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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
O JONGO DE SÃO LUIZ DO PARAITINGA |
Em dias determinados, reuniam-se os pretos do município para os festejos na cidade. O dia
mais importante para eles era e ainda continua sendo o 13 de maio, pela comemoração da
grande data da Lei Áurea: - a libertação dos escravos.
De noite, em um dos largos da cidade, organizavam a tradicional jongada, sendo o local
preferido onde hoje é o campo de futebol.
Os instrumentos usados eram os seguintes:
TAMBU Instrumento feito de um tronco oco com 1 metro de altura, mais ou menos,
tampado com couro no lado de cima. O tocador trazia o tambu amarrado por uma correia a
cintura.
CANDONGUEIRA Instrumento igual ao tambu, porém menor, e que tocado tinha som que
combinava com aquele.
Para afinar esses instrumentos os pretos esquentavam-nos ao fogo até ficarem
"temperados", termo que aplicavam para substituir afinados.
CORUNGA Uma combuca furada, com uma corda de viola que tocava sobre a barriga
descoberta, produzindo som diferente ao dos outros instrumentos.
PUITA Um barril pequeno, que no fundo tinha amarrado um pedaço de taquara do
reino. O tocador deitava-se para tocar e com a mão molhada puxava a taquara e o som
diferente e rouco saía.
Esses instrumentos eram tocados sob o compasso que marcava o tocador de
"anguaia".
ANGUAIA É um jacazinho de taquara que trás dentro pedrinhas e folhas imitando os
chamados cracachás que vendem para as crianças brincarem.
A dança é de roda, formada por pessoas de ambos os sexos e idades, dançada com todo
respeito.
Os dançadores ao som dos instrumentos e entoando os cânticos próprios dançavam
cumprimentando o companheiro da frente e de trás, fazendo o seu balanceado em frente do
companheiro, imitando o "balancé" da quadrilha antiga, comparação já feita
por Cornélio Pires. Ao fazer esses balanceados, movimentam a roda.
Quando o povo assistente apertava os dançadores um encarregado da dança gritava
"abre a roda meu povo".
Para começar a dança, um preto batia no tambu. À esse sinal todos calavam. Começava
ele o seu "ponto", que é uma imitação de charada.
O tocador de tambu dava três pancadas com a mão direita sobre o couro do instrumento. O
cantador se adiantava na "Reza do ponto" como eles chamavam, e ao soltar o mesmo
o tacador da anguaia dava o sinal. Os instrumentos tocavam inclusive a puita. Os
dançadores dançavam e todos cantavam, até mesmo os assistentes.
As últimas frases do ponto terminavam com uma pergunta que era repetida na cantoria,
servindo como coro, até que outro preto decifrasse o ponto. O decifrador chegava-se ao
tocador de tambu, pedia licença e batia com suas mãos no tambu, sendo aparteado por
muitos que diziam: - "Sorte o ponto". Todos paravam e ficavam atentos a reza do
novo ponto que às vezes era dado por um preto de outra "povaria", como diziam
eles.
O preto que soltava o ponto era chamado pelos companheiros de "GALO".
Dentre os pontos podemos destacar os seguintes: "Eu vim de tão longe, desci e subi o
morro, lá no céu trovejava, passei rio e bebi muita água, tomei sol e aqui na povoaria
cheguei tarde quando o "Galo da Cachoeira", já arrastava as asas provocando os
outros galos. Eu saúdo o galo da cachoeira, saúdo senhor São Luíz e todos desta
povoaria e agora pergunto mesmo depois de tudo isto: "Senhor Festeiro a Chuva onde é
que está?".
A decifração deste ponto é a seguinte: é costume durante as danças os festeiros
distribuirem pinga aos dançadores. A pessoa que se acha meio embriagada ou "meio
queimada" no dizer deles toma o apelido de "Está na Chuva". A pergunta que
se acha na última parte do ponto é: "senhor festeiro a chuva onde é que
está?", equivale a dizer: Senhor festeiro nós estamos querendo beber.
Outro ponto sobre o mesmo assunto foi este: "A canoa está no rio mais está morta de
sede". O que equivale a dizer: A pinga está na casa do festeiro mas os dançadores
estão sem beber.
Outro ponto terminava com as palavras: "O galo tá no terreiro mas ninguém vem
tratá dele. Assim é que faziam pontos lindos e com diversos assuntos.
Os galos mais afamados de São Luíz no reconhecer dos companheiros eram: Tio Mariano; O
Alvaro, marido da Ana Fideles e o José Paulo. Das mulheres que dançavam e ainda dançam
podemos salientar a "Tia Tereza" que embora tenha idade avançada, amanhece no
JONGO. Tia Tereza representa até hoje a Rainha do 13 de Maio, ladeada pela filha
Anfrorosa. Reside na última casa do Alto do Cruzeiro, ao lado da estrada da antiga para
Ubatuba.
Assim eram repetidos os pontos, os toques e a dança até quando os sinos da Matriz
tocavam para a primeira missa, que todos iam assistir.
(Benedito Sousa Pinto "O jongo em São Luiz do
Paraitinga". Correio Folclórico nº 45. Correio
Paulistano, São Paulo, 04 de fevereiro de 1959) |
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