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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Os velhos engenhos de pau que já se foram.

setaquad.gif (95 bytes)A renda de labirinto, por Valdelice Carneiro Girão.

setaquad.gif (95 bytes)Da disciplina da escravatura: tarefas diárias e castigo, por Carlos Augusto Taunay.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES
OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

OS VELHOS ENGENHOS DE PAU QUE JÁ SE FORAM

José Figueiredo Filho


Nunca surpreendi um engenho de pau em seu trabalho de triturar canas, ringindo e rangendo, na expressão do poeta. Nasci e cresci quando o engenho de ferro já dominava toda a região caririense. Em minha meninice, porém, todos eram movimentados a juntas de bois mansos. Vi o primeiro motor no sítio de Cel. João Gomes, nos brejos. Foi em Bebida-Nova, recanto belíssimo dos pés de serra de Crato, e que pertenceu ao meu pai, onde passei os melhores dias de minha vida de criança. Ali foi que vi bem de perto, todo o trabalho de plantio e replantio de cana-de-açúcar, quando socas e ressocas quase nada tinha mais a dar. Também enterrei toros, em covas e leiras, com essa inata atividade de menino. Fui tangedor de bois, porque toda criança mais taluda tem que montar nas almanjarras ou no boi mais manso da junta traseira. De qualquer dessas posições espicaçava os animais da frente com a vara de ferrão, ou os açoitava, sem piedade, com o chicote, sem piedade, com o chicote de couro cru.

Meti cana nas moendas, embora minha mãe me recomendasse nunca me aproximar daquela zona perigosa do engenho. Mexi rapadura na gamela e também as encaixei em formas minúsculas, feitas toscamente por mim. Peguei na passadeira, meti bagaço na fornalha e até cambitei olhos de cana em burros mais mansos. Tudo isso me deixou recordação imorredoura, principalmente agora, que vivo preso na farmácia e quase não tenho nem engenho para passear, a não ser visita ligeira que faço ao de meu colega e amigo José Gonçalves de Sousa Rolim ou do Sr. José Alcantara Vilar, do Lameiro.

Foi, há vários anos, quando viajava em costas de burro, de Crato para Assaré, que me deparei, pela primeira vez, com velho e sonolento engenho de pau. Vi-o com suas moendas verticais a descansarem preguisosamente, dos poucos meses de trabalho. Encontrei-me depois com destroços de outro, na fazenda Condado, no Piauí, de propriedade do Deputado Antônio de Alencar Araripe. Mas para dentro do agreste, há vários engenhos a pau a moerem pachorramente, de 2 a 3 cargas de rapadura por dia enquanto no Cariri muitos produzem de 20 a 30 cargas, em igual período.

Lamento, no entanto, nunca ter visto engenho de pau a ranger com aquele lamento que conheço muitos carros de bois... Todos nós temos alguma coisa da ama de poeta. Embora nunca cheguemos a cantar coisas belas que presenciamos.

Meu amigo e antigo colega do Colégio Diocesano de Crato, Otacílio Pereira de Carvalho, decantou em versos sertanejos, as mágoas do engenho de pau. Vejamos em sua simplicidade, com sua linguagem pura do mato, sem qualquer artificialismo do litoral:

Do sertão sempre recordo
Com uma sordade marvada
Dum ingem de pau moeno
Cum sua guela ingasgada,
Num cangote da boiada.

Bem cedo, madrugadinha,
O aboio do tangedô;
Atrepado na manjarra,
Vai inté o só se pô,
E aquele cantá bonito,
Atravessano o infinito
Inté no céu tem valô:

Ingem veio trabaiano
cum curage, saluçano,
Musga bonita cantano,
Alegre, porém sardosa
Os boi, coitado, sofreno
As três moenda troceno
Cum muita fôça ispremeno
Cana fita e cana rosa.

Cuma tu, ingem de pau,
Eu também vivo moeno
As canas do sofrimento
As socas da disvintura.
Qui só dá pranto e disgosto
E faz correr no meu rosto
A garapa da amargura.

Meu ingem veio manhoso!
Esse teu cantá penoso
Gemeno quando tu mói,
Fazeno corrê na bica
Garapa que tu constrói.

Eu cumparo a minha vida
Qui também canta sintida
E faz correr isprimida,
Água sargada dos óios.

Tu, nos teu tacho freveno,
Faz o mé, a rapadura
O aefinim, a batida
E muitas outas duçura.

Dessa grande deferença
Já todo mundo deu fé:
Eu só faço pranto e dó
E tu, seja cuma fô
Faz rapadura e faz mé.

Mas nem pur isso ismoreço,
Vou assim inté a morte
Cada um disbuia a sina
Qui li distinou a sorte.

Pode sê qui argum dia
Deus qui é bom, num é mau
Dissavessano minha vida
Faça dela ingem de pau.

Pra mode muê vintura
Prazê e tranquilidade
Essa cana abeçoada
Do "Sítio Filicidade"
pra dessa garapa assim
Prepara munto arfinim,
In forma de coração,
Pra mode eu dá de presente
A essas crasses decente
As muié do meu sertão.

O engenho de pau já bateu em completa retirada do Vale Caririense. Campeia hoje exclusivamente, o engenho de ferro. A rapadura é que não sofreu transformação. Continua na mesma. Apenas, diminuída porque seus preços tem alcançado cifras astronômicas, e a produção é totalmente vendida no interior. O engenho do Cariri não evolui para a fabricação do açúcar branco. Usina que se instalou nos brejos do Crato, fracassou. Está a rapadura ainda bem alicerçada como alimento sertanejo. Dificilmente será desbancada por seu similar de aparência mais bonita. Principalmente agora, que a moderna ciência está a aconselhar e a recomendar o alimento integral.

Há na região caririense engenhos bem montados. O de Belo-Horizonte, o Tupinambá, o de Lagoa Encantada, Paraíso e Fernando. Os métodos de fabricação de rapadura é que continuam com a rotina de sempre.

Em Salgueiro, no Estado de Pernambuco, há engenho de rapadura bem moderno, que aproveita o vapor d’água para cozinhamento do produto. É filho da capacidade de iniciativa do sertanejo Cel. Veremundo Soares. O exemplo poderá frutificar no Cariri, pois, atualmente, há verdadeira ânsia de progesso em todo o Vale Caririense.

(FIGUEIREDO FILHO, José de. Engenhos de Rapadura do Cariri. Rio de Janeiro: 1958, Ministério da Agricultura. P. 47-50)

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