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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)Dia das Mães

setaquad.gif (95 bytes)Bolo e vestido novo

setaquad.gif (95 bytes)Pelo correio eletrônico

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)No Estradão

setaquad.gif (95 bytes)Trovas Escabrosas

setaquad.gif (95 bytes)Frases de Bêbado

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

Raimunda de Jesus, a Mãe do Ano da favela do Parque Arará, não sabe quantos anos tem, mas lembra muito dos tempos da escravidão. Trabalhou nas lavouras de café, carregando sacos, plantando e colhendo, primeiro para o patrão, depois para criar os filhos, ajudando o marido. Não é capaz de dizer em que ano casou, mas recorda a abolição, comemorada com foguetes:

- Aquilo era um inferno. O major judiava da gente, batia nos escravos. Nós nem soubemos quando acabou a escravatura. Só muito tempo depois, é que o seu Bráz soube que no Rio a rainha tinha mandado soltar os escravos. Aí falou com o major e ele soltou a gente.

Em São José da Pedra Bonita, onde Sá Raimunda nasceu e foi criada a liberdade chegou muito tarde. Hoje, cercada dos netos e bisnetos, reclama da vida que leva. Tem vontade de trabalhar ainda, mas não tem saúde. Aproveita as horas vagas para fazer colchas de retalhos, que já não pode costurar. Alinhava e uma das filhas termina o trabalho:

- Lá onde nós nascemos era um lugar atrasado. Não havia registro nem nada, nenhum de nós tem certidão. Mas, pelo que a mamãe conta, ela deve ter quase 110 anos.

Geralda, uma das filhas não gosta de falar de São Manuel do Mutum, onde viveu. Sofreu muito trabalhando na enxada, até que veio para o Rio de Janeiro, sozinha, para poder ajudar a família que ficou. Mandava 100 mil réis por mês para Sá Raimunda de Jesus e os irmãos. Depois trouxe todos para cá. Mas Raimunda de Jesus gosta de lembrar os velhos tempos:

- Lembro-me como se fosse hoje. A fazenda não tinha mais tamanho. O major pegava uma gamela, botava um mexido de fubá e dava para os homens comer. Mamãe era cozinheira, ninguém fazia guisado melhor do que ela. Meu pai, quando veio a libertação, fugiu para não casar com a minha mãe.

Quirino da Rocha, que tinha uma criação de porcos, nunca pensou em casar com a escrava Maria, com quem teve quatro filhos. Quando soube da Abolição construiu para ela uma casa de troncos de árvores e desapareceu. Maria continuou trabalhando para o major e cozinhando para várias famílias.

– Mas ela, quando encontrou o meu pai outra vez, deu nele uma surra de pau, deixou a roupa dele toda rasgada. Depois nunca mais falou com ele. E nós, graças a Deus, casamos todas.

Raimunda sempre trabalhou na lavoura, mesmo depois de casada. Mudou, com o marido de São José da Pedra Bonita para São Manuel do Mutum, para morar numa fazenda. Cultivavam para o patrão e no tempo que sobrava faziam algumas plantações de milho, para viver. Teve nove filhos. O mais velho tem mais de oitenta anos, ela não sabe quantos. Só sabe que os criou todos nenhum morreu, sempre trabalhando.

– Nunca tive medo de batente. Meu marido saía para o campo, eu ficava quietinha, não dizia nada, e ia atrás dele, com a enxada, plantar para nós. Ele dizia que ia fazer a nossa lavoura aos sábados, mas nunca tinha tempo. Eu, calada. Quando ele viu, o milho já estava crescido, foi só colher.

Só dos tempos de escravidão ela não gosta de falar. Mas fala das festas religiosas, que eram muito mais bonitas que as de hoje:

No dia de Santa Margarida a gente saía da fazenda para ir comemorar na cidade. Tinha procissão, todo mundo de branco. E todo mundo sabia rezar. No dia de Nossa Senhora da Conceição era outra festa.

Raimunda de Jesus interrompe para cantar algumas rezas, uma Ave Maria do seu tempo: Salve Maria / Rainha dos céus. Ainda hoje, quando se sente triste, começa a cantar. Diz que reza muito, porque é católica, mas não perto dos filhos, porque atualmente todos riem dos devotos.

