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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


setaquad.gif (95 bytes)Dia das Mães

setaquad.gif (95 bytes)Bolo e vestido novo

setaquad.gif (95 bytes)Pelo correio eletrônico

setaquad.gif (95 bytes)Calendário

setaquad.gif (95 bytes)No Estradão

setaquad.gif (95 bytes)Trovas Escabrosas

setaquad.gif (95 bytes)Frases de Bêbado

setaquad.gif (95 bytes)Provérbios

Mariza Lira


Corria o ano de 1911. Em Filadélfia, a meiga e terna Ana Gervis reuniu, certo dia de maio, suas amigas, para, numa cerimônia tocante, prestar às queridas mortas um preito de carinho e saudade.

A cerimônia, embora íntima, foi divulgada por um jornalista, o bastante para que todos que dela tiveram conhecimento, a tivessem louvado.

Surgiu então a idéia de fixar-se um dia de maio para essa comemoração de saudade.

O gesto sensibilizou a todos, e outras jovens que tinham mãe, uniram-se às primeiras, para juntas realizarem a festa a todas as mães.

As adesões aumentavam de ano para ano. Já não se compreendia uma data imprecisa para a festividade. Destinou-se então o segundo domingo de maio – Mês da Mãe Imaculada – para o Dia das Mães.

E fez-se entre os presentes uma poética distinção.

Os que evocavam a memória da mãe desaparecida, levariam no vestido ou na lapela um botão de rosa branca e os que ainda gozavam a doce ventura de ter mãe viva exibirem um botão de rosa vermelha.

A inovação encantou pela subliminidade. E o entusiasmo foi tanto que o Congresso dos Estados Unidos, com a sanção do presidente Wilson, oficializou o dia das Mães.

Em menos de dez anos, a admirável cerimônia era adotada em todo o mundo.

No Brasil, a comemoração foi otimamente aceita; interessante é que a princípio a flor escolhida foi o cravo.

Hoje porém, outra inovações foram anexadas aos festejos simbólicos, tais como os cartões alusivos ao dia, as prendas às mães vivas, as flores nas campas das mães falecidas, o auxílio às mães pobres, etc.

Linda instituição a desse dia de evocação e lirismo, de sentimentalidade e doçura, porque mesmo a saudade cruciante dos que já não têm mãe vem repassada das mais ternas lembranças, que enlevam e consolam sem que se sofra angústia confrangedora ante a alegria dos que são ainda felizes.

Poetas e artistas inspirados nessa figura divina, tecem loas a que, como disse, Almeida Garret, "é a mais bela obra de Deus".

Nesse dia de exaltação íntima, há uma confraternização geral, todas as figuras se nivelam, todas as importâncias desaparecem, só há uma supremacia, a das mães.

O povo, na ingênua sinceridade de suas expansões, rejubila-se também nesse dia dedicado à figura simbólica da criadora, da deusa abençoante da sua felicidade, e diz convicto:

"Quem tem mãe tem tudo"

E a nossa sentimentalidade, como num caleidoscópio, vê perpassar essa figura angélica nas várias fases da vida.

Quantas vezes lá está ela, de alma amargurada, a cantar docemente o acalanto tradicional com que embala o filho pequenino:

"Quem tem filhinhos pequenos
Por força lhes há de cantar.
Quantas vezes a mãe canta
Com vontade de chorar".

É que as mães são dotadas de uma como que supervisão do futuro, e como já sofreram e choraram, sabem que:

"Uma mãe que o filho embala
Todo o seu fim é chorar,
Só por não saber a sorte
Que Deus tem para lhe dar".

No Brasil, ouvimos de bocas infantis em recitativos inocentes, essa quadrinha:

"Mamãe é a rosa
Que papai colheu;
Eu sou o botãozinho
Que a rosa deu".

Mas, todo o encanto dessa rima popular vem-nos da fonte portuguesa:

"Minha mãe é uma rosa
Com meu pai se recebeu
Sua filha é um botão
que da rosa rescendeu".

Quanto reconhecimento põe o filho nessa trova doce e sincera:

"Ó minha mãe tão querida,
Minha mãe do coração,
Duzentos anos que eu viva
Não te pago a criação".

Dedicada com desinteresse, primando por levar o sacrifício até o estoicismo, anda na boca do povo a trova justiceira:

"Minha mãe, minha mãezinha,
Muito boa mãe tenho eu.
Vendeu tudo quanto tinha
Deu-me tudo que era seu..."

Assim proclama o ditado:

"Uma mãe é pra cem filhos
Cem filhos não são pra uma mãe."

O filho é a alegria, a razão de ser da vida de uma mãe, que abdicando tudo em favor dele, sente-se feliz até mesmo com a própria preterição, tanto que é conhecidíssima a expressão popular:

"Quem meus filhos beija, minha boca adoça".

O próprio sertanejo, agreste e rude, se enternece com a sublimidade da figura da mãe e confessa:

"Minha mãe tão pobrezinha
Nada tem para me dar;
De hora em hora dá-me um beijo
E depois põe-se a chorar.

Minha mãe que me criou
Ao peito, com tanto mimo,
Se um dia lhe pagar mal
Não foi por falta de ensino."

E nem o afastamento deixa de ser registrado nas suas rimas despretenciosas:

"Quando deixei minha casa,
Olhei para trás chorando;
Minha mãe do coração
Tão longe me vais ficando..."

Nesse dia em que se cultua o mais sublime dos sentimentos – amor materno – uma dolorosa saudade segreda murmurante na alma dos que, como eu, não têm mãe, esse lamento torturante.

Já morreu a minha mãe,
Minha doce companheira,
Cofre dos meus segredos,
Fonte de minha alegria."

E o desabafo amargurado ressoa sobre a lousa fria regada de lágrimas sentidas:

"Abre-te campa adorada.
Minha mãe quero rever,
Quero-lhe beijar o rosto
Chega de tanto sofrer".

(Lira, Mariza. "Dia das Mães". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 10 de maio de 1953, 4 cad., p.1)

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