| Mariza Lira
Corria o ano de 1911. Em Filadélfia, a meiga e terna
Ana Gervis reuniu, certo dia de maio, suas amigas, para, numa cerimônia tocante, prestar
às queridas mortas um preito de carinho e saudade.
A cerimônia, embora íntima, foi divulgada por um jornalista, o bastante para que todos
que dela tiveram conhecimento, a tivessem louvado.
Surgiu então a idéia de fixar-se um dia de maio para essa comemoração de saudade.
O gesto sensibilizou a todos, e outras jovens que tinham mãe, uniram-se às primeiras,
para juntas realizarem a festa a todas as mães.
As adesões aumentavam de ano para ano. Já não se compreendia uma data imprecisa para a
festividade. Destinou-se então o segundo domingo de maio Mês da Mãe Imaculada
para o Dia das Mães.
E fez-se entre os presentes uma poética distinção.
Os que evocavam a memória da mãe desaparecida, levariam no vestido ou na lapela um
botão de rosa branca e os que ainda gozavam a doce ventura de ter mãe viva exibirem um
botão de rosa vermelha.
A inovação encantou pela subliminidade. E o entusiasmo foi tanto que o Congresso dos
Estados Unidos, com a sanção do presidente Wilson, oficializou o dia das Mães.
Em menos de dez anos, a admirável cerimônia era adotada em todo o mundo.
No Brasil, a comemoração foi otimamente aceita; interessante é que a princípio a flor
escolhida foi o cravo.
Hoje porém, outra inovações foram anexadas aos festejos simbólicos, tais como os
cartões alusivos ao dia, as prendas às mães vivas, as flores nas campas das mães
falecidas, o auxílio às mães pobres, etc.
Linda instituição a desse dia de evocação e lirismo, de sentimentalidade e doçura,
porque mesmo a saudade cruciante dos que já não têm mãe vem repassada das mais ternas
lembranças, que enlevam e consolam sem que se sofra angústia confrangedora ante a
alegria dos que são ainda felizes.
Poetas e artistas inspirados nessa figura divina, tecem loas a que, como disse, Almeida
Garret, "é a mais bela obra de Deus".
Nesse dia de exaltação íntima, há uma confraternização geral, todas as figuras se
nivelam, todas as importâncias desaparecem, só há uma supremacia, a das mães.
O povo, na ingênua sinceridade de suas expansões, rejubila-se também nesse dia dedicado
à figura simbólica da criadora, da deusa abençoante da sua felicidade, e diz convicto:
"Quem tem mãe tem tudo"
E a nossa sentimentalidade, como num caleidoscópio, vê perpassar essa figura angélica
nas várias fases da vida.
Quantas vezes lá está ela, de alma amargurada, a cantar docemente o acalanto tradicional
com que embala o filho pequenino:
"Quem tem filhinhos pequenos
Por força lhes há de cantar.
Quantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar". |
É que as mães são dotadas de
uma como que supervisão do futuro, e como já sofreram e choraram, sabem que:
"Uma mãe que o filho embala
Todo o seu fim é chorar,
Só por não saber a sorte
Que Deus tem para lhe dar".
No Brasil, ouvimos de bocas infantis em recitativos inocentes, essa quadrinha:
"Mamãe é a rosa
Que papai colheu;
Eu sou o botãozinho
Que a rosa deu".
Mas, todo o encanto dessa rima popular vem-nos da fonte portuguesa:
"Minha mãe é uma rosa
Com meu pai se recebeu
Sua filha é um botão
que da rosa rescendeu".
Quanto reconhecimento põe o filho nessa trova doce e sincera:
"Ó minha mãe tão querida,
Minha mãe do coração,
Duzentos anos que eu viva
Não te pago a criação".
Dedicada com desinteresse, primando por levar o sacrifício até o estoicismo, anda na
boca do povo a trova justiceira:
"Minha mãe, minha mãezinha,
Muito boa mãe tenho eu.
Vendeu tudo quanto tinha
Deu-me tudo que era seu..."
Assim proclama o ditado:
"Uma mãe é pra cem filhos
Cem filhos não são pra uma mãe."
O filho é a alegria, a razão de ser da vida de uma mãe, que abdicando tudo em favor
dele, sente-se feliz até mesmo com a própria preterição, tanto que é conhecidíssima
a expressão popular:
"Quem meus filhos beija, minha boca adoça".
O próprio sertanejo, agreste e rude, se enternece com a sublimidade da figura da mãe e
confessa:
"Minha mãe tão pobrezinha
Nada tem para me dar;
De hora em hora dá-me um beijo
E depois põe-se a chorar.
Minha mãe que me criou
Ao peito, com tanto mimo,
Se um dia lhe pagar mal
Não foi por falta de ensino."
E nem o afastamento deixa de ser registrado nas suas rimas despretenciosas:"Quando deixei minha casa,
Olhei para trás chorando;
Minha mãe do coração
Tão longe me vais ficando..."
Nesse dia em que se cultua o mais sublime dos sentimentos amor materno uma
dolorosa saudade segreda murmurante na alma dos que, como eu, não têm mãe, esse lamento
torturante.
Já morreu a minha mãe,
Minha doce companheira,
Cofre dos meus segredos,
Fonte de minha alegria."
E o desabafo amargurado ressoa sobre a lousa fria regada de lágrimas sentidas:
"Abre-te campa adorada.
Minha mãe quero rever,
Quero-lhe beijar o rosto
Chega de tanto sofrer". |