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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
Quando os portugueses, trocando a caça ao índio pela construção dos currais,
passaram de despovoadores a povoadores, por ter todo o seu tempo tomado pelo trabalho com
o gado, suas cabeças viviam maltratada, cheias de piolhos e sujas. Nos raros momentos de
descanso, suas mulheres entravam a catar a piolheira. Sob a pressão amena dos dedos
amigos, o rude lidador adormecia, entre voluptuoso e repousado. Com o passar do tempo,
"catar piolho" era um hábito dos mais gratos ao pioneiro. E, quando faltava o
piolho, ele pedia à companheira que fingisse que estava catando, pressionando-lhe o couro
cabeludo com a falange de maneira que a unha estalasse como se estivesse matando um
piolho. Foi assim que nasceu o cafuné.
O cafuné foi introduzido na vida do vale juntamente com os primeiros boizinhos açorianos
vindos das cercanias da cidade do Salvador. Seguindo o mesmo caminho palmilhado pelas
boiadas, o cafuné lentamente atingiu, pelos lados dos "baianos" (a margem
direita) e pelo da gente de Pernambuco (a margem esquerda do grande rio), o Médio São
Francisco, sempre no coice das boiadas, ele entra aí para os sertões goianos e, através
do Paraná, conquista o mundo verde das selvas mato-grossenses. Foi o mais leal e
constante companheiro do bandeirante nas suas caminhadas e pousadas, no afã de plantar
currais e abrir caminhos. A sua história é a própria história do povoamento do Brasil.
Parte integrante da vida pastoril, o cafuné acompanha o progresso da pecuária no país,
desde o tempo em que "no norte uma vaca valia Cr$ 4,00 a Cr$ 5,00 e o sertão engolia
o homem piolhento que o desbravava.
A função social do cafuné é importante na vida das populações interiores. Nos
primeiros dias da Colônia, ele era o repouso do homem, mas depois, já na fase
agropastoril, nas grandes fazendas de gado e nos engenhos de açúcar, especialmente no
Nordeste, com o braço negro a fazer tudo pelos senhores brancos, passou a ser uma
distração para as mulheres nas horas de mais calor, quando o mormaço sensual e
alcoviteiro entorpece os amos e a escravaria.
Charles Expilly, no seu livro de impressões de viagem, dá notícia de sua presença na
sociedade brasileira de então, informando:
"À hora do grande calor, as senhoras, recolhidas ao interior dos aposentos,
deitam-se no colo da mucama favorita, entregando-lhe a cabeça. A mucama passa e repassa
seus dedos indolentes na espessa cabeleira que se desenrola diante dela. Mexe em todos os
sentidos naquela luxuriante meada de seda. Coça delicadamente a raiz dos cabelos,
beliscando a pele com habilidade e fazendo ouvir, de tempos em tempos, um estalido seco
entre a unha e o polegar e a do dedo médio. Esta sensação torna-se uma fonte de prazer
para o sensualismo das crioulas. Um voluptuoso arrepio percorre os seus membros ao contato
dos dedos acariciadores. Invadidas, vencidas pelo fluído que se espalha em todo o seu
corpo, algumas sucumbem à deliciosa sensação e desfalecem de prazer sobre os joelhos da
mucama."
Expilly exagera nos seus comentários, emprestando ao cafuné um caráter por demais
sensual, o que realmente é falso. Inegavelmente, o cafuné é sensorial, mais daí a
provocar desfalecimento de prazer nas pessoas vai uma boa distância. Em pessoas
morbidamente sensuais, o cafuné pode provocar espasmos, não pelo seu caráter
libidinoso, mais devido ao estado de hipersensibilidade dessas pessoas. O simples fato da
maioria dessas pessoas adormecer enquanto lhe "catam cafuné" não prova o
sensualismo que querem impingir ao inocente passatempo. O professor Roger Bastide, em seu
ensaio sobre cafuné, tenta, igualmente, dar um caráter libidinoso à
"catação". Procurando retratar a mulher brasileira dos tempos coloniais, Roger
Bastide escreve:
"Nenhum desvio, mesmo ligeiro, lhe era perdoado; e, como esta moral pesava em todo o
seu peso sobre a criança, desde o seu nascimento, não é de admirar que a censura social
tenha impedido de vir até à consciência, mesmo sob a forma de uma simples baforada de
desejo, imediatamente rejeitada com terror, o pensamento de deitar com uma mulher e, com
mais razão uma negra. E como, finalmente, esta "compressão de mulher", de que
falamos mais acima, se traduzia, freqüentemente, pela procura de emoções religiosas,
das consolações da igreja, pois a fé católica era oniponente sobre os espíritos e os
corações, não nos devemos surpreender ao encontrar na brasileira dessa época a mais
estrita moralidade."
Depois de tais considerações, o professor Bastide conclui:
"Mas isso não impedia que suas aspirações sentimentais fossem ultrajadas e que o
casamento não lhe desse a felicidade que ela sonhara. Não impedia menos que a libido
recalcada procurasse encontrar um exutório, tanto mais quanto o ambiente de luxúria,
criado pelos amores poligâmicos de seu marido e de seus escravos, não podia senão
exasperar esta libido rejeitada."
