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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
Registrado por Rodrigues
de Carvalho
(Cancioneiro do norte, 2ª ed., p.309-317) |
Agora eu quero contar
Uma história bem notável
Um sucesso admirável
Que custa se acreditar
Todos podem afirmar
Que comigo se passou
Muita gente observou
Os que eram meus vizinhos
Quando ouviram burburinhos
Quando o cavalo chegou
Botando eu um roçado
Logo meu milho plantei
Mas dele não me lucrei
Nem para comer assado
Pois logo foi visitado
Antes de amadurecer
Pois não tinha o que roer
Caíram dentro os macacos
Mas não tive o que fazer
Com efeito, quando vi
O milho todo quebrado
De pena fiquei passado
Não sei como não morri
De dentro logo saí
Com paixão cerrei o peito
Mas não achei ser defeito
Antes senti ser regalo
Soltei dentro meu cavalo
E fiquei mais satisfeito
Deliberei-me a soltar
Como de fato soltei
Com gosto recomendei
Come logo a vos fartar
Depois do cavalo estar
Muito farto, em demasia
Com isto se deitaria
Para tomar um alento
Logo no mesmo momento
Chegou a macacaria
Estava o pobre deitado
Para um pouco descansar
Sem em nada imaginar
Bem fora de seu cuidado
Tinham os macacos chegado
A ele estavam revendo
O macaco velho dizendo:
(Por não ver ele bulir)
Morreu este diabo aqui
Ao depois está fedendo
Fala o macaco Jacó
Que dos outros era "reis":
Vamos todos duma vez
Ao mato tirar cipós
Pra amarrar-lhe os mocotós
Para poder se arrastar
Tiremos deste lugar
Que arruinando dá mau cheiro
Vamos botar no aceiro
Que aqui não pode ficar
Ganharam os macacos o mato
Tirando imensos cipós
Deram todos a Jacó
Ficaram prali aos saltos
Diz Jacó, que é mais exato:
Deixemos de caçoada
Amarra, rapaziada
Vamos fazer o serviço
É bom acabar com isso
Que já é de madrugada
Dera o cavalo por morto
Que com os pés nem mãos bulia
Os macacos na folia
Saltaram nele um e outro
O cavalo com conforto
Com sustento de verdura
Porém como nada dura
E quem deve há de pagar
Jacó mandou amarrar
Os cipós pela cintura
Inventaram essa ilusão
Sem em nada imaginar
Trataram de se amarrar
Com as suas próprias mãos
Nesta mesma ocasião
O cavalo se acordou
Porem apenas olhou
Sentiu que amarrado estava
E tanto diabo puxava
Que depressa se espantou
Juntamente vem consigo
Porém não de gente viva
Eram, sim, seus inimigos
Conhecendo estes perigos
Para a casa se guiou
Considerou-se perdido
Só lhe veio no sentido
Valer-se de seu senhô
Logo que os macacos viram
Esta espantosa mudança
Com muita humildade rogança
Ao bom cavalo pediram
Mesmo sem querer seguiram:
Todos diziam assim:
Nós te daremos capim
Não nos leva ao teu senhor
Que ele é muito traidor
A todos nós dará fim
Meu cavalo, olha, tem mão
Espera, tem paciência
Tem dó de nossa inocência
Vamos conversar, irmão
Nós te daremos ração
Damos água ao meio-dia
Não nos faça tirania
Não nos leve ao teu senhor
Que ele é muito traidor
Acaba com a nossa "famia"
Não nos queira dar a morte
Meu cavalo nobre, honrado
Que nós não somos culpado
De sofrer chamas tão forte
Será a nossa infeliz sorte
Nos acabar de uma vez
Vós querendo, bem podeis
Ceder nossa liberdade
Usares de caridade
Ao menos por essa vez
Oh! que bruto endurecido
Que não nos atende ao clamor
A nós trata com rigor
Como um enfurecido
Certo é que estamos perdidos
Não temos mais um desvelo
Só sim temos é flagelo
Seremos mortos a cutelo
Pedir-se a esse tirano
É soltar palavra ao vento
Porque o seu pensamento
É malvado, é desumano
É disposto a fazer dano
É amante da discórdia
Não tem paz, não tem concórdia
É um sangue de cortiço
Que a ninguém faz benefício
E não tem misericórdia
Quando o cavalo isso ouvia
Esse bradar de um lamento
Crescia no assombramento
Inda mais veloz corria
Mas, correndo assim dizia:
A vós não posso valer
Nem mesmo vos proteger
Tão aflito como estou
Em casa de meu senhor
É que podeis obter
Responderam os macacos
Nós de vós não temos queixa
Só sentimos muita reixa
De meu pai, de meus padrinhos
Diziam assim os netinhos:
A causa disto é vovô
Porque ele nos mandou
Teus pés e mãos amarrar
E agora vamos pagar
Com ânsias, penas e dor
Se tu, meu cavalo nobre
Queres ter umbom amigo
Nos terás sem mais perigo
As nossas faltas encobre
Tu para que nos descobre!...
Certo é que estamos perdidos
Outro recurso não há
Hoje é que vamos pagar
O milhe que temos comido
Todos nós vamos morrer
Porque és um traidor
És um cruel malfeitor
Que nada queres ceder
Amigos, é bom dizer
Que me parece ser perto
Que estamos descobertos
Enfinca a unha no chão
De dedo grande da mão
Que temos a morte por certo
Um tormento tão cruel
Que o que vamos passar
Que razão não se há de ter
Por causa deste infiel!
A boca amarga-me a fel
A carne já me estremece
O coração esmorece
O juízo vai-se embora
Por saber que nesta hora
Nossa vida desaparece
Vão as horas completando
Dos nossos padecimentos
Que são rigores, tormentos
Que já estão preparando
Vamos o mundo deixando
Perdendo nossa alegria
Morre o pai, e morre mãe
Morre neto e morre filha
Tendo de se acabar por certo
Uma tão nobre família
Xiu! cavalo! Olha! tem mão
É o derradeiro pedido:
Se nós somos atendidos
Muito havemos de prestar
Com a nossa gratidão
Em todo regulamento
Que eu sempre tive talento
E tenho sido respeitado
E hoje me vejo acusado
Com o nome de ladrão
Zelação do céute parta
Cavalo velho malvado
Já que sois um desgraçado
Todos pedidos em vão
Sois amante da desgraça
Olha que fui respeitado
E hoje me vejo acusado
Com o nome de ladrão
(Em Seraine, Florival. Antologia
do folclore cearense. 2ª ed. Fortaleza, Edições UFC, 1983, p.43-50) |
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