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VELHAS CASAS
HOSPITALEIRAS |
Uma estatística de 1860 informa que o Rio
de Janeiro tinha uns duzentos mil habitantes, sendo que três quartos dessa população
viviam no centro e o restante nos arredores. Por outro lado, mais ou menos pela mesma
época, a cidade tinha 284 ruas, 42 travessas, 47 praças, 30 praias e 27 morros
habitados.
Mas deixemos isso, e olhemos um pouco para aqueles arredores. Foi na segunda metade do
século XIX que se incrementou o número dos belos solares, das grandes chácaras pelos
arrabaldes mais requestados da cidade. Por aí já havia muita gente de recursos.
Portugueses pecuniosos, "do alto comércio desta praça", e brasileiros
abastados, grandes latifundiários, donos de fazendas de café, senhores de engenho e
criadores de gado que, estabelecidos pelo interior, mas sobretudo em terras fluminenses,
queriam ter sua casa junto à corte.
Avive-se a lembrança do que eram essas mansões hospitaleiras, que tanto se encontravam
em Botafogo como no Andaraí, nas Laranjeiras como em Santa Teresa, no Rio Comprido como
em São Cristóvão. Recordando-as, tenho diante dos olhos duas que ainda freqüentei na
minha infância. Pertencentes a famílias amigas, ia por lá passar dias seguidos, quando
me pegava qualquer febrinha manhosa e era preciso mudar de ares. Uma ficava em Santa
Teresa, com entradas pela rua Correia de Sá e pela ladeira do Meireles, e o seu terreno
descia pelas faldas de Santa Cristina. Aí, até leite ordenhado na hora se tinha pela
manhã. Casa toda pintada de azul, daquele simpático azul, bastante vivo, de que tanto
gostavam os mestres-de-obras antigos. Casa de vastos salões com tetos estucados e
pé-direito muito alto. Janelas de sacada à frente dando para um jardim onde não
faltavam o repuxo e o caramanchão coberto de jasmins. Onde abundavam as plantas
ornamentais: hibiscos sangrando na ponta dos galhos e aqueles crótons de folhas verdes
riscadas de amarelo, que serviram de distintivo nacional nos dias agitados que precederam
a abdicação de dom Pedro I. Onde as flores eram de todo ano. Manacás cheirosos e
espirradeiras vistosas. Muita rosa e muito amor-perfeito. A sala de jantar, de mesa
acolhedora, que à hora das refeições se enchia de travessas e terrinas baforantes,
abria-se para uma varanda sobre a baía, ao longe, e, embaixo, sobre a copa das árvores
que disfarçavam a trilha ziguezagueante do pomar.
A de Laranjeiras nada lhe ficava a dever. Acresça-se-lhe o encanto de uma pontezinha,
sobre o rio das Caboclas, antes que se chegasse ao seu portão. As mesmas confortáveis
dependências numa casa de três pavimentos: porão habitável, primeiro andar prolongado
ao fundo por dois puxados, ladeando uma área; sobrado restrito apenas ao segundo corpo da
construção. Flores também por todo lado. Frutas desafiando as estações. Cambucá,
abiu, cabeluda, grumixama, goiaba, pitanga, araçá, jaca, fruta-pão, cajá, caju, manga,
sapoti, fruta-de-conde, ameixa-amarela, ameixa-de-madagáscar, lechia, jambo-rosa,
jambo-de-caroço... Este ou aquele leitor mais novo talvez nunca tenha visto algumas
dessas frutas, umas nossas, outras importadas. É que estão acabando. Umas foram
definhando pelos quintais destratados das "cabeças-de-porco, e das casas de cômodos
em que se transformaram muitas dessas residências senhoriais. Outras, as últimas, vão
desaparecendo ao golpe das enxadas e dos alviões que preparam o terreno para os
arranha-céus. E enquanto isso, a ameixa argentina e a maçã americana invadem o nosso
mercado e chegam às pontas de trilho e aos vilarejos mais recônditos do país.
Mas tornemos à casa de "tia Mariquinhas", doceira esplêndida que aproveitava
aquelas e outras frutas vindas de Campos, para fazer as suas compotas e as suas geléias,
de que tinha cheias as prateleiras da despensa, em vidros e potes muito limpos e bem
arrumados.
Em Santa Teresa, a chácara despencava pela encosta. Aqui, subia de morro acima: o morro
do Mundo Novo, onde ao alto, nos meses de verão, grandes paineiras abriam os pálios
cor-de-rosa. Mas antes de lá chegar, tínhamos muita coisa a observar e com que encher os
olhos arteiros de menino. Os mutuns e o pavãozinho-do-pará que se dandinavam soltos pelo
jardim. O lago com patos e marrecos. As galinhas de raça entre os perus bem fornidos e as
galinhas-dangola sarapintadas. Se aqui não havia estábulo, havia cavalariça. Os
rapazes ainda eram pelo namoro a cavalo. E ficava-me por ali, parado, contemplando o
"Canário" ou o "Alecrim" que resfolegavam, a fuçar o capim tenro dos
cochos. E guardando tudo isso, acorrentado ao seu chalé, o respeitado
"Sentinela", mastim de olhos meigos e orelhas baloiçantes, mas que à noite,
quando em liberdade, não trastejava de fincar os colmilhos em qualquer tornozelo que se
lhe apresentasse mais a jeito. Depois, vencidos alguns degraus, já num tabuleiro ganho ao
flanco do morro, íamos encontrar o seu Moreira, de joelho em terra, cuidando
desveladamente dos seus repolhos gordos, das suas alfaces de folhas arabescadas, ou dos
morangos que se diriam pálidos à vista do sangue vivo que lhe intumescia as bochechas.
Então, era com ele que envesgávamos pelos atalhos da estrada serpeando na encosta, para
ver se havia alguma goiaba madura ou apanhar serra-serras e cascudinhos no tronco dos paus
podres.
- Mas isso não é história da cidade nem ninguém precisa de cornaca para trepar aos
morros e catar joaninhas e besouros irisados - dirá um leitor mais cioso dos fatos
autênticos e das datas precisas, colhidas nas folhas amarelecidas e carunchosas dos
arquivos.
- Nem tanto assim - responderemos nós. Quando esta cidade for um só lençol de asfalto e
um único bloco de cimento armado, quem saberá que, por aqui mesmo, onde hoje eles
campeiam, havia jardins, que davam flores, hortas, que davam legumes, e pomares, que davam
frutas?
[1965]
(Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro, v.2, p.502-506) |
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