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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
"FESTA DO DIVINO" - Faz parte do folclore
dos bandeirantes |
A Festa do Divino, de Anhembi, que compreende o "Pouso" e o "Encontro das
Bandeiras", este nas águas do Tietê, na altura da ponte, que liga Piracicaba à
essa cidade, faz parte do folclore dos bandeirantes, porque foi concretizada por estes
mesmos caminheiros há quase uma centena de anos. Nos implementos dos
"marinheiros", dos "foliões", dos "trabuqueiros", dos
"bandeireiros", há boa coisa do bandeirismo.
Os "foliões" é que dão o sinal, que o Divino terá a sua festa dentro de
pouco tempo.
Saem compostos pelo "modinheiro" (violeiro), que é também, o
"bandeireiro" e por três meninos: um tocando o adufe: outro, o triângulo; e o
terceiro, caracachá.
Vão montados em animais. E cantando e tocando chegam às portas de todas as casas,
solicitando aos seus donos: pouso, comida, ofertas para as "Casas da Festa".
Aparecem trajados com roupa branca. Na cabeça trazem um gorro bretão, com um
"pompom" vermelho na ponta. Os punhos, a faixa da cintura e a gola também são
da mesma cor.
Através do "pouso do Divino" é que depende realmente o sucesso da
"festa". Quanto mais angariarem nas suas excursões, que varam municípios, mais
e mais dias as "Casas da Festa" darão de comer ao público. Fornecerão comida
a qualquer um. Não há graduação. Nem sexo. Nem idade e nem cor. Em Anhembi, na semana
última de 22 a 28, as duas "Casas da Festa" alimentaram aproximadamente 5.000
pessos. A maioria vinda de outras cidades: Laranjal Paulista, Conchas, Tietê, Tatuí,
Remédios, Bofete, Porangaba, Botucatu, Pereiras, Cesário Lange, Boituva, Cerquilho, etc.
O "pouso" chega três a quatro semanas antes. As "Casas da Festa" há
meses já vem recebendo as ofertas. No geral cereais, aves, suínos, caprinos, lenha, etc.
A sua função cessa com o retorno ao ponto de partida. É necessário frisar que o
"pouso" à medida das necessidades faz o percurso pelos rios.
No sábado, de manhã, após a missa, é que os partcipantes da mesma transportam o
"mastro do padroeiro" da cidade. Levam-no sem tocá-lo com as mãos. Passam
lenços e dois a dois transportam-no. No "levantamento" ainda não se usam as
mãos. É de cores brancas e cinza, pintadas de pedaço a pedaço e alternadamente. Tem
nove metros.
À tarde, quando desce a procissão, já à beira do rio Tietê se acham as "canoas
cargueiras" e a do "Divino".
A primeira, com uma tripulação de 24 "irmãos-marinheiros", inclusive o
"piloto", o terceiro "trabuqueiro" e o "proeiro".
A segunda, com 50 elementos composta do "piloto", do primeiro e segundo
"trabuqueiros", dos "foliões", que absolutamente não tocam, sendo
que o "modinheiro", dará com um rojão o sinal da "saranga", do
"bandeireiro", do diretor da Irmandade do Divino, de roupa rosa, com punhos,
faixa de cintura, barrete do gorro, gola e "pompons" amarelos.
O "foguetório" da procissão faz estourar um rojão. É o sinal convencionado
para que a "Canoa do Divino" largue a margem e desca. Os seus
"trabuqueiros" respondem. Lá vem, acima da comprida ponte, a "Canoa do
Divino". O "piloto", o "bandeireiro" e o diretor empunham
"bandeiras do Divino". Todas carregadas de promessas, feitas por ex-votos.
Ouve-se a "harmonia", amplo, impressionante, magistral coro de vozes que entoa
em "levantes" pianíssimos.
O "foguetório" da "Canoa Cargueira" dá, por um rojão que espouca, o
sinal de sua partida.
E vem acalentada pela sua "harmonia". Já na ilha, abaixo da ponte, a do
"Divino" faz a virada e ancora. Começa a "saranga". O coro daqui,
responde ao da outra barca e assim sucessivamente.
A população, uma grande multidão, está atônita na margem esquerda. Vêem-se os
andores e a banda de música. Os "trabuqueiros" carregam de pólvora as suas
velhíssimas armas e disparam-nas.
O foguete soltado pelo "modinheiro" significa o "Encontra das
Bandeiras". As baterias explodem do barranco. A retreta executa qualquer coisa
vibrante. Instrumentos de sopro e de percussão fazem também a sua batalha.
A margem estão centenas de "promesseiros", quase todos carregam seus
"ex-votos". Uns fitas amarelas (desespero); outros verdes (esperança); outros
mais, brancas (paz). Pessoas outras, para cumprirem promessas, desejam levar uma das
"bandeiras do Divino", há os que irão prender as suas fotos às fitas e
milhares querem entregar as suas esmolas.
Formam-se paralelamente duas filas de "marinheiros" misturando-se os homens da
"cargueira" com a do "Divino". A frente delas estão os três
"bandeireiros", um atrás do outro. Saltarão os corpos dos homens, mulheres e
crianças estendidas ao solo, de espaço em espaço, em fileiras. Não se lhes vê o
rosto, o corpo ou mesmo os calçados. Estão enrolados na "mortalha".
O primeiro e o segundo "trabuqueiros" "salvam" (saúdam) o início da
cerimônia. O diretor da Irmandade, que é o primeiro "bandeireiro" e
"esmolér", faz por sobre o corpo, um gesto em cruz, recolhe uma das esmolas que
estão sobre cada corpo, deixando quando existem outras, para os "bandeireiros"
e "marinheiros" apanharem.
As fitas, as fotografias, os beijos às "bandeiras" vão sendo realizados e os
transportes destas por civis são cumpridos. Quando o último par de
"marinheiros" inicia a passagem da "mortalha", o terceiro
"trabuqueiro" detona a sua arma e cerra a fila.
O "mastro do Divino", de nove metros, em cores azul e vermelha, pintadas em
faixas está sobre pilhas de tijolos.
Não se lhe pode tocar também. Os "marinheiros" postados em ambos os lados,
traspassam-no com lenços, enquanto as palas dos remos o afirmam. Com um apito, pelo
diretor, é ele erguido e levado. Os "trabuqueiros" com calça, túnica e
"casquete" azuis fazem disparos à miúdo. Seguem: o resto das tripulações, a
banda, a procissão de andores e o povo, formado por milhares de pessoas. Do alto ainda se
avistam as "Canoas" compridas e de canela, azuis pelo tempo. São de 25 metros
cada, largas, esculpidas a fogo, com bombordo e boreste, com 3 barcos, com popa, proa e
leme.
Em frente à igreja, na igrejinha lendária de Anhembi há o "levantamento do
mastro". As palas suspendem-no. Aqui é que se nota bem a importância dos seus
longos cabos, que o vão retendo impressionantemente. Está já de pé e com a imagem do
Divino. Fora erguido sem ser tocado pelas mãos. Ao seu lado existem muitos outros e de
outras festas.
A banda e os "marinheiros" dirigem-se à "Casa da Festa", do sábado,
que termina de dar a comida neste dia. No domingo, é a vez da outra. Na igreja há reza.
No dia seguinte haverá procissões e a escolha dos dois "festeiros" para o ano
futuro.
No palco funcionam 76 barraquinhas de diversões, tourada, parque, um "mundo" de
atrações.
(Chiarini, João. "Festa do Divino". A
Gazeta, São Paulo, 06 de junho de 1950) |
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