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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Comida tropeira, por Tom Maia.

setaquad.gif (95 bytes)Os insetos na alimentação, por Eurico Santos.

setaquad.gif (95 bytes)Tabuleiros de acarajés, por Rubens Rodrigues dos Santos.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


TABULEIROS DE ACARAJÉS

Rubens Rodrigues dos Santos


Salvador pode muito bem ser definida como a cidade das recordações. Suas igrejas antigas, por exemplo construídas em tão grande número e às vezes muito próximas umas das outras, evocam fatos ocorridos no passado, refletem tendências características de outras épocas.

Atestam o interesse demonstrado pela Companhia de Jesus, e de certa maneira também o interesse da corte portuguesa, pelo núcleo florescente da Colônia, que se tornava cada vez mais o centro de convergência de toda a produção dos engenhos de açúcar espalhados pelos arredores. Atestam, também, a especial atenção dedicada à cidade pelos catequistas alarmados, que percebiam os cultos pagãos africanos e os rituais bárbaros do gentio brasileiro misturando-se e expandindo-se cada vez mais, ao mesmo tempo que o insaciável colono português, despido de preconceitos e torturado pela falta de mulheres brancas, lançava-se em imoderadas aventuras amorosas, fecundando negras e índias e iniciando assim o processo de miscigenação ampla que hoje constitui uma das realidades étnicas mais características da Bahia. Atestam ainda a exclusiva formação católica do europeu que demandava o Brasil, onde "somente cristão podiam desembarcar e adquirir sesmarias" [1]. Atestam, enfim, o processo econômico existente naquela parte da Colônia, onde alguns capitães donos de engenhos, enriquecidos pela produção abundante de seus canaviais, tentavam algumas vezes aplacar astras do clero revoltado pelos desregramentos sexuais por eles praticados, erguendo igrejas, revestindo de ouro altares e imagens, importando da Europa toda sorte de aparatos religiosos com que pudessem adornar as abobadas, as colunas e os frontispícios. Talvez seja esta uma razão ainda pouco considerada, mas que influiu, até certo ponto, na construção de alguns templos católicos da Bahia, os quais foram, sendo erguidos mais como resultado de um complexo culposo do colono rico, que procurava comprar a peso de ouro o beneplácito descanso eterno de sua alma e de seu corpo. Descanso que se fazia no interior da própria igreja, onde o benfeitor era inumado em sepulturas rasas, embutidas nos pisos de pedras ou no mármore das paredes.

Os velhos solares, casarões amplos de portas muito abertas e janela arregaladas, recordam também a grandeza econômica da Bahia de antigamente. Recordam seus ricos proprietários, donos de muitas terras e senhores de inúmeros escravos, que viviam despoticamente, num "oligarquismo que se chocava muitas vezes com o clericalismo dos padres da Companhia de Jesus" [2]. Refletem, através de sua amplitude e riqueza, os lucros compensadores conseguidos com a monocultura extensiva da cana-de-açúcar, desenvolvida em todo o Nordeste e que durante vários séculos constituiu a base econômica da colônia. Uma agricultura que acarretou, no entanto, a par com as vantagens financeiras proporcionadas pela exportação do açúcar, os malefícios decorrentes da monotonia e exiguidade alimentar a que ficava submetido o colono, despreocupado com o plantio de outros gêneros, indiferente ao cultivo de frutas e legumes.

Não resta dúvida de que a influência dos hábitos alimentares do negro importado da África veio atenuar em parte esta deficiência, pois introduziu no regime alimentar brasileiro elementos ricos, principalmente em vitaminas, obtidos de culturas trazidas de seus países de origem. Esta contribuição "afirmou-se principalmente pela introdução do quiabo, pelo maior uso da banana, pela grande variedade na maneira de preparar a galinha e o peixe" [3]. Esta penetração dos hábitos africanos, porém, fez-se de maneira progressiva e muito lenta, encontrando sempre resistências as mais diversas. É natural que o senhor exercesse sobre seus escravos grande vigilância, não lhes permitindo o cultivo de roçados próprios onde pudessem desenvolver seus hábitos agrícolas. O colono dispunha do braço escravo como bem entendesse. E dispunha sempre de acordo com a mentalidade da época: dirigindo-o exclusivamente para a cultura da cana-de-açúcar, sem pensar nem mesmo na própria alimentação fornecida ao próprio escravo, pois era também constituída "quase exclusivamente de feijão com farinha e angu com toucinho" [4].

