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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)O cafuné, por Wilson Lins.

setaquad.gif (95 bytes)O marido das viúvas, costumes do índio amazônico, por Raimundo Morais.

setaquad.gif (95 bytes)As nossas filhas, por Joaquim José da França Júnior.

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O CAFUNÉ

Wilson Lins


Quando os portugueses, trocando a caça ao índio pela construção dos currais, passaram de despovoadores a povoadores, por ter todo o seu tempo tomado pelo trabalho com o gado, suas cabeças viviam maltratada, cheias de piolhos e sujas. Nos raros momentos de descanso, suas mulheres entravam a catar a piolheira. Sob a pressão amena dos dedos amigos, o rude lidador adormecia, entre voluptuoso e repousado. Com o passar do tempo, "catar piolho" era um hábito dos mais gratos ao pioneiro. E, quando faltava o piolho, ele pedia à companheira que fingisse que estava catando, pressionando-lhe o couro cabeludo com a falange de maneira que a unha estalasse como se estivesse matando um piolho. Foi assim que nasceu o cafuné.

O cafuné foi introduzido na vida do vale juntamente com os primeiros boizinhos açorianos vindos das cercanias da cidade do Salvador. Seguindo o mesmo caminho palmilhado pelas boiadas, o cafuné lentamente atingiu, pelos lados dos "baianos" (a margem direita) e pelo da gente de Pernambuco (a margem esquerda do grande rio), o Médio São Francisco, sempre no coice das boiadas, ele entra aí para os sertões goianos e, através do Paraná, conquista o mundo verde das selvas mato-grossenses. Foi o mais leal e constante companheiro do bandeirante nas suas caminhadas e pousadas, no afã de plantar currais e abrir caminhos. A sua história é a própria história do povoamento do Brasil. Parte integrante da vida pastoril, o cafuné acompanha o progresso da pecuária no país, desde o tempo em que "no norte uma vaca valia Cr$ 4,00 a Cr$ 5,00 e o sertão engolia o homem piolhento que o desbravava.

A função social do cafuné é importante na vida das populações interiores. Nos primeiros dias da Colônia, ele era o repouso do homem, mas depois, já na fase agropastoril, nas grandes fazendas de gado e nos engenhos de açúcar, especialmente no Nordeste, com o braço negro a fazer tudo pelos senhores brancos, passou a ser uma distração para as mulheres nas horas de mais calor, quando o mormaço sensual e alcoviteiro entorpece os amos e a escravaria.

Charles Expilly, no seu livro de impressões de viagem, dá notícia de sua presença na sociedade brasileira de então, informando:

"À hora do grande calor, as senhoras, recolhidas ao interior dos aposentos, deitam-se no colo da mucama favorita, entregando-lhe a cabeça. A mucama passa e repassa seus dedos indolentes na espessa cabeleira que se desenrola diante dela. Mexe em todos os sentidos naquela luxuriante meada de seda. Coça delicadamente a raiz dos cabelos, beliscando a pele com habilidade e fazendo ouvir, de tempos em tempos, um estalido seco entre a unha e o polegar e a do dedo médio. Esta sensação torna-se uma fonte de prazer para o sensualismo das crioulas. Um voluptuoso arrepio percorre os seus membros ao contato dos dedos acariciadores. Invadidas, vencidas pelo fluído que se espalha em todo o seu corpo, algumas sucumbem à deliciosa sensação e desfalecem de prazer sobre os joelhos da mucama."

Expilly exagera nos seus comentários, emprestando ao cafuné um caráter por demais sensual, o que realmente é falso. Inegavelmente, o cafuné é sensorial, mais daí a provocar desfalecimento de prazer nas pessoas vai uma boa distância. Em pessoas morbidamente sensuais, o cafuné pode provocar espasmos, não pelo seu caráter libidinoso, mais devido ao estado de hipersensibilidade dessas pessoas. O simples fato da maioria dessas pessoas adormecer enquanto lhe "catam cafuné" não prova o sensualismo que querem impingir ao inocente passatempo. O professor Roger Bastide, em seu ensaio sobre cafuné, tenta, igualmente, dar um caráter libidinoso à "catação". Procurando retratar a mulher brasileira dos tempos coloniais, Roger Bastide escreve:

"Nenhum desvio, mesmo ligeiro, lhe era perdoado; e, como esta moral pesava em todo o seu peso sobre a criança, desde o seu nascimento, não é de admirar que a censura social tenha impedido de vir até à consciência, mesmo sob a forma de uma simples baforada de desejo, imediatamente rejeitada com terror, o pensamento de deitar com uma mulher e, com mais razão uma negra. E como, finalmente, esta "compressão de mulher", de que falamos mais acima, se traduzia, freqüentemente, pela procura de emoções religiosas, das consolações da igreja, pois a fé católica era oniponente sobre os espíritos e os corações, não nos devemos surpreender ao encontrar na brasileira dessa época a mais estrita moralidade."

Depois de tais considerações, o professor Bastide conclui:

"Mas isso não impedia que suas aspirações sentimentais fossem ultrajadas e que o casamento não lhe desse a felicidade que ela sonhara. Não impedia menos que a libido recalcada procurasse encontrar um exutório, tanto mais quanto o ambiente de luxúria, criado pelos amores poligâmicos de seu marido e de seus escravos, não podia senão exasperar esta libido rejeitada."

