trans.gif (60 bytes)
trans1.gif (55 bytes)

Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Festa do Divino, por João Chiarini.

setaquad.gif (95 bytes)O jongo de São Luiz do Paraitinga, por Benedito Sousa Pinto.

setaquad.gif (95 bytes)Maculelê, por Heraclio Sales.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


MACULELÊ

Heráclio Sales


Fui direto à letra M e debalde procurei a palavra mágica. Macumba, macuru, macunaíma lá estavam. Maculelê, não. O Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, lançado agora pelo Instituto Nacional do Livro, antes de transmitir-me uma idéia de conjunto do trabalho admirável, havia reacendido em mim a fascinação de um dos velhos mistérios de minha cidade na Bahia. E abrira-me a leve esperança, logo desfeita, de um esclarecimento que já não sei a quem pedir.

Mestre Cascudo adverte, entre escrupuloso e modesto, que o seu Dicionário, para quem deseje fazer o recenseamento das omissões e não a análise da obra realizada, está incompleto. Não deixo de apontar uma omissão. Talvez o maculelê não merecesse um verbete, muito menos o Lindo-Amor com a sua roupagem bizarra de papel de seda pedindo dinheiro para a festa de Dois-Dois:

Ô lindo-amor, lindo-amor
São Cosme São Damião
É um cravo, é uma flor

O maculelê começava a fascinar-nos pela sugestão de mistério do nome africano, cuja significação nunca pude alcançar por mais que indagasse. Depois era a fascinação da dança bárbara, monopolizada por uma família de pretos que permaneceu pura, na cor, no sangue e nos costumes, como os antepassados que vieram da África para fazer a opulência e também o enterro dos engenhos de açúcar. o negro Popó, de bíceps enormes e beiços grossos, que se abriam para a gente comum sorriso de bondade infantil, foi uma das minhas invejas de menino, tocando os burros sonolentos do bondinho que levava passageiro para o vapor da madrugada, vencendo simbolicamente um magote de pretos na capoeira dos domingos de festa ou dirigindoo maculelê.

Principalmente dirigindoo maculelê, com uma gravidade que estava longe de me parecer ingênua, um domínio de si e dos outros, uma graça benevolente e um ar majestoso que só podiam ser coisas de rei... Para nós, era um rei africano exilado no massapê de Santo Amaro; e o filho dele, um negrinho da nossa idade mas que não se misturava conosco, era um príncipe que todos invejávamos, aureolado com o prestígio do pai e por ele iniciado nos segredos da capoeira.

Nos últimos dias de janeiro, quando se intensificavam os preparativos da grande festa da padroeira da cidade, a 2 de fevereiro, era esperar na praça da Purificação, diante da bela matris iluminada, que aí surgia o maculelê. Dez ou quinze negros vestidos em calções brancos de algodão, os beiços alargados com uma pintura de vermelho sangrento, cada qual manejando dois bastões de madeira que se cruzavam em choques curtos e rítmicos, fincavam no chão de conchas da praça um mastro de cuja ponta pendia uma estampa de Nossa Senhora da Conceição. E formava-se o círculo reverente para a puvação, que na África era dirigida, segundo a tradição que nos transmitiu Popó, a uma serpente:

Nós somos negros da Catanda de Luanda
A Conceição viemos louvar
Alambaê... ê... ê... ê!
Alambaê... ê... ê... á!

Tinham vindo até ali com outra cantiga, parando em portas conhecidas para prevenir as despesas do ano vindouro:

Ê, ê, maculelê
Abre a porta que eu já cheguei

Na praça, em frente ao mastro, mas agora indiferente à santa, a roda amplia-se, no centro está o mestre cujos bastões são maiores e cuja figura recebe a reverência dos outros. E louvando à Conceição, no ritmo seco da madeira e de pequenos tambores, uma corda estira-se de repente e laça um dos figurantes, que tenta fugir e afinal submete-se ao nó como um boi manso. Nesse instante o canto intensifica-se num clamor, amiuda-se o ritmo dos bastões em choque. Mas o chefe da tribo — esta foi a explicação da figura do mestre dada pelo próprio Popó ao meu irmão Eliezer — reprova o aprisionamento, pois volta-se energicamente sobre os calcanhares e distribui golpes a que ninguém revida, limitando-se todos a defender-se com pulos coreográficos e cruzando os bastões acima da cabeça. Terminada a luta e liberto o negro do laço, o grupo arriba para empreender a jornada de despedida:

Quando eu vou m’embora, olé
Todo mundo chora, olé

Brancos e mulatos, no carnaval, às vezes pintam-se de preto para imitar o auto bárbaro e maravilhoso. Com aquela força sugestiva, entretanto, o maculelê só é realizado pela família de Popó, desde o seu bisavô até o príncipe seu filho, que já está sendo preparado para tomar a chefia.



(Sales, Heraclio. "Maculelê". Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1954)

Jangada Brasil © 1998-2002