trans.gif (60 bytes)
trans1.gif (55 bytes)

Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


vinim5.gif (11238 bytes)
SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)O basilisco, por Téo Brandão.

setaquad.gif (95 bytes)Jesus e o tatu.

setaquad.gif (95 bytes)O veado e a baratinha.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O BASILISCO

Téo Brandão


Ilustração de Marcos JardimNo capítulo agricultura popular de nossa obra Folclore de Alagoas, anotamos uma curiosa crendice relativa aos ovos de galinha; os ovos pequenos que contêm clara somente são lidos e havidos, como postos pelos galos quando ficam velho.

Esta crença, muito comum entre nós em Alagoas, deve ser também bastante conhecida por todo o Brasil, pois, embora não se encontre registrada em muitos autores e estados, foi anotada em regiões tão afastadas como o Rio Grande do Norte, respectivamente por Câmara Cascudo (Informação de História e Etnografia) e Carlos Teschauer (Avifauna e Flora).

No seu registro, o nosso querido amigo e erudito mestre Câmara Cascudo ligou-a muito justamente a um dos mais espalhados mitos mundiais o do basilisco: a pacata G. Domesticus dos nossos galinheiros pode dar nascimento ao pior bicho do mundo. Ao basilisco, espécie de lagarto que mata pelo olhar como o Catoblepas. Se ele é avistado primeiro por um homem morre fulminado. A galinha que passa sete anos sem pôr ovos é a mãe do basilisco".

Teschauer afirma também: "É curioso saber que no Rio Grande do Sul se conhecem ovos (pequenos) de galinha, donde nasce basiliscos. Por isso as criadas negras mandam aos meninos que encontram um tal ovo pequeno que o atiram contra a parede e o quebram para não sair dali um basilisco"

É bem verdade que em Alagoas, inquirindo várias pessoas da zona rural, não conseguimos nenhuma referência ao basilisco, nem ao fato de nascerem serpentes dos ovos pequenos postos pelas galinhas. Mas não resta a menor dúvida que, conquanto desaparecida a crença ao nascimento do basilisco de tais ovos, a crendice alagoana prende-se iniludivelmente à superstição ou mito do fabuloso animal.

Em todas as épocas e países em que se tem registrado a crendice segundo a qual aos galos velhos se atribuem os ovos pequenos, sem gemas, postos sob várias circunstâncias, pelas galinhas, é ela acompanhada da superstição de que tais ovos, uma vez incubados, dão nascimento a uma serpente ou lagarto, ou ainda, melhor a um ser fabuloso, de terrível poder que recebe o nome de basilisco.

Em Portugal registra-a Teofilo Braga (O povo português, v.2): "um outro animal fantástico é o basilisco que nasce de um ovo que um galo põe ao fim de sete anos e que mata só com a vista". "No Minho, nasce deste ovo um lagarto que mata o dono da casa".

E por terras de Espanha continental e ultramarina o mito as registra igualmente.

Em Sevilha, diz-nos Hoyos de Sains, havia uma lenda "segundo a qual o basilisco, nascido de um ovo posto por um galo velho trazia o malefício de morte para as pessoas a que via e inversamente para ele, se fosse primeiro visto por eles.

Na Galícia, Risco (Rev. de Dialetologia e Tradiciones Populares) informa que do ovo de um galo negro nasce o basilisco ou, segundo outras pessoas uma serpente.

Na Argentina, Molina Telez registra apenas que quando um galo põe um ovo pequeno, com uma víbora dentro, é um indício de desgraça. Contudo, Tobias Rosenberg e Félix Coluccio e, antes desses dois ilustres folcloristas, Ambrossetti já anotavam a crendice dos ovos pequenos, reunida a do nascimento do Basilisco: "As galinhas velhas algumas já esporanadas são indicadas para porem os ovos de que nasce este terrível animal (o basilisco). Tais ovos são que se chama ordinariamente "hueros", isto é sem gemas, e quando se suspeita que alguns deles o são, enterram-nos profundamente, comprimindo a terra e fazendo uma cruz com um pau ou faca" (Ambrosseti, Supersticiones y leyendas).

Basilisco, segundo Coluccio (Diccionário folklórico argentino) é "o nome de um estranho animal que, segundo a lenda, nasce do ovo diminuto que de quando em quando põe a galinha. Outros afirmam que o basilisco nasce do ovo diminuto que de quando em quando põe a galinha. Outros afirmam que o basilisco nasce do ovo que põe o galo quando está muito velho ou quando completa sete anos.

E Rosemberg (La serpiente en la medicina y en el folklore) confirma a existência da crendice nas terras do Prata: "Na Argentina o basilisco é o produto da união de uma serpente com a galinha e no norte do país se acredita que o mesmo fato ocorre com os patos embora mais raramente".

Também conhecido no México é o fabuloso animal como se pode deduzir desta trova (Anuario da Sociedade Folklorica del Mexico, v.1)

"Quisera ser basilisco
Por horas y por momentos,
Mara: a quien yo queria
Y descançar mi cuerpo".

E do mesmo modo no Peru como se lê no romance de Ciro Alegria Grande e estranho é o mundo: "A lenda afirmava que a culpa era do basilisco, um maléfico animal parecido com a lagartixa que mata com o olhar e morre caso o homem o veja primeiro".

Mas não somente os povos da Península e seus descendentes guardaram o mito do basilisco e dos ovos de galo.

