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Maio 2002
Ano IV - nº 45

VELHAS CASAS HOSPITALEIRAS

Uma estatística de 1860 informa que o Rio de Janeiro tinha uns duzentos mil habitantes, sendo que três quartos dessa população viviam no centro e o restante nos arredores. Por outro lado, mais ou menos pela mesma época, a cidade tinha 284 ruas, 42 travessas, 47 praças, 30 praias e 27 morros habitados.

Mas deixemos isso, e olhemos um pouco para aqueles arredores. Foi na segunda metade do século XIX que se incrementou o número dos belos solares, das grandes chácaras pelos arrabaldes mais requestados da cidade. Por aí já havia muita gente de recursos. Portugueses pecuniosos, "do alto comércio desta praça", e brasileiros abastados, grandes latifundiários, donos de fazendas de café, senhores de engenho e criadores de gado que, estabelecidos pelo interior, mas sobretudo em terras fluminenses, queriam ter sua casa junto à corte.

Avive-se a lembrança do que eram essas mansões hospitaleiras, que tanto se encontravam em Botafogo como no Andaraí, nas Laranjeiras como em Santa Teresa, no Rio Comprido como em São Cristóvão. Recordando-as, tenho diante dos olhos duas que ainda freqüentei na minha infância. Pertencentes a famílias amigas, ia por lá passar dias seguidos, quando me pegava qualquer febrinha manhosa e era preciso mudar de ares. Uma ficava em Santa Teresa, com entradas pela rua Correia de Sá e pela ladeira do Meireles, e o seu terreno descia pelas faldas de Santa Cristina. Aí, até leite ordenhado na hora se tinha pela manhã. Casa toda pintada de azul, daquele simpático azul, bastante vivo, de que tanto gostavam os mestres-de-obras antigos. Casa de vastos salões com tetos estucados e pé-direito muito alto. Janelas de sacada à frente dando para um jardim onde não faltavam o repuxo e o caramanchão coberto de jasmins. Onde abundavam as plantas ornamentais: hibiscos sangrando na ponta dos galhos e aqueles crótons de folhas verdes riscadas de amarelo, que serviram de distintivo nacional nos dias agitados que precederam a abdicação de dom Pedro I. Onde as flores eram de todo ano. Manacás cheirosos e espirradeiras vistosas. Muita rosa e muito amor-perfeito. A sala de jantar, de mesa acolhedora, que à hora das refeições se enchia de travessas e terrinas baforantes, abria-se para uma varanda sobre a baía, ao longe, e, embaixo, sobre a copa das árvores que disfarçavam a trilha ziguezagueante do pomar.

A de Laranjeiras nada lhe ficava a dever. Acresça-se-lhe o encanto de uma pontezinha, sobre o rio das Caboclas, antes que se chegasse ao seu portão. As mesmas confortáveis dependências numa casa de três pavimentos: porão habitável, primeiro andar prolongado ao fundo por dois puxados, ladeando uma área; sobrado restrito apenas ao segundo corpo da construção. Flores também por todo lado. Frutas desafiando as estações. Cambucá, abiu, cabeluda, grumixama, goiaba, pitanga, araçá, jaca, fruta-pão, cajá, caju, manga, sapoti, fruta-de-conde, ameixa-amarela, ameixa-de-madagáscar, lechia, jambo-rosa, jambo-de-caroço... Este ou aquele leitor mais novo talvez nunca tenha visto algumas dessas frutas, umas nossas, outras importadas. É que estão acabando. Umas foram definhando pelos quintais destratados das "cabeças-de-porco, e das casas de cômodos em que se transformaram muitas dessas residências senhoriais. Outras, as últimas, vão desaparecendo ao golpe das enxadas e dos alviões que preparam o terreno para os arranha-céus. E enquanto isso, a ameixa argentina e a maçã americana invadem o nosso mercado e chegam às pontas de trilho e aos vilarejos mais recônditos do país.

Mas tornemos à casa de "tia Mariquinhas", doceira esplêndida que aproveitava aquelas e outras frutas vindas de Campos, para fazer as suas compotas e as suas geléias, de que tinha cheias as prateleiras da despensa, em vidros e potes muito limpos e bem arrumados.

Em Santa Teresa, a chácara despencava pela encosta. Aqui, subia de morro acima: o morro do Mundo Novo, onde ao alto, nos meses de verão, grandes paineiras abriam os pálios cor-de-rosa. Mas antes de lá chegar, tínhamos muita coisa a observar e com que encher os olhos arteiros de menino. Os mutuns e o pavãozinho-do-pará que se dandinavam soltos pelo jardim. O lago com patos e marrecos. As galinhas de raça entre os perus bem fornidos e as galinhas-d’angola sarapintadas. Se aqui não havia estábulo, havia cavalariça. Os rapazes ainda eram pelo namoro a cavalo. E ficava-me por ali, parado, contemplando o "Canário" ou o "Alecrim" que resfolegavam, a fuçar o capim tenro dos cochos. E guardando tudo isso, acorrentado ao seu chalé, o respeitado "Sentinela", mastim de olhos meigos e orelhas baloiçantes, mas que à noite, quando em liberdade, não trastejava de fincar os colmilhos em qualquer tornozelo que se lhe apresentasse mais a jeito. Depois, vencidos alguns degraus, já num tabuleiro ganho ao flanco do morro, íamos encontrar o seu Moreira, de joelho em terra, cuidando desveladamente dos seus repolhos gordos, das suas alfaces de folhas arabescadas, ou dos morangos que se diriam pálidos à vista do sangue vivo que lhe intumescia as bochechas. Então, era com ele que envesgávamos pelos atalhos da estrada serpeando na encosta, para ver se havia alguma goiaba madura ou apanhar serra-serras e cascudinhos no tronco dos paus podres.

- Mas isso não é história da cidade nem ninguém precisa de cornaca para trepar aos morros e catar joaninhas e besouros irisados - dirá um leitor mais cioso dos fatos autênticos e das datas precisas, colhidas nas folhas amarelecidas e carunchosas dos arquivos.

- Nem tanto assim - responderemos nós. Quando esta cidade for um só lençol de asfalto e um único bloco de cimento armado, quem saberá que, por aqui mesmo, onde hoje eles campeiam, havia jardins, que davam flores, hortas, que davam legumes, e pomares, que davam frutas?

[1965]


(Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro, v.2, p.502-506)

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