– Eu sabia cantar muito mesmo. Tudo quanto era reza. Agora não que eu estou um caco velho, um trapo de gente, já nem me lembro das coisa. Mas sempre trabalhei alegre, cantando o dia inteiro, meu marido até gostava.

Hoje ela ainda vai à igreja, com uma das filhas a única que pode sair com ela porque não trabalha fora. Mas gosta mesmo é de viajar. Há pouco tempo foi até Belo Horizonte, ver o missionário, padre Luís e pedir para ficar boa do reumatismo. Se pudesse vivia andando, de um lugar para o outro. A doença é que não deixa:

- Se eu tivesse forças não ficava aqui não. Eu sempre gostei muito de festas. Nas da igreja, ia a todas elas. E me lembro de uma que fizeram na fazenda, quando saiu o casamento civil. Foi um foguetório.

Raimunda estranha as festas de hoje, que não têm leitões assados, cabritos, galinhas. Mesmo a do seu casamento tem, comes e bebes, e eles não tinham nenhum dinheiro.

– Cada um ajudou numa coisa. Um deu as arrobas de açúcar, pra fazer os doces, outro deu rapadura, outro um leitão. Meu pai não ajudou nada mas meu casamento teve festa e eu fui muito feliz. Mamãe queria muito que eu casasse com o Belisário, que era velho para mim, eu tinha 18 anos.

Naquele tempo ninguém escolhia marido. Belisário chegou, pediu a menina e levou para São Manuel do Mutum. Ela não reclama, diz que se deu muito bem lá.

– Mas era um lugar muito atrasado. Não tinha escola, não tinha nada, era só dar de enxada o dia inteiro. Os filhos foram ficando grandes, foram caindo no mundo. Tem no Espírito Santo, tem aqui, tem em todo lugar.

Todos os agricultores, os filhos Raimundo de Jesus deixaram a cidade mineira por uma vida melhor. Tiveram tantos filhos que ela nem sabe, os netos são mais de cinqüenta, os bisnetos, mais de oitenta. Só Geralda cuidou da mãe, é chamada por ela de "pé-de-boi", de tanto trabalhar.

– Vim para o Rio há mais de trinta anos, pra ajudar a mamãe. Ela ficou lá, com a Margarida, filha do meu irmão mais velho. Até que comprei esse barraco aqui no Caju. Mandei trazer as duas. Agora comprei outro, e a minha irmã também veio, com os filhos todos. Ninguém fica na rua, com a Graça de Deus. Agora estou ajeitando mais um barracão, para a outra irmã.

Com isso a família vai se juntando toda no Parque do Arará. Raimunda fica feliz embora brigue todos os dias com os netos e bisnetos, rapazes, moças, crianças de todas as idades.

– Meu povo é muito grande. Tem gente que não acaba mais por esse mundo afora. Três filhos já morreram, só tenho seis, mas os netos estão todos aí.

O alto-falante da favela anuncia uma canção, oferecida a Sá Raimunda. É uma música para São Jorge, o santo de devoção. Ela pede para repetir, diz que gosta muito do santo e quer ouvir de novo. Era o protetor Belisário, seu marido. Uma neta lhe pede que conte como foi o casamento, o primeiro beijo, ela reclama:

- Deixa de bobagem, menina. Não vou falar dessas coisas, não. Essa menina não presta mesmo.

Acaba dizendo que beijo só depois do casamento, que ela era moça de respeito. Por isso foi muito feliz, até ficar viúva. Depois fala da homenagem que vai receber na favela do Ararará – invenção dessa gente que gosta muito de mim.

Hoje, às 17 horas, a Associação dos Moradores do Parque Arará fará uma festa para Raimunda de Jesus. Convidaram até um conjunto musical, Os Jóias, que se encarregará do baile. Todas as mães da favela estarão lá, para a cerimônia, com um bolo feito especialmente para a ocasião. As filhas de Sá Raimunda sorriem e garantem:

- Vamos arrumá-la muito bem, botar nela um vestido bonito. Afinal, a homenagem vai ser um pouquinho para nós também.

 

(Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 11 de maio de 1970. 1 cad.:4)

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