Teófilo Braga, baseado em Guichot, diz ser também crença comum na Itália, na França, Inglaterra e Dinamarca. Realmente, na França já a registrava Sebillot no fim do século passado:

"Pretende-se que certos ovos menores que outros, não postos pelos galos velhos. Se uma galinha os choca, deles nascem serpentes ou dragões". "Quando um galo põe um ovo é preciso que aquele que o vê primeiro grite: Basilisco, basilisco. Se é o galo que vê primeiro o ovo, dele sai um basilisco – animal que come as pessoas a quem pertence o galo. Noutra versão afirma Sebillot se um réptil acha um ovo de galo e o choca nasce um animal que tem olhos por todo o corpo. Se um homem o vê morre imediatamente; caso contrário, morre o basilisco".

Crença semelhante registra-se nos Altos Pirineus, na Tourais no Berry, no Poitou onde o basilisco é chamado também – "coquatria", porque se pensava que ele saía de um ovo chocado por uma serpente ou por um sapo (Rougé-Folklore de la Touraine).

Na Inglaterra, no Condado de Devon, o basilisco ou "cocatrix" – serpente que matava pelo olhar era o resultado da incubação de um ovo posto pelo galo denominado "cokerpony".

Já no Condado de Derby, (acrescenta-nos Ruffat) era o centésimo ovo da galinha (abusivamente chamado ovo de galo, pequeno e desprovido de gema que dava nascimento à esta espécie de basilisco.

Na Itália, a ele já se referia Savonarola, nos seguintes termos: "O basilisco é tão venenoso que seca ou queima a erva junto onde está. (Dicc. Dei simboli) e então dizia-se gerado por um ovo de galo velho cruzado com um sapo e chocado por uma serpente.

Também entre os povos germânicos e escandinavos tem-se recolhido a superstição (Buschan-Animais no culto etc. Atas Ciba) no reino dos animais fabulosos semelhantes ao dragão acha-se também o basilisco, considerado um bastardo da serpente com o sapo.

O mesmo no Tirol e na Boemia: "pretende-se que os ovos de galos negros de sete anos, chocados, darão nascimento a um dragão que vivia cem anos e crescia sem cessar (Ruffat - Traite de superstions).

Crença que não é assim de admirar esteja tão espalhada por todo mundo civilizado, desde que ela remonta a mais alta antiguidade, perdendo-se a sua origem nas crenças e mitos dos povos orientais.

A Idade Média, época que foi um excelente caldo de cultura para a demonologia, um verdadeiro golfo onde foram desaguar todas as superstições e mitos da antiguidade clássica e dos povos bárbaros da Europa, a crença no basilisco foi das mais radicadas.

Bruneto Latini, no século XIII no seu livro do Tesouro a ele se referia nos seguintes termos: "O basilisco, lagartão tremendo, rei dos ofídeos, envenena o ar com a simples presença". As emanações do corpo eram suficientes para matar as aves que perto dele voavam e em raio não pequeno.

E no século seguinte em Basiléia (que aliás tinha como brasão um basilisco, talvez por mera assonância das duas palavras) deu-se um fato, noticia-nos Ruffat, que mostra bem a que ponto chegou a crença popular e mesmo sacerdotal nos fabulosos animais. "Um galo suspeito, acusado de ter posto um ovo que chocado por um sapo deu nascimento a um basilisco foi publicamente queimado pelo carrasco".

O que não era de admirar-se entre as pessoas incultas e leigas pois os autores eruditos do começo da era cristã que constituiam a ciência medieval, e seus discípulos afirmavam categoricamente a existência e os perigos do basilisco.

Plínio, dizia que ele matava o homem com o olhar e Galeno, o mestre de Pérgamo (De Theriaca) também afirmava.

Avicena, o médico árabe, precisava que as outras serpentes fugiam do basilisco porque ele era pestilencial e mortal. Ulisses Aidrovandi em 1640 repetia que o basilisco com o seu olhar petrificava as vítimas.

E nessa companhia os sábios lidos e sabidos da Idade Média: Dioscorides, Nicandro, Solino, Eliano que o descreveram com minúcias, embora nem sempre sob a mesma forma.

Mas a lenda e o salto vêm ainda de mais longe, no tempo e no espaço.

Desde a antiguidade romana e desde a grega conheciam-se reproduções do basilisco e embora ligeiramente Aristóteles a ele se referiu.

No Egito antigo e basilisco também chamado "urso" era o símbolo da eternidade e da destruição porque matando a todos os outros animais a ele só estava reservada a vida e a morte.

E entre os hebreus devia ser crença comuníssima pois é citado em várias passagens da Bíblia:

"No seu fim morderá como a cobra e como o basilisco picará" (Provérbios – XXIII-32), "Porque ele que envio entre vos serpentes e basiliscos contra os quais não há encantamento e vos morderão, diz o Senhor" (Jeremias – VIII-17).

E se pudéssemos ir ainda mais longe nas civilizações que precederam a egípcios, hebreus, gregos e romanos, na Acádia e Suméria, certamente iríamos encontrar também a lenda deste animal fabuloso de uma ancianidade e universalidade igual à dos lobisomens e de superstições milenares e mundiais como a do mau olhado e da jetatura.



(Brandão, Téo. "O basilisco". Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 20 de julho de 1952, supl. lit., p.1, 4)

Jangada Brasil © 1998-2002