Sustenta o sociólogo francês, em sua Psicanálise do cafuné, que, não podendo expandir sua libido nas condições de vida que a cercava, a mulher colonial recorria ao cafuné. Acontece, porém, que não apenas a mulher recorria à "catação"! O homem também, e ainda em nossos dias, não obstante os sociólogos proclamaram o desaparecimento do cafuné na vida brasileira. Mesmo hoje, no vale do São Francisco e outras regiões pastoris do Brasil, a "catação" ainda impera. O professor Bastide erra quando afirma que "o cafuné foi, portanto, substituído dos divertimentos lésbicos", arrematando que nisto consistia a sua utilidade, representando "uma salvaguarda da moral". E como o pretender reforçar sua afirmativa, como fecho de toda a argumentação visando evidenciar o caráter libidinoso do cafuné, escreve triunfante, o ilustre mestre: "Pode-se encontrar uma confirmação desta interpretação no desaparecimento atual do cafuné como instituição social." Ora, o cafuné é um hábito característico das sociedades pastoris, onde o trabalho é obrigação e diversão e, pelo menos no São Francisco, onde subsiste uma das mais velhas organizações sociais desse tipo, o cafuné não desapareceu. Ainda hoje, nas fazendas e povoados, é fácil encontrar na hora de mais mormaços as mulheres "catando cafuné" umas nas outras, enquando conversam sonolentamente sobre as ocorrências do dia. É natural que nas capitais e nas cidades mais adiantadas, onde a indústria introduziu novas formas de lazer, o cafuné, como diversão, tenha cedido lugar ao cinema, ao futebol e aos programas radiofônicos e de TV. Mesmo assim, muita gente, nas camadas mais baixas da sociedade brasileira, continua usando o cafuné nas capitais e principais cidades dos estados. Se o cafuné constituísse qualquer transferência da libido, a "catação" não seria em público, como acontece na ribeira do São Francisco: é comum, ali, a gente ver um negociante, entre as 13 e 14 horas, estendido no balcão de sua casa comercial, olhos semicerrados, enquanto um dos filhos mais moços lhe "cata cafuné", aos olhos de todos. Há um outro hábito, no interior, que se rivaliza com a "catação de cafuné". Trata-se da caça aos cabelos brancos nos homens de meia-idade, empresa geralmente confiada a meninos, hábito secular que também nada tem a ver com o libido. O cafuné não encobre recalques nem disfarça complexos. É sadio como a terra que ele ajudou desbravar, acompanhando os pioneiros, rastejando as boiadas.

A mulher, ali, casava cedo demais para ser uma ansiosa, uma necessitada de macho, que o simples contato de uns dedos macios, nos cabelos, levasse a transportes e êxtase. Por sua vez, o homem, como acontece ainda hoje, mesmo quando casa tarde ou não casa, faz a sua iniciação sexual em plena infância, quase inocentemente, levado pelo exemplo do gado, participando ele também do comunismo natural dos chiqueiros e currais. Pode ser que na área da cana-de-açúcar, a mulher vivesse segregada do marido, fiscalizada por sogras malfazejas, frades intrigante e mucamas invejosas. Mas no vale são-franciscano, embora a vida fosse austera e graves os costumes, a mulher não vivia em estado servil, e a tão falada "compressão da mulher" era desconhecida. A mulher do criador de gado não tinha a vida ociosa da mulher do senhor de engenho, homem de "mãos de mulher; pés de menino, só o sexo arrogantemente viril" que, no dizer de Gilberto Freyre, era um "voluptuoso do ócio; aristocrata com vergonha de ter pernas e pés para andar e pisar no chão como qualquer escravo ou plebeu". O homem do vale, explorado pelos potentados do litoral e que, na opinião de conceituado estudioso do assunto, desbravava o sertão hostil, tendo o trabalho todo para si mas não a glória e as rendas desse trabalho, vivia ocupado demais para ter tempo a desperdiçar em aventuras amorosas. Mesmo depois de domada a terra com o vale inteiro sob a sua serventia, o homem do São Francisco continuou moderado no particular, sem procurar prazer sexual fora de casa, salvo exceções que justificam a regra... A mulher da ribeira, se bem que não trabalhasse tanto quanto o marido, não podia dar-se ao luxo de chamar:

"Ó Fulô! Fulô!
(Era a fala da sinhá)
Vem me ajudar, ó Fulô
Vem abanar o meu corpo
Que estou suada, Fulô!
Vem coçar minha coceira
Vem me catar cafuné,
Vem balançar minha rede,
Vem me contar uma história
Que eu estou com sono, Fulô.

Ela mesma é que tinha de coçar sua coceira e balançar sua rede, se bem que para "catar cafuné" recorresse às mãos de veludo de uma mucama zelosa ou de uma parenta. Embora muitos autores opinem que o cafuné seja de origem africana, somos inclinados a acreditar no seu caráter universal. No vale do São Francisco ele foi introduzido pelo português, pois a influência do negro ali é quase nenhuma, mesmo em nossos dias. Além do mais, a universalidade do cafuné é um fato de fácil comprovação. Desde os mais recuados tempos da Antiguidade, a "catação" desfruta de grande prestígio. O cafuné brasileiro, que para uns foi trazido de Portugal e para outros já era usado pela indiada, tem raízes profundas e não constitui, como querem alguns autores, um hábito colonial, de vez até hoje vigora no país, não apenas no Interior.

Nas horas de maior mormaço, enquanto a conversa rola molenga, o beiradeiro, quer nas fazenda, quer nos povoados, exercita o cafuné com o mesmo prazer sadio com que tira o "bicho de pé".



(Lins. Wilson. O médio São Francisco: uma sociedade de pastores e guerreiros. São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1983, p.130-134)

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