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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)Festa do Divino, por João Chiarini.

setaquad.gif (95 bytes)O jongo de São Luiz do Paraitinga, por Benedito Sousa Pinto.

setaquad.gif (95 bytes)Maculelê, por Heraclio Sales.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


"FESTA DO DIVINO"
- Faz parte do folclore dos bandeirantes

João Chiarini


A Festa do Divino, de Anhembi, que compreende o "Pouso" e o "Encontro das Bandeiras", este nas águas do Tietê, na altura da ponte, que liga Piracicaba à essa cidade, faz parte do folclore dos bandeirantes, porque foi concretizada por estes mesmos caminheiros há quase uma centena de anos. Nos implementos dos "marinheiros", dos "foliões", dos "trabuqueiros", dos "bandeireiros", há boa coisa do bandeirismo.

Os "foliões" é que dão o sinal, que o Divino terá a sua festa dentro de pouco tempo.

Saem compostos pelo "modinheiro" (violeiro), que é também, o "bandeireiro" e por três meninos: um tocando o adufe: outro, o triângulo; e o terceiro, caracachá.

Vão montados em animais. E cantando e tocando chegam às portas de todas as casas, solicitando aos seus donos: pouso, comida, ofertas para as "Casas da Festa". Aparecem trajados com roupa branca. Na cabeça trazem um gorro bretão, com um "pompom" vermelho na ponta. Os punhos, a faixa da cintura e a gola também são da mesma cor.

Através do "pouso do Divino" é que depende realmente o sucesso da "festa". Quanto mais angariarem nas suas excursões, que varam municípios, mais e mais dias as "Casas da Festa" darão de comer ao público. Fornecerão comida a qualquer um. Não há graduação. Nem sexo. Nem idade e nem cor. Em Anhembi, na semana última de 22 a 28, as duas "Casas da Festa" alimentaram aproximadamente 5.000 pessos. A maioria vinda de outras cidades: Laranjal Paulista, Conchas, Tietê, Tatuí, Remédios, Bofete, Porangaba, Botucatu, Pereiras, Cesário Lange, Boituva, Cerquilho, etc.

O "pouso" chega três a quatro semanas antes. As "Casas da Festa" há meses já vem recebendo as ofertas. No geral cereais, aves, suínos, caprinos, lenha, etc.

A sua função cessa com o retorno ao ponto de partida. É necessário frisar que o "pouso" à medida das necessidades faz o percurso pelos rios.

No sábado, de manhã, após a missa, é que os partcipantes da mesma transportam o "mastro do padroeiro" da cidade. Levam-no sem tocá-lo com as mãos. Passam lenços e dois a dois transportam-no. No "levantamento" ainda não se usam as mãos. É de cores brancas e cinza, pintadas de pedaço a pedaço e alternadamente. Tem nove metros.

À tarde, quando desce a procissão, já à beira do rio Tietê se acham as "canoas cargueiras" e a do "Divino".

A primeira, com uma tripulação de 24 "irmãos-marinheiros", inclusive o "piloto", o terceiro "trabuqueiro" e o "proeiro".

A segunda, com 50 elementos composta do "piloto", do primeiro e segundo "trabuqueiros", dos "foliões", que absolutamente não tocam, sendo que o "modinheiro", dará com um rojão o sinal da "saranga", do "bandeireiro", do diretor da Irmandade do Divino, de roupa rosa, com punhos, faixa de cintura, barrete do gorro, gola e "pompons" amarelos.

O "foguetório" da procissão faz estourar um rojão. É o sinal convencionado para que a "Canoa do Divino" largue a margem e desca. Os seus "trabuqueiros" respondem. Lá vem, acima da comprida ponte, a "Canoa do Divino". O "piloto", o "bandeireiro" e o diretor empunham "bandeiras do Divino". Todas carregadas de promessas, feitas por ex-votos. Ouve-se a "harmonia", amplo, impressionante, magistral coro de vozes que entoa em "levantes" pianíssimos.

O "foguetório" da "Canoa Cargueira" dá, por um rojão que espouca, o sinal de sua partida.

E vem acalentada pela sua "harmonia". Já na ilha, abaixo da ponte, a do "Divino" faz a virada e ancora. Começa a "saranga". O coro daqui, responde ao da outra barca e assim sucessivamente.

A população, uma grande multidão, está atônita na margem esquerda. Vêem-se os andores e a banda de música. Os "trabuqueiros" carregam de pólvora as suas velhíssimas armas e disparam-nas.

O foguete soltado pelo "modinheiro" significa o "Encontra das Bandeiras". As baterias explodem do barranco. A retreta executa qualquer coisa vibrante. Instrumentos de sopro e de percussão fazem também a sua batalha.

A margem estão centenas de "promesseiros", quase todos carregam seus "ex-votos". Uns fitas amarelas (desespero); outros verdes (esperança); outros mais, brancas (paz). Pessoas outras, para cumprirem promessas, desejam levar uma das "bandeiras do Divino", há os que irão prender as suas fotos às fitas e milhares querem entregar as suas esmolas.

Formam-se paralelamente duas filas de "marinheiros" misturando-se os homens da "cargueira" com a do "Divino". A frente delas estão os três "bandeireiros", um atrás do outro. Saltarão os corpos dos homens, mulheres e crianças estendidas ao solo, de espaço em espaço, em fileiras. Não se lhes vê o rosto, o corpo ou mesmo os calçados. Estão enrolados na "mortalha".

O primeiro e o segundo "trabuqueiros" "salvam" (saúdam) o início da cerimônia. O diretor da Irmandade, que é o primeiro "bandeireiro" e "esmolér", faz por sobre o corpo, um gesto em cruz, recolhe uma das esmolas que estão sobre cada corpo, deixando quando existem outras, para os "bandeireiros" e "marinheiros" apanharem.

As fitas, as fotografias, os beijos às "bandeiras" vão sendo realizados e os transportes destas por civis são cumpridos. Quando o último par de "marinheiros" inicia a passagem da "mortalha", o terceiro "trabuqueiro" detona a sua arma e cerra a fila.

O "mastro do Divino", de nove metros, em cores azul e vermelha, pintadas em faixas está sobre pilhas de tijolos.

Não se lhe pode tocar também. Os "marinheiros" postados em ambos os lados, traspassam-no com lenços, enquanto as palas dos remos o afirmam. Com um apito, pelo diretor, é ele erguido e levado. Os "trabuqueiros" com calça, túnica e "casquete" azuis fazem disparos à miúdo. Seguem: o resto das tripulações, a banda, a procissão de andores e o povo, formado por milhares de pessoas. Do alto ainda se avistam as "Canoas" compridas e de canela, azuis pelo tempo. São de 25 metros cada, largas, esculpidas a fogo, com bombordo e boreste, com 3 barcos, com popa, proa e leme.

Em frente à igreja, na igrejinha lendária de Anhembi há o "levantamento do mastro". As palas suspendem-no. Aqui é que se nota bem a importância dos seus longos cabos, que o vão retendo impressionantemente. Está já de pé e com a imagem do Divino. Fora erguido sem ser tocado pelas mãos. Ao seu lado existem muitos outros e de outras festas.

A banda e os "marinheiros" dirigem-se à "Casa da Festa", do sábado, que termina de dar a comida neste dia. No domingo, é a vez da outra. Na igreja há reza. No dia seguinte haverá procissões e a escolha dos dois "festeiros" para o ano futuro.

No palco funcionam 76 barraquinhas de diversões, tourada, parque, um "mundo" de atrações.


(Chiarini, João. "Festa do Divino". A Gazeta, São Paulo, 06 de junho de 1950)

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