir a mulher senão exclusivamente sua. Foi, de cero, neste
segundo exemplo, que Agassiz e senhora fizeram os seus estudos.
Aliás, é preciso que se diga com a máxima franqueza, todos os excursionisas que
procuravam o Brasil, no século passado, vinham sob o império de leituras fantásticas,
de notícias sensacionais, publicadas e divulgadas por naturalistas, exploradores,
piratas, navegantes, catequistas. Na sua obra admirável, A descoberta da América,
Humboldt, embora entusiasta de Colombo, frisa a maneira porque o almirante genovês se
contradizia: e, mais ainda, a maneira porque ele inventava. O sábio alemão cita-lhe,
quer as cincas geográficas, astronômicas, cosmográficas, quer as burlas, as mentiras,
as fraudes conscientes.
Orellana foi o que nós sabemos. O piloto francês João Afonso, que afirmou ter subido o
Amazonas antes da vítima das Icamiabas o haver descido, só encontra émulo, no capítulo
patranhas, em Marco Polo. O sentido da época era esse. Aumentava-se tudo, desfigurava-se
qualquer acontecimento com o maior desplante. O fito da narrativa guardava o desejo de
deslumbrar. Aquele cavalheiro Pigafetta, que escriturou o primeiro diário de navegação
a volta do mundo, na viagem principiada por fernão de Magalhães e terminada por
Sebastião Elcano, antes de referir que ao chegar à ilha de Santiago, a bordo da Victoria
era quarta-feira, enquanto que em terra era quinta, escreveu coisas do arco da velha
contra as índias solteiras do Brasil.
Entretanto, esse mesmo piloto, meio letrado meio marujo, ao se reportar à moralidade das
nossas aborígenes casadas, tece-lhes, num lampejo de justiça, os mais quentes louvores.
O próprio La Condamine, na sua Relação abreviada de uma viagem feita pelo interior
da América meridional, historiando os fatos da sua jornada científica ao Amazonas,
narra um motim no Peru, contra sua gente. Essa revolução popular, de conseqüências
fatais para quem a provocou, um certo Seniergues, médico da dita expedição, originou-se
da libertinagem. Foi a luxúria do francês que armou o braço vingador da coletividade.
E acentue-se bem esse desregramento, para melhor esclrecer certos aspectos obscuros, mal
observados pelos naturalistas, e que embora atribuídos ao silvícola, provinham realmente
do invasor sem escrúpulos, debochado, ao se transferir para o solo virgem do Novo Mundo.
O cínico apoftema de Barleus ultra aequinoctialem non peccari é
omelhor atestado. Essa inscrição infamante justificava as maiores misérias, asmaiores
indignidades, os maiores crimes do recém-vindo.
Para cá da linha ideal do Equador, a mais funda vilania cometida com a família do incola
era garantida por uma absolvição satânica de há muito proferida e especialmente
lavrada para estes remotos rincões geográficos. De modo que vistos os acontecimentos sem
parcialidade, com a justiça do historiador honesto, a dissolução de costumes partia de
longe, vinha no bojo das caravelas e das naus. Não se originava do nativo, mas da raça
forte que o submeteu. A criação desse originalíssimo e quase pitoresco mister de marido
das viúvas, no seio de uma nação alheia ao contato do aventureiro, é uma prova que
fala mais alto de que qualquer defesa em prol do índio amazônico, estigmatizado,
vilipendiado e tido por degradado, quando tudo isso ele deve precisamente ao colonizador.
Seu gênio brando e benévolo, tem, no fundo, o sentido da moralidade e da pureza.
(Morais, Raimundo. O
país das pedras verdes. Manaus, Imprensa pública, sd, p.289-299) |
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