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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Comida tropeira, por Tom Maia.

setaquad.gif (95 bytes)Os insetos na alimentação, por Eurico Santos.

setaquad.gif (95 bytes)Tabuleiros de acarajés, por Rubens Rodrigues dos Santos.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


OS INSETOS NA ALIMENTAÇÃO

Eurico Santos


Os habitantes mais primitivos do Brasil aprenderam, com os índios, a comer quase todos os bichos, inclusive os insetos.

As narrativas dos primeiros cronistas e dos viajantes que perlustraram nossas plagas estão repletas de referências neste sentido.

Os mandacurus estudados por S. F. Hartt (Arq. Mus. Nac. 1885) comiam, além da carne de jibóia, jacaretinga, etc., muitos insetos, como gafanhotos, por exemplo.

Apanham-nos, diz Hartt, fazendo buracos na terra e enxotando-os para esses buracos. Espremem os intestinos, comem o resto do corpo cru ou cozido. Comem várias lagartas, bichos-de-coco e algumas formigas e certa espécies de cupins.

Hart teve o ensejo de ver uma senhora civilizada tirar a cabeça de uma saúva, mastigá-la e comê-la.

Animado pelo exemplo, fez o mesmo, e escreve, textualmente:

"Quando o inseto ficou esmagado entre meus dentes, a minha boca ficou invadida por um sabor um tanto forte de especiaria, assemelhando-se um pouco ao cravo".

Confessa o sábio etnólogo que tais formigas adicionadas ao molho de tucupi tornam-no delicioso.

A propósito do içá, escrevia Gabriel Soares que os brancos e mestiços a gabavam, comparando-a, em sabor, à passas de Alicante.

E o venerando padre Anchieta é mais positivo ainda quando escreveu:

"Quão deleitável é esta comida e como é saudável sabemô-la nós que a provamos". (Cartas jesuíticas, t.3, p.122).

Em certas regiões do país, ainda hoje são apreciados, pela gente do povo, as larvas de alguns coleópteros que vivem nos cocos de várias palmeiras, os chamados bichos-de-coco, inclusive no coco da baía.

Também são estimadas as lagartas de determinadas borboletas, inclusive uma que vive nos bambus, e da qual Saint’Hilaire experimentou o sabor, proclamando-o excelente. É o bicho-de-taquara.

Outra larva, gostosa sem dúvida, porque é sempre procurada, é uma gorducha que se encontra numa espécie de mamoeiro selvagem, o jacaracatiá, por isso chamado bicho-do-jaracatiá.

Os povos primitivos não procederam de outra maneira.

E os próprios gregos, já refinados, não se deliciavam com o "cossus", larvas gordas, como o bicho-de-coco, e que eram encontrados na madeira de seus pinheiros?

Os gafanhotos de que se alimentou São João Batista, ainda hoje, no mundo muçulmano, têm prestígio e é bem possível que os gregos deles fizessem largo consumo.

A Sociedade Nacional de Aclimação de França, um tanto antes da guerra, estava disposta a fazer com que seus membros tivessem conhecimento objetivo destes quitutes de insetos e ia oferecer-lhes, em seu banquete anual, alguns pratos inéditos, como hors-d’ouvres; gafanhotos (criquets d’Algérie); lagartas grelhadas (chenilles grillés) e o famoso cossus com os quais se deleitaram gregos e romanos.

Só por falta de hábito achamos esses quitutes incomíveis.

Os franceses, que têm paladar refinado e possuem a cozinha mais civilizada do mundo, comem com delícia o caramujo, logo que lhe chamem escargot.

E todos os povos do mundo não se deliciam ainda hoje com ostras e mariscos, que o homem das cavernas nos ensinou a comer?

Tulbert – Dumouthe, citado pelo Larousse gastronomique, acha que, de futuro, os homens encontrarão meios de utilizar todos os animais como alimento.

Toda a fauna será uma questão de jeito, e passará pelas caçarolas da cozinha e virá à mesa de jantar aceitavelmente condimentada.

Aceitavelmente condimentada, creio.

Com um bom molho, dizia gaiatamente um gourmet, sou capaz até de comer a minha sogra, que é carne de pescoço.


(Santos. Eurico. Histórias, lendas e folclore de nossos bichos, p.189-191)

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