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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Festa do Divino, por João Chiarini.

setaquad.gif (95 bytes)O jongo de São Luiz do Paraitinga, por Benedito Sousa Pinto.

setaquad.gif (95 bytes)Maculelê, por Heraclio Sales.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O JONGO DE SÃO LUIZ DO PARAITINGA

Benedito de Sousa Pinto


Em dias determinados, reuniam-se os pretos do município para os festejos na cidade. O dia mais importante para eles era e ainda continua sendo o 13 de maio, pela comemoração da grande data da Lei Áurea: - a libertação dos escravos.

De noite, em um dos largos da cidade, organizavam a tradicional jongada, sendo o local preferido onde hoje é o campo de futebol.

Os instrumentos usados eram os seguintes:

TAMBU – Instrumento feito de um tronco oco com 1 metro de altura, mais ou menos, tampado com couro no lado de cima. O tocador trazia o tambu amarrado por uma correia a cintura.

CANDONGUEIRA – Instrumento igual ao tambu, porém menor, e que tocado tinha som que combinava com aquele.

Para afinar esses instrumentos os pretos esquentavam-nos ao fogo até ficarem "temperados", termo que aplicavam para substituir afinados.

CORUNGA – Uma combuca furada, com uma corda de viola que tocava sobre a barriga descoberta, produzindo som diferente ao dos outros instrumentos.

PUITA – Um barril pequeno, que no fundo tinha amarrado um pedaço de taquara do reino. O tocador deitava-se para tocar e com a mão molhada puxava a taquara e o som diferente e rouco saía.

Esses instrumentos eram tocados sob o compasso que marcava o tocador de "anguaia".

ANGUAIA – É um jacazinho de taquara que trás dentro pedrinhas e folhas imitando os chamados cracachás que vendem para as crianças brincarem.

A dança é de roda, formada por pessoas de ambos os sexos e idades, dançada com todo respeito.

Os dançadores ao som dos instrumentos e entoando os cânticos próprios dançavam cumprimentando o companheiro da frente e de trás, fazendo o seu balanceado em frente do companheiro, imitando o "balancé" da quadrilha antiga, comparação já feita por Cornélio Pires. Ao fazer esses balanceados, movimentam a roda.

Quando o povo assistente apertava os dançadores um encarregado da dança gritava "abre a roda meu povo".

Para começar a dança, um preto batia no tambu. À esse sinal todos calavam. Começava ele o seu "ponto", que é uma imitação de charada.

O tocador de tambu dava três pancadas com a mão direita sobre o couro do instrumento. O cantador se adiantava na "Reza do ponto" como eles chamavam, e ao soltar o mesmo o tacador da anguaia dava o sinal. Os instrumentos tocavam inclusive a puita. Os dançadores dançavam e todos cantavam, até mesmo os assistentes.

As últimas frases do ponto terminavam com uma pergunta que era repetida na cantoria, servindo como coro, até que outro preto decifrasse o ponto. O decifrador chegava-se ao tocador de tambu, pedia licença e batia com suas mãos no tambu, sendo aparteado por muitos que diziam: - "Sorte o ponto". Todos paravam e ficavam atentos a reza do novo ponto que às vezes era dado por um preto de outra "povaria", como diziam eles.

O preto que soltava o ponto era chamado pelos companheiros de "GALO".

Dentre os pontos podemos destacar os seguintes: "Eu vim de tão longe, desci e subi o morro, lá no céu trovejava, passei rio e bebi muita água, tomei sol e aqui na povoaria cheguei tarde quando o "Galo da Cachoeira", já arrastava as asas provocando os outros galos. Eu saúdo o galo da cachoeira, saúdo senhor São Luíz e todos desta povoaria e agora pergunto mesmo depois de tudo isto: "Senhor Festeiro a Chuva onde é que está?".

A decifração deste ponto é a seguinte: é costume durante as danças os festeiros distribuirem pinga aos dançadores. A pessoa que se acha meio embriagada ou "meio queimada" no dizer deles toma o apelido de "Está na Chuva". A pergunta que se acha na última parte do ponto é: "senhor festeiro a chuva onde é que está?", equivale a dizer: Senhor festeiro nós estamos querendo beber.

Outro ponto sobre o mesmo assunto foi este: "A canoa está no rio mais está morta de sede". O que equivale a dizer: A pinga está na casa do festeiro mas os dançadores estão sem beber.

Outro ponto terminava com as palavras: "O galo tá no terreiro mas ninguém vem tratá dele. Assim é que faziam pontos lindos e com diversos assuntos.

Os galos mais afamados de São Luíz no reconhecer dos companheiros eram: Tio Mariano; O Alvaro, marido da Ana Fideles e o José Paulo. Das mulheres que dançavam e ainda dançam podemos salientar a "Tia Tereza" que embora tenha idade avançada, amanhece no JONGO. Tia Tereza representa até hoje a Rainha do 13 de Maio, ladeada pela filha Anfrorosa. Reside na última casa do Alto do Cruzeiro, ao lado da estrada da antiga para Ubatuba.

Assim eram repetidos os pontos, os toques e a dança até quando os sinos da Matriz tocavam para a primeira missa, que todos iam assistir.

(Benedito Sousa Pinto "O jongo em São Luiz do Paraitinga". Correio Folclórico nº 45. Correio Paulistano, São Paulo, 04 de fevereiro de 1959)

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