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Vem da mais recuada
antiguidade a abusão sobre bons e maus efeitos da urina da mulher. Contam Heródoto e
Deodoro Siculo que um filho de Sesostris ou Ramsés, tendo ficado cego, lavou os olhos,
por mandado do oráculo de Buto, com a urina duma mulher honesta e recobrou a vista. Vale
a pena informar, de acordo com os dois conspícuos historiadores citados, que começou a
experiência com a de sua própria esposa, mas só conseguiu êxito, depois de ter feito a
prova com alguns milhares de criaturas do sexo fraco.
Conta mais Heródoto que Astiago, rei dos Medas, sonhou que a urina de sua filha Mandana
inundava toda a Ásia. Os magos interpretaram esse sonho, afirmando que dela sairia um
grande conquistador, o qual, de fato, foi seu filho Giro.
No sertão, a urina da mulher é sempre considerada muito maléfica. Na opinião dos
matutos, em certos períodos, é perigosíssima, com força para matar as próprias
serpentes que passem sobre a terra por ela molhada. Consubstanciando essas abusões, o
cultor da musa popular em Fortaleza, na primeira metade do século passado, doutor Pedro
Pereira compôs estes versos, que o povo decorou e transmite sob o título A urina da
mulher:
Dá-nos mal tão pestilento
A urina duma mulher
Que quem viver não quiser
Beba e morre de repente!
É veneno, é fogo ardente
Que Deus no mundo deixou.
Quem nessa urina pisou.
Curar-se mais não precisa,
Pois não escapa quem pisa
Onde a mulher já mijou!
Seja o mais verde capim
Ou planta de folha rija,
Se lhe em cima a mulher mija,
Seca, morre e leva fim!
É veneno tão ruim
Que até uma vez já chegou
Como aqui dizendo estou,
O próprio ferro a estalar
Naquele mesmo lugar
Onde a mulher já mijou!
Vi pobre velho, coitado!
Por pisar em tal urina,
Ficar com a perna fina
E um dos pés todo chagado!
Ficou caspento, pelado,
Enfim disforme ficou,
Tudo que teve gastou
Em mil remédios que fez
Por pisar uma só vez
Onde a mulher já mijou!
Se acaso for de criança
O mijo que alguém tocar,
Pode ter, para escapar,
Inda qualquer esperança;
Mas, de moça ou de carrança,
Diga logo: Morto estou!
Porque ninguém encontrou
Qualquer remédio em botica
Que curasse o mal que fica
Onde a mulher já mijou!
Corroborando esta poesia de feição tão nitidamente popular, embora feita por um homem
culto, vem esta quadra de cantador matuto:
Uma velha, muito velha,
Foi mijar numa ladeira:
A mijada que ela deu
Arrasou a terra inteira!
(Barroso, Gustavo. Ao som da viola, p.588-590) |
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