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Ano V - maio  2003 - nº 57

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 57
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)A história do cavalo que defecava dinheiro.

setaquad.gif (95 bytes)Mãe Joana véia, e os homens do sal no Brasil, poema de José Nicodemos.

setaquad.gif (95 bytes)ABC dos macacos.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


MÃE JOANA VÉIA

José Nicodemos, Recife


Meu patrão, sou salineiro
Sou operaro, sim, sinhô
Mas sou cabra verdadero
Num minto nem pru favô

Nasci na serra vremêia
Sou fio dum cantadô
Joaquim Ispedito Abêia
Mi assino, seu dotô

De macho num tê sobroço
Sê verdadêro e bom moço
Tudo meu pai me ensinô
O sinhô aquerdita, patrão
Que hai a tá da visão?
É uma verdade, patrão
Eu já vi cum esses dois óio
Pula Virge da Cunceição!
Eu vou contá a vós micê
Uma histora, meu patrão
Adispois o sinhô vai crê
Qui inziste assombração

Ainda me alembro, apois é
Qui minha vó assuntava
Qui inzistia uma muié
Uma nega de corage
Quando aqui era servage

A nega véia, patrão
Foi quem criô as salina
Do leite das mama dela
Lutriu-se a gauça franzina
Ela é a mãe da piedade
Qui ao pó do só tem sodade
Nos coração da salina

Ela usava beca tão arva
Cuma um serrote de sá
Na cabeça ela amarrava
Pra o só num isquentar
Um pano limpo de saco

Di menhãzinha cedinho
Ela insinava a rezá
Os passo, os rio, os muinhos
E até os bardo de sá
E na hora da avé Maria
Toda as salina gemia
Uvindo a nega cantá

A graça dela, patrão
Era Joana, sim sinhô
Mas todos os salinero

Chamava mãe Joana véia
Mãe Joana véia, apois não
Afrimo e saluça a vóis
Cuzinhava, sim patrão
Pra todos bando de nóis
Se um caboco aduecia
De febe ou de quarqué dô
Até insprito zambetero
Ela inxotava pru mar

Se os salinero, patrão
Cum mandureba se ichia...
E fazia istripulia
Nos forró lá da cidade
Pras salina ele corria
E quando a puliça vinha
Mãe Joana véia rezava
E o caboco se incantava
Se invurtava, sim, sinhô

Sem agravá a vois micê
Qui é home muito inducado
Mãe Joana véia curava
Mió qui os doutô formado

E quando a véia morreu
Eu digo pra vois micê
A lua branca acendeu
Que Deus mandou acendê
Os asto no artá do céu

E foi num foi, nas salina
Mãe Joana véia se via
É verdade, juro pulas menina
Qui os óio meu alumia

E quando foi certo dia
Veio do açu, meu patrão
Um caboco qui dizia:
Num creio im visage não

E esse peste até troçava
Da véia mãe das salina
Qui os rio todo criava
E os segredo cunhicia
Dos vento qui nos moinho
Roda a roda cum carinho
E pra sodade assubia

E o tá caboco, patrão
Vei trabaiá cá cum nóis

E o caboco arripitia
Cum toda satisfação:
Tudo isso e trivilia
Num creio im visage não?

O véio Zé Fulorenço
Qui era feitô da salina
Qui parece um arvo lenço
Duma donzela granfina
A salina São João
Sempi alembrava, apois é
Qui um dia Chico Mané
O tá caboco fruncudo...
Se arripindia de tudo...

E o caboco arripizava:
Num creio im visage não

Entonce um dia, o bataião
No rancho frio drumia
Tava lindo luazão
Pru riba da serrania
Quando acordemo assustado
Pur um baruio danado

Chegô, meu patrão, a hora
De contá o bom da história
Se alevantamo dum sarto
Cum a ligereza dum gato
Qui qué bifá um socó
Era Mãe Joana, apois é
Arrestando Chico Mané
Arrochando o seu gogó...

Era um doido isperniado
Qui o infeliz na tipóia
Cum os óio abuticado
Fazia qui nem jibóia...

Ate a piraca, patrão
Qui o nosso rancho alumiava
Se ria oiando a afrição
Do peste qui grunguazava
Cuma um caboco intalado
E o véio Zé Fulorenço
Vendo nóis tudo de pé
Diche pra nóis, de bom tino:
Dexa a véia dá um insino
No cabra Chico Mané

E Mãe Joana véia, bonito
Apertava o disgraçado
Cumo a cobra de viado
Aperta o pobre cabrito...

Ela tem raiva, patrão
Dos pessoá busuoco
Qui dela xinga e faz pouco
Mas ela é bom coração

Adispois de discorrida
Meia hora, sim, sinhô
O cabra quage sem vida
Já tava perdendo a cô...
Nóis rezemos um crei Deus Padre
E a véia, o Chico cuvarde
No continente sortô...

Entonce, nóis tudo se rindo
Xingava o Chico Mané
Qui trimia cumo os asto
Esses luminoso rasto
Qui os anjos deixa dos pé...

E ele oiou pra os pessoá
Assustado cuma um rato
Qui óia os óio do gato
Nu escuro quilariá
E diche quage sem senso:

Bem dizia Fulorenço
E eu num quis aquerditá
E Chico Mané, entonce
Pra véia põe-se a rezá

Bebeu um copi de água
Pru sangue dele ispaiá...

As fresca da madrugada
Vinha dus canto do galo...

Se vóis micê, meu patrão
Num aquerdita essa históra
Vá drumi, vá, apois não
Nas salina onde ela mora...

Patrão, até osto-dia
Deus dê saúde e bom tempo
Pra toda sua famía...



(Thiéblot, Marcel Jules. Os homens do sal no Brasil. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979. Folclore, 16, p.108-113)

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