Foram, portanto, os elementos culinários africanos introduzidos na cozinha baiana, os temperos, as maneiras e hábitos trazidos para o Brasil pelos escravos procedentes da Costa da Mina e de Angola, que de maneira providencial vieram enriquecer o regime alimentar no Recôncavo. Contribuíram não só para o aumento do valor nutritivo da alimentação, como também para que surgissem muitas tendências novas, muitos aspectos diferentes na vida das populações litorâneas, alguns dos quais até hoje perduram. Surgiram novos personagens no drama alimentar nordestino. Surgiu exímias no preparo de toda sorte de pratos regionais; surgiram as vendedoras ambulantes, as baianas de saia ampla, blusa rendada e grandes argolas pendendo das orelhas, que se instalam durante o dia nas esquinas de maior movimento, nas praças principais, nas ruas e jardins mais freqüentados. Sentam-se sempre num pequeno banco e colocam à sua direita o fogareiro, onde aquecem a frigideira com azeite de dendê. A esquerda fica o caldeirão de alumínio, contendo a massa de feijão fradinho e mais o "caçuá" usado para transporte dos utensílios. Bem à sua frente ela coloca um tabuleiro retangular, apoiado numa armação facilmente desmontável, sempre forrado com papel de embrulho branco ou cor de rosa. Num dos cantos deste tabuleiro fica o pequeno caldeirão de molho forte, preparado com pimenta malagueta curtida no dendê, gengibre e camarão moído; num dos extremos amontoam-se os acarajés, redondos, dourados vertendo gordura, e no outro permanecem arrumados os abarás, envoltos em folhas de bananeira.

Ao se aproximar um comprador, a baiana apanha um acarajé, corta-o e entrega-o ao freguês. Se este deseja um abará, vai logo tirando o quitute, vai desembrulhando e comendo a massa clara e macia.

Tanto os abarás como os acarajés são preparados com a mesma massa de feijão fradinho, ralado com cuidado em pedras ásperas, de tal forma que a película que recobre os grãos se desfaça inteiramente. A massa é em seguida temperada com sal, pimenta e cebola. No caso do abará, pequenas porções desta massa esbranquiçada são envolvidas em pedaços de folha de bananeira e depois assadas lentamente em banho-maria. O acarajé, por sua vez, é preparado fritando a mesma massa de feijão fradinho no azeite de dendê bem quente.

Estes são os quitutes vendidos com mais freqüência pelas baianas de Salvador, existindo, no entanto, também, aquelas que oferecem outros pratos típicos da cozinha afro-brasileira. Algumas servem arroz com caruru ou efó, outras preparam vatapás e moquecas de peixe ou galinhas; outras ainda, vendem o apreciado sarapatel, preparado com miúdos de porco cortados em pedacinhos e depois cozidos com temperos diversos.

É justamente este exotismo da cozinha afro-brasileira, com suas fontes abundantes de vitaminas e calorias, com suas pimentas e seu azeite de dendê, com o amendoim, o gengibre, o coentro, o camarão e o peixe, que salva o povo baiano de um estado extremo de depauramento orgânico. Salva o baiano pobre, que nos cortiços do Pelourinho, nos casarões antigos dos arredores do Terreiro, nos casebres sórdidos que se erguem pelos arrabaldes distantes vive numa prosmicuidade inacreditável. Vive comendo escassamente, de maneira irregular e sem horários. Comendo um abará agora, um acarajé logo mais, um prato de arroz mole e moqueca de peixe quando houver dinheiro para tanto. E depois, para adoçar a boca ou enganar o estômago insatisfeito, um rolete de cana, uma cocada ou um simples pedaço de rapadura.


Notas:

1, 2, 3: Gilberto Freyre, Casa-grande e senzala.
4: Josué de Castro, Geografia da fome.



(Santos, Rubens Rodrigues dos. "Tabuleiros de acarajés". O Estado de São Paulo, São Paulo, 12 de fevereiro de 1955)

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