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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)O basilisco, por Téo Brandão.

setaquad.gif (95 bytes)Jesus e o tatu.

setaquad.gif (95 bytes)O veado e a baratinha.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O VEADO E A BARATINHA


O veado fez a sua casa. Aprontou-a, endireitou-a bem, botou os seus carreguinhos dentro, arrumou-os, fechou a porta e foi para o mato procurar a vida. Andou por lá, andou, até à noitinha. Quando voltou para casa, que foi metendo a chave na porta, ouviu aquela vozinha muito fina, cantando, lá dentro:

— Tui-tui, quinanan-an
Chô-chô, curió matou

Ficou espantado. Levantou a cabeça e disse:

— Ih! que eu não entro em casa...

Tornando a ouvir a voz, tirou a chave mais que depressa e saiu correndo pela estrada afora, com o cotoquinho do rabo em pé, que ia vendendo azeite às camadas. Adiante, encontrou o boi:

— Boi, me acode!

— O que é, veado?

— Quando eu ia abrindo a porta da minha casa, tinha um bicho cantando lá dentro e eu não entrei não, com medo de que ele me pegasse.

— Ora, seu medroso, vamos ver isso, disse o boi, eu chego lá, meto o chifre na porta e acabo com o tal bicho que está cantando dentro da tua casa.

Saiu o boi na frente e o veado atrás, desconfiado. Quando foram chegando na porta, que o veado foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro. Assim que o boi ouviu aquilo, disse:

— O que, veado? vou-me embora. O diabo é outro.

E empurraram o pé no mundo, que iam em termo de se arrebentar. Já muito longe, encontraram o bode, a quem o veado contou o que se estava passando. O bode disse que ia acabar com o bicho que estava metendo medo ao veado. Foram os dois. Porém o bode, ouvindo o bicho cantar, abriu o chambre, dizendo:

— Não, veado. O filho de meu pai não entra lá, não.

O mesmo aconteceu a muitos outros animais. Nenhum teve coragem de entrar na casa do veado. Afinal estava o pobre do bicho de cabeça baixa, pensando como havia de ser para botar aquele importuno para fora da sua casa, quando viu um enorme carreiro de formigas de correição.

— Ai, formiga, disse o veado, me acode, que eu não posso entrar na minha casa, porque, quando eu vou metendo a chave da porta, canta um bicho lá de dentro que me mete medo.

— Ora, vamos ver esta história, responderam as formigas.

O carreiro das formigas dirigiu-se para a casa do veado e ele no coice. Quando foi chegando na porta, que foi metendo a chave na fechadura, o bicho cantou lá dentro como das outras vezes. Disseram as formigas:

— Espera aí, veado.

Entraram por debaixo da porta e o veado ficou do lado de fora, arisco, com as orelhinhas em pé, pronto para se escapulir. As formigas correram a casa toda e o bicho cantando, sem que elas o pudessem descobrir. Afinal, foram dar com uma baratinha lá num canto muito escuro, de asinhas arrebitadas, que estava se acabando de cantar. Agarraram-na e trouxeram-na em charola:

— Está, veado, quem te fazia tanto medo.

Mataram a pobrezinha e levaram-na em pedacinhos para o formigueiro. O veado entrou para a sua casa e foi dormir bem de seu.



(Magalhães, Basílio de. O folk-lore no Brasil. Rio de Janeiro, Livraria Quaresma, p.195-196)

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