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Maio 2002
Ano IV - nº 45

E ONDE, POR VEZES, DORMEM

Sobre as hospedarias do Rio de Janeiro, em número insignificantíssimo, servindo apenas aos viajantes vindos de outras capitanias, uma vez que os estrangeiros, mesmo quando aqui entravam em "arribada forçada", dificilmente podiam dormir em terra, diz F. L. Langstedt na sua Reisen nach Sud Amerika – Asien und Afrika, que "se reconhecem os albergues por um pedaço de pano suspenso em um bastão colocado à frente das casas, como na Europa as tabuletas dos cabarés". E acrescenta que os que viu eram maus e não satisfaziam pelo preço.

As hospedarias existentes na capital do Reino, também não eram boas, diz Carrère (Voyage em Portugal, p.58).

White, em 1787, falando do Rio de Janeiro, registra não só a falta de hotéis como de cafés. (Ob. cit. p.64).

Mawe, já no tempo do rei, achou, aqui, hotéis, porém, "maus e incômodos, de tal sorte que um estrangeiro não pode encontrar alojamento se não tiver um amigo que queira hospedá-lo", (Mawe, Voyage au Bresil, p.170).

John Barrow na sua Viagem à Cochinchina, quando aqui passou, ainda no tempo dos vice-reis, e não encontrou albergues ou qualquer outra espécie de alojamento, a não ser uma espécie de taberna do lado direito da grande praça montada por um francês, chamado Phillipe, assim filosofa: "na verdade, um albergue é inútil, pois que o governo fraco leva o sentimento de inospitalidade ao ponto de não deixar que um estrangeiro, seja ele qual for, fique em terra depois de cair o sol." (Ob. cit., v.1, p.112).

Leia-se o que, a propósito desses mesmos estrangeiros, por uma época em que se pretendia erguer entre os filhos da terra e o resto do mundo uma nova muralha da China, escreveu o marquês do Lavradio, terceiro vice-rei do Brasil no Rio de Janeiro: "Logo que chega o navio a seu bordo, permitindo que saia um oficial do mesmo navio afim de requerer-me. Este expõe as causas que o obrigaram a entrar no porto. Logo lhe pergunto se ele vem na resolução de que com o seu navio, oficiais e mais pessoas que vêm nele se pratique tudo que as reais ordens e Leis del Rey meu Senhor e estabelecidas neste continente determinam, e dizendo ele que sim, lhe permito que o navio venha dar fundo debaixo da artilharia das fortalezas desta capital. Logo mando a seu bordo um desembargador e um coronel levando consigo o patrão mor e mestrança e um escrivão para se fazer todos os exames em termos judiciais e autênticos nas conformidades que determinam as reais ordens. Antes do coronel e o ministro subirem ao navio faço vir para a terra dois oficiais principais do mesmo navio. Enquanto a bordo se ficam fazendo as diligências, estas consistem em examinar o ponto de rota e perguntar aos oficiais, mestre piloto, sobre as causas da mesma arribada e a parte de onde vem e o seu destino. E depois disto feito vem o mestre e o oficial para a terra com mais pessoas que levarão e em minha casa onde os dois oficias ficarão retidos se lhes fazem as mesmas perguntas que se fizeram aos que tinham ficado a bordo. Isto executado mando dizer ao oficial que comanda o navio que no outro dia a hora que me parece poderá vir fazer-me o seu requerimento. Para assistir a esta audiência são chamados os oficiais todos desta capital e ele me faz o seu requerimento e eu lhe respondo na conformidade que as ordens me permitem segundo o que me pede. Sabe para casa de fora enquanto eu lavro uma sentença que assino e em que eu declaro o tempo que lhe permito de estar neste porto para se prover do que precisar visto provar-se a indispensável necessidade com que entrou nele porque de outra forma nem ele podia vir nem eu consentir e que igualmente visto ele se obrigar a fazer termo de observar e todos as pessoas de seu navio tudo que determinam as reais leis de El Rei Meu Senhor e sujeitar-se a todas as suas reais ordens estabelecidas neste continente, nesta conformidade poderá estar os dias determinados e procurar o socorro que precisar. Enquanto o navio se acha no porto está sempre em escaler com seis ou oito soldados e um oficial para não deixar chegar nem uma embarcação que não seja do mesmo navio a bordo ou alguma que levar ordem minha. Conservo mais outra pequena embarcação também com um oficial para acompanhar as embarcações que vêm de bordo e que trazem oficiais. Não consinto que nenhuma embarcação venha de bordo sem que venha acompanhada daquela guarda ou traga uma sentinela da outra embarcação que está de ronda e a todas determino em lugar certo onde devem vir desembarcar e onde tenho um oficial de toda confiança com outros oficiais e oficiais inferiores escolhidos, debaixo de sua ordem para receberem e acompanharem as pessoas que vêm à terra. Igualmente se acha um oficial da Alfândega para se fazerem os exames precisos o que se pratica nesta conformidade quando qualquer embarcação destas chegar à terra, se não deixa desembarcar ninguém, sem que a sentinela possa dar parte ao oficial encarregado destas diligências para ele vir ver as pessoas que chegam. Este leva consigo os oficiais e oficiais inferiores e o da alfândega e logo faz desembarcar as pessoas que vêem na embarcação, exceto marinheiros, examina ao que vem, e sendo oficiais se lhe não faz busca nas suas pessoas porém sendo qualquer outro o oficial da alfândega os busca e depois de muito bem examinados, se entregam ao oficial e oficial inferiores para ir com eles tão somente ao destino a que eles declaram que vinham. O oficial da Alfândega passa à embarcação busca aos marinheiros e faz o mesmo exato exame em toda a embarcação. Não consinto que nenhum tome casas na cidade, nem nos seus subúrbios e ordeno a todos se recolham a bordo antes das Aves-Marias."
(Correspondência particular do marquês do Lavradio – Carta de amizade escrita ao governador de Angola, dom Francisco Innocencio de Souza Coutinho, e datada de 2 de setembro de 1772).

Assim, vivia-se, naquele tempo, segregado do mundo, sabendo-se apenas, por ouvir dizer, da existência de um país ao qual pertencíamos, que era Portugal o maior e ao mesmo tempo o mais forte e mais lindo de todos os países da terra, com um monarca que era, ao mesmo tempo, o mais poderoso, belo, temido e magnânimo dos reis de todo o universo, o qual, ao lado de Deus, velava, solícitamente não só pela grandeza como pela perene felicidade dos seus vassalos... Leia-se, a propósito, o que John Barrow escreveu, pela época, falando de um ricaço que conheceu nos arredores desta cidade: "No meio da maior abundância necessária à vida e até mesmo ao luxo esse homem era inteiramente alheio às vantagens que com o seu dinheiro poderia usufruir. E queixava-se da opressão da Mãe-Pátria. Dizia ele que o monopólio, as proibições e as taxas haviam arruinado o comércio, destruído a agricultura, desencorajando a mal nascente industrial; que o descontentamento era de tal forma geral, que não seria surpresa ver os habitantes desta colônia sacudir o jugo de Portugal e fazer a sua independência." (Ob. cit. v.1, p.136). É curioso observar como até estrangeiros por essa época (John Barrow esteve entre nós pelo correr do último decênio do século XVIII) já registravam as confissões do mal estar do filho da terra, ante a opressão asfixiadora da metrópole.


(Edmundo, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis, p.486)

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