Sustenta o sociólogo francês, em sua Psicanálise do cafuné, que, não podendo
expandir sua libido nas condições de vida que a cercava, a mulher colonial recorria ao
cafuné. Acontece, porém, que não apenas a mulher recorria à "catação"! O
homem também, e ainda em nossos dias, não obstante os sociólogos proclamaram o
desaparecimento do cafuné na vida brasileira. Mesmo hoje, no vale do São Francisco e
outras regiões pastoris do Brasil, a "catação" ainda impera. O professor
Bastide erra quando afirma que "o cafuné foi, portanto, substituído dos
divertimentos lésbicos", arrematando que nisto consistia a sua utilidade,
representando "uma salvaguarda da moral". E como o pretender reforçar sua
afirmativa, como fecho de toda a argumentação visando evidenciar o caráter libidinoso
do cafuné, escreve triunfante, o ilustre mestre: "Pode-se encontrar uma
confirmação desta interpretação no desaparecimento atual do cafuné como instituição
social." Ora, o cafuné é um hábito característico das sociedades pastoris, onde o
trabalho é obrigação e diversão e, pelo menos no São Francisco, onde subsiste uma das
mais velhas organizações sociais desse tipo, o cafuné não desapareceu. Ainda hoje, nas
fazendas e povoados, é fácil encontrar na hora de mais mormaços as mulheres
"catando cafuné" umas nas outras, enquando conversam sonolentamente sobre as
ocorrências do dia. É natural que nas capitais e nas cidades mais adiantadas, onde a
indústria introduziu novas formas de lazer, o cafuné, como diversão, tenha cedido lugar
ao cinema, ao futebol e aos programas radiofônicos e de TV. Mesmo assim, muita gente, nas
camadas mais baixas da sociedade brasileira, continua usando o cafuné nas capitais e
principais cidades dos estados. Se o cafuné constituísse qualquer transferência da
libido, a "catação" não seria em público, como acontece na ribeira do São
Francisco: é comum, ali, a gente ver um negociante, entre as 13 e 14 horas, estendido no
balcão de sua casa comercial, olhos semicerrados, enquanto um dos filhos mais moços lhe
"cata cafuné", aos olhos de todos. Há um outro hábito, no interior, que se
rivaliza com a "catação de cafuné". Trata-se da caça aos cabelos brancos nos
homens de meia-idade, empresa geralmente confiada a meninos, hábito secular que também
nada tem a ver com o libido. O cafuné não encobre recalques nem disfarça complexos. É
sadio como a terra que ele ajudou desbravar, acompanhando os pioneiros, rastejando as
boiadas.
A mulher, ali, casava cedo demais para ser uma ansiosa, uma necessitada de macho, que o
simples contato de uns dedos macios, nos cabelos, levasse a transportes e êxtase. Por sua
vez, o homem, como acontece ainda hoje, mesmo quando casa tarde ou não casa, faz a sua
iniciação sexual em plena infância, quase inocentemente, levado pelo exemplo do gado,
participando ele também do comunismo natural dos chiqueiros e currais. Pode ser que na
área da cana-de-açúcar, a mulher vivesse segregada do marido, fiscalizada por sogras
malfazejas, frades intrigante e mucamas invejosas. Mas no vale são-franciscano, embora a
vida fosse austera e graves os costumes, a mulher não vivia em estado servil, e a tão
falada "compressão da mulher" era desconhecida. A mulher do criador de gado
não tinha a vida ociosa da mulher do senhor de engenho, homem de "mãos de mulher;
pés de menino, só o sexo arrogantemente viril" que, no dizer de Gilberto Freyre,
era um "voluptuoso do ócio; aristocrata com vergonha de ter pernas e pés para andar
e pisar no chão como qualquer escravo ou plebeu". O homem do vale, explorado pelos
potentados do litoral e que, na opinião de conceituado estudioso do assunto, desbravava o
sertão hostil, tendo o trabalho todo para si mas não a glória e as rendas desse
trabalho, vivia ocupado demais para ter tempo a desperdiçar em aventuras amorosas. Mesmo
depois de domada a terra com o vale inteiro sob a sua serventia, o homem do São Francisco
continuou moderado no particular, sem procurar prazer sexual fora de casa, salvo
exceções que justificam a regra... A mulher da ribeira, se bem que não trabalhasse
tanto quanto o marido, não podia dar-se ao luxo de chamar:
"Ó Fulô! Fulô!
(Era a fala da sinhá)
Vem me ajudar, ó Fulô
Vem abanar o meu corpo
Que estou suada, Fulô!
Vem coçar minha coceira
Vem me catar cafuné,
Vem balançar minha rede,
Vem me contar uma história
Que eu estou com sono, Fulô.
Ela mesma é que tinha de coçar sua coceira e balançar sua rede, se bem que para
"catar cafuné" recorresse às mãos de veludo de uma mucama zelosa ou de uma
parenta. Embora muitos autores opinem que o cafuné seja de origem africana, somos
inclinados a acreditar no seu caráter universal. No vale do São Francisco ele foi
introduzido pelo português, pois a influência do negro ali é quase nenhuma, mesmo em
nossos dias. Além do mais, a universalidade do cafuné é um fato de fácil
comprovação. Desde os mais recuados tempos da Antiguidade, a "catação"
desfruta de grande prestígio. O cafuné brasileiro, que para uns foi trazido de Portugal
e para outros já era usado pela indiada, tem raízes profundas e não constitui, como
querem alguns autores, um hábito colonial, de vez até hoje vigora no país, não apenas
no Interior.
Nas horas de maior mormaço, enquanto a conversa rola molenga, o beiradeiro, quer nas
fazenda, quer nos povoados, exercita o cafuné com o mesmo prazer sadio com que tira o
"bicho de pé".
(Lins. Wilson. O
médio São Francisco: uma sociedade de pastores e guerreiros. São Paulo.
Companhia Editora Nacional, 1983, p.130-134) |
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