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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Fui direto à letra M e debalde procurei a palavra mágica. Macumba, macuru, macunaíma
lá estavam. Maculelê, não. O Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da
Câmara Cascudo, lançado agora pelo Instituto Nacional do Livro, antes de transmitir-me
uma idéia de conjunto do trabalho admirável, havia reacendido em mim a fascinação de
um dos velhos mistérios de minha cidade na Bahia. E abrira-me a leve esperança, logo
desfeita, de um esclarecimento que já não sei a quem pedir.
Mestre Cascudo adverte, entre escrupuloso e modesto, que o seu Dicionário, para
quem deseje fazer o recenseamento das omissões e não a análise da obra realizada, está
incompleto. Não deixo de apontar uma omissão. Talvez o maculelê não merecesse um
verbete, muito menos o Lindo-Amor com a sua roupagem bizarra de papel de seda pedindo
dinheiro para a festa de Dois-Dois:
Ô lindo-amor, lindo-amor
São Cosme São Damião
É um cravo, é uma flor
O maculelê começava a fascinar-nos pela sugestão de mistério do nome africano, cuja
significação nunca pude alcançar por mais que indagasse. Depois era a fascinação da
dança bárbara, monopolizada por uma família de pretos que permaneceu pura, na cor, no
sangue e nos costumes, como os antepassados que vieram da África para fazer a opulência
e também o enterro dos engenhos de açúcar. o negro Popó, de bíceps enormes e beiços
grossos, que se abriam para a gente comum sorriso de bondade infantil, foi uma das minhas
invejas de menino, tocando os burros sonolentos do bondinho que levava passageiro para o
vapor da madrugada, vencendo simbolicamente um magote de pretos na capoeira dos domingos
de festa ou dirigindoo maculelê.
Principalmente dirigindoo maculelê, com uma gravidade que estava longe de me parecer
ingênua, um domínio de si e dos outros, uma graça benevolente e um ar majestoso que só
podiam ser coisas de rei... Para nós, era um rei africano exilado no massapê de Santo
Amaro; e o filho dele, um negrinho da nossa idade mas que não se misturava conosco, era
um príncipe que todos invejávamos, aureolado com o prestígio do pai e por ele iniciado
nos segredos da capoeira.
Nos últimos dias de janeiro, quando se intensificavam os preparativos da grande festa da
padroeira da cidade, a 2 de fevereiro, era esperar na praça da Purificação, diante da
bela matris iluminada, que aí surgia o maculelê. Dez ou quinze negros vestidos em
calções brancos de algodão, os beiços alargados com uma pintura de vermelho sangrento,
cada qual manejando dois bastões de madeira que se cruzavam em choques curtos e
rítmicos, fincavam no chão de conchas da praça um mastro de cuja ponta pendia uma
estampa de Nossa Senhora da Conceição. E formava-se o círculo reverente para a
puvação, que na África era dirigida, segundo a tradição que nos transmitiu Popó, a
uma serpente:
Nós somos negros da Catanda de Luanda
A Conceição viemos louvar
Alambaê... ê... ê... ê!
Alambaê... ê... ê... á!
Tinham vindo até ali com outra cantiga, parando em portas conhecidas para prevenir as
despesas do ano vindouro:
Ê, ê, maculelê
Abre a porta que eu já cheguei
Na praça, em frente ao mastro, mas agora indiferente à santa, a roda amplia-se, no
centro está o mestre cujos bastões são maiores e cuja figura recebe a reverência dos
outros. E louvando à Conceição, no ritmo seco da madeira e de pequenos tambores, uma
corda estira-se de repente e laça um dos figurantes, que tenta fugir e afinal submete-se
ao nó como um boi manso. Nesse instante o canto intensifica-se num clamor, amiuda-se o
ritmo dos bastões em choque. Mas o chefe da tribo esta foi a explicação da
figura do mestre dada pelo próprio Popó ao meu irmão Eliezer reprova o
aprisionamento, pois volta-se energicamente sobre os calcanhares e distribui golpes a que
ninguém revida, limitando-se todos a defender-se com pulos coreográficos e cruzando os
bastões acima da cabeça. Terminada a luta e liberto o negro do laço, o grupo arriba
para empreender a jornada de despedida:
Quando eu vou membora, olé
Todo mundo chora, olé
Brancos e mulatos, no carnaval, às vezes pintam-se de preto para imitar o auto bárbaro e
maravilhoso. Com aquela força sugestiva, entretanto, o maculelê só é realizado pela
família de Popó, desde o seu bisavô até o príncipe seu filho, que já está sendo
preparado para tomar a chefia.
(Sales, Heraclio. "Maculelê". Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 7 de
outubro de 1954) |
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