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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
O veado fez a sua casa. Aprontou-a, endireitou-a bem, botou os seus carreguinhos dentro,
arrumou-os, fechou a porta e foi para o mato procurar a vida. Andou por lá, andou, até
à noitinha. Quando voltou para casa, que foi metendo a chave na porta, ouviu aquela
vozinha muito fina, cantando, lá dentro:
Tui-tui, quinanan-an
Chô-chô, curió matou
Ficou espantado. Levantou a cabeça e disse:
Ih! que eu não entro em casa...
Tornando a ouvir a voz, tirou a chave mais que depressa e saiu correndo pela estrada
afora, com o cotoquinho do rabo em pé, que ia vendendo azeite às camadas. Adiante,
encontrou o boi:
Boi, me acode!
O que é, veado?
Quando eu ia abrindo a porta da minha casa, tinha um bicho cantando lá dentro e eu
não entrei não, com medo de que ele me pegasse.
Ora, seu medroso, vamos ver isso, disse o boi, eu chego lá, meto o chifre na porta
e acabo com o tal bicho que está cantando dentro da tua casa.
Saiu o boi na frente e o veado atrás, desconfiado. Quando foram chegando na porta, que o
veado foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro. Assim que o boi ouviu
aquilo, disse:
O que, veado? vou-me embora. O diabo é outro.
E empurraram o pé no mundo, que iam em termo de se arrebentar. Já muito longe,
encontraram o bode, a quem o veado contou o que se estava passando. O bode disse que ia
acabar com o bicho que estava metendo medo ao veado. Foram os dois. Porém o bode, ouvindo
o bicho cantar, abriu o chambre, dizendo:
Não, veado. O filho de meu pai não entra lá, não.
O mesmo aconteceu a muitos outros animais. Nenhum teve coragem de entrar na casa do veado.
Afinal estava o pobre do bicho de cabeça baixa, pensando como havia de ser para botar
aquele importuno para fora da sua casa, quando viu um enorme carreiro de formigas de
correição.
Ai, formiga, disse o veado, me acode, que eu não posso entrar na minha casa,
porque, quando eu vou metendo a chave da porta, canta um bicho lá de dentro que me mete
medo.
Ora, vamos ver esta história, responderam as formigas.
O carreiro das formigas dirigiu-se para a casa do veado e ele no coice. Quando foi
chegando na porta, que foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro como
das outras vezes. Disseram as formigas:
Espera aí, veado.
Entraram por debaixo da porta e o veado ficou do lado de fora, arisco, com as orelhinhas
em pé, pronto para se escapulir. As formigas correram a casa toda e o bicho cantando, sem
que elas o pudessem descobrir. Afinal, foram dar com uma baratinha lá num canto muito
escuro, de asinhas arrebitadas, que estava se acabando de cantar. Agarraram-na e
trouxeram-na em charola:
Está, veado, quem te fazia tanto medo.
Mataram a pobrezinha e levaram-na em pedacinhos para o formigueiro. O veado entrou para a
sua casa e foi dormir bem de seu.
(Magalhães, Basílio de. O folk-lore no Brasil. Rio de Janeiro,
Livraria Quaresma, p.195-196) |
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