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E ONDE, POR
VEZES, DORMEM |
Sobre as hospedarias do Rio de Janeiro, em
número insignificantíssimo, servindo apenas aos viajantes vindos de outras capitanias,
uma vez que os estrangeiros, mesmo quando aqui entravam em "arribada forçada",
dificilmente podiam dormir em terra, diz F. L. Langstedt na sua Reisen nach Sud Amerika
Asien und Afrika, que "se reconhecem os albergues por um pedaço de
pano suspenso em um bastão colocado à frente das casas, como na Europa as tabuletas dos
cabarés". E acrescenta que os que viu eram maus e não satisfaziam pelo preço.
As hospedarias existentes na capital do Reino, também não eram boas, diz Carrère (Voyage
em Portugal, p.58).
White, em 1787, falando do Rio de Janeiro, registra não só a falta de hotéis como de
cafés. (Ob. cit. p.64).
Mawe, já no tempo do rei, achou, aqui, hotéis, porém, "maus e incômodos, de
tal sorte que um estrangeiro não pode encontrar alojamento se não tiver um amigo que
queira hospedá-lo", (Mawe, Voyage au Bresil, p.170).
John Barrow na sua Viagem à Cochinchina, quando aqui passou, ainda no tempo dos
vice-reis, e não encontrou albergues ou qualquer outra espécie de alojamento, a não ser
uma espécie de taberna do lado direito da grande praça montada por um francês, chamado
Phillipe, assim filosofa: "na verdade, um albergue é inútil, pois que o governo
fraco leva o sentimento de inospitalidade ao ponto de não deixar que um estrangeiro, seja
ele qual for, fique em terra depois de cair o sol." (Ob. cit., v.1, p.112).
Leia-se o que, a propósito desses mesmos estrangeiros, por uma época em que se pretendia
erguer entre os filhos da terra e o resto do mundo uma nova muralha da China, escreveu o
marquês do Lavradio, terceiro vice-rei do Brasil no Rio de Janeiro: "Logo que
chega o navio a seu bordo, permitindo que saia um oficial do mesmo navio afim de
requerer-me. Este expõe as causas que o obrigaram a entrar no porto. Logo lhe pergunto se
ele vem na resolução de que com o seu navio, oficiais e mais pessoas que vêm nele se
pratique tudo que as reais ordens e Leis del Rey meu Senhor e estabelecidas neste
continente determinam, e dizendo ele que sim, lhe permito que o navio venha dar fundo
debaixo da artilharia das fortalezas desta capital. Logo mando a seu bordo um
desembargador e um coronel levando consigo o patrão mor e mestrança e um escrivão para
se fazer todos os exames em termos judiciais e autênticos nas conformidades que
determinam as reais ordens. Antes do coronel e o ministro subirem ao navio faço vir para
a terra dois oficiais principais do mesmo navio. Enquanto a bordo se ficam fazendo as
diligências, estas consistem em examinar o ponto de rota e perguntar aos oficiais, mestre
piloto, sobre as causas da mesma arribada e a parte de onde vem e o seu destino. E depois
disto feito vem o mestre e o oficial para a terra com mais pessoas que levarão e em minha
casa onde os dois oficias ficarão retidos se lhes fazem as mesmas perguntas que se
fizeram aos que tinham ficado a bordo. Isto executado mando dizer ao oficial que comanda o
navio que no outro dia a hora que me parece poderá vir fazer-me o seu requerimento. Para
assistir a esta audiência são chamados os oficiais todos desta capital e ele me faz o
seu requerimento e eu lhe respondo na conformidade que as ordens me permitem segundo o que
me pede. Sabe para casa de fora enquanto eu lavro uma sentença que assino e em que eu
declaro o tempo que lhe permito de estar neste porto para se prover do que precisar visto
provar-se a indispensável necessidade com que entrou nele porque de outra forma nem ele
podia vir nem eu consentir e que igualmente visto ele se obrigar a fazer termo de observar
e todos as pessoas de seu navio tudo que determinam as reais leis de El Rei Meu Senhor e
sujeitar-se a todas as suas reais ordens estabelecidas neste continente, nesta
conformidade poderá estar os dias determinados e procurar o socorro que precisar.
Enquanto o navio se acha no porto está sempre em escaler com seis ou oito soldados e um
oficial para não deixar chegar nem uma embarcação que não seja do mesmo navio a bordo
ou alguma que levar ordem minha. Conservo mais outra pequena embarcação também com um
oficial para acompanhar as embarcações que vêm de bordo e que trazem oficiais. Não
consinto que nenhuma embarcação venha de bordo sem que venha acompanhada daquela guarda
ou traga uma sentinela da outra embarcação que está de ronda e a todas determino em
lugar certo onde devem vir desembarcar e onde tenho um oficial de toda confiança com
outros oficiais e oficiais inferiores escolhidos, debaixo de sua ordem para receberem e
acompanharem as pessoas que vêm à terra. Igualmente se acha um oficial da Alfândega
para se fazerem os exames precisos o que se pratica nesta conformidade quando qualquer
embarcação destas chegar à terra, se não deixa desembarcar ninguém, sem que a
sentinela possa dar parte ao oficial encarregado destas diligências para ele vir ver as
pessoas que chegam. Este leva consigo os oficiais e oficiais inferiores e o da alfândega
e logo faz desembarcar as pessoas que vêem na embarcação, exceto marinheiros, examina
ao que vem, e sendo oficiais se lhe não faz busca nas suas pessoas porém sendo qualquer
outro o oficial da alfândega os busca e depois de muito bem examinados, se entregam ao
oficial e oficial inferiores para ir com eles tão somente ao destino a que eles declaram
que vinham. O oficial da Alfândega passa à embarcação busca aos marinheiros e faz o
mesmo exato exame em toda a embarcação. Não consinto que nenhum tome casas na cidade,
nem nos seus subúrbios e ordeno a todos se recolham a bordo antes das Aves-Marias."
(Correspondência particular do marquês do Lavradio Carta de amizade escrita ao
governador de Angola, dom Francisco Innocencio de Souza Coutinho, e datada de 2 de
setembro de 1772).
Assim, vivia-se, naquele tempo, segregado do mundo, sabendo-se apenas, por ouvir dizer, da
existência de um país ao qual pertencíamos, que era Portugal o maior e ao mesmo tempo o
mais forte e mais lindo de todos os países da terra, com um monarca que era, ao mesmo
tempo, o mais poderoso, belo, temido e magnânimo dos reis de todo o universo, o qual, ao
lado de Deus, velava, solícitamente não só pela grandeza como pela perene felicidade
dos seus vassalos... Leia-se, a propósito, o que John Barrow escreveu, pela época,
falando de um ricaço que conheceu nos arredores desta cidade: "No meio da maior
abundância necessária à vida e até mesmo ao luxo esse homem era inteiramente alheio
às vantagens que com o seu dinheiro poderia usufruir. E queixava-se da opressão da
Mãe-Pátria. Dizia ele que o monopólio, as proibições e as taxas haviam arruinado o
comércio, destruído a agricultura, desencorajando a mal nascente industrial; que o
descontentamento era de tal forma geral, que não seria surpresa ver os habitantes desta
colônia sacudir o jugo de Portugal e fazer a sua independência." (Ob. cit. v.1,
p.136). É curioso observar como até estrangeiros por essa época (John Barrow esteve
entre nós pelo correr do último decênio do século XVIII) já registravam as
confissões do mal estar do filho da terra, ante a opressão asfixiadora da metrópole.
(Edmundo, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis, p.